Pico petrolífero em 2007?
por Carlton Meyer
Quando a controvérsia do aquecimento global aquece, o mesmo se passa com
a discussão do "pico petrolífero" o momento em
que a produção mundial de petróleo atingirá o pico
e começará então a declinar. Algumas pessoas afastam isto
como uma trama das grandes companhias de petróleo a fim de justificar
preços elevados, ao passo que outras assumem que isto é outra
campanha enganosa de ambientalistas para encorajar a conservação
[de energia[. Dada a contínua manipulação da
opinião pública, são compreensíveis as
dúvidas quanto ao pico petrolífero. O mundo é
sólido e durante a nossa vida ter combustível barato nunca foi um
problema. Avanços tecnológicos na eficiência do
combustível e energias alternativas deveriam providenciar uma
solução antes de a Terra ficar sem petróleo. No entanto,
há cinco razões para recear que o pico petrolífero esteja
próximo.
Cinco razões para nos preocuparmos com a proximidade do pico
petrolífero:
1- Descobrir petróleo tornou-se extremamente caro e arriscado.
Os depósitos de petróleo formaram-se ao longo de milhões
de anos no interior da Terra. A grande produção de
petróleo começou a apenas um século atrás. Os
Estados Unidos atingiram o pico petrolífero em 1970 e a
produção anual do óleo caiu gradualmente para a metade. A
actual produção seria menor se não houvesse novas
descobertas no norte do Alasca e o desenvolvimento de campos de petróleo
offshore. Os Estados Unidos são o líder mundial na
exploração e no desenvolvimento do petróleo, mas a
produção nos EUA continua a declinar. Toda a gente concorda em
que a produção mundial de petróleo atingirá o pico
um dia, e não existe método de importar petróleo de outros
planetas.
Se há abundantes depósitos de petróleo disponíveis:
-
Por que as companhias petrolíferas investem milhares de milhões
de dólares em tentativas complexas e arriscada de produzir
petróleo a parte de furos em águas profundas?
[1]
-
Por que as tentativas de desenvolver campos no árctico congelado ou
construir plataformas de milhares de milhões de dólares no
caminho de furacões no Golfo do México?
-
Por que as companhias petrolíferas estão a arriscar milhares de
milhões de dólares e as vidas dos seus trabalhadores em alguns
dos mais hostis países do mundo, como o Sudão e o Iraque?
-
Por que investir milhares de milhões de dólares em projectos
petrolíferos em países como a Rússia, que muitas vezes
impõem multas maciças pela "poluição"
às companhias de petróleo estrangeiras?
-
Por que negociar com países como o Equador, que acaba de revogar
licenças e tomar campos desenvolvidos?
-
Por que negociar com o Irão e as suas incertezas?
2- As companhias de petróleo rejeitam o pico petrolífero
Apesar de acusações não confirmadas, publicamente as
grandes companhias de petróleo desprezam o pico petrolífero como
um problema ameaçador. Declarações nos seus sítios
web, anúncios e discursos de executivos de grandes companhias de
petróleo evidenciam isto. Aqueles que desconfiam do big oil deveriam
aceitar isto como prova de que o pico petrolífero está
próximo.
Por que as companhias de petróleo desprezam este problema uma vez que
projecções de preços muito mais altos aumentariam o valor
das suas acções? Primeiro, as companhias estão
continuamente a negociar arrendamentos (leases) petrolíferos e outros
acordos com base nos preços projectados do petróleo. Se tais
projecções duplicassem, o mesmo aconteceria aos seus custos.
Segundo, as companhias de petróleo estão actualmente a
arrecadarem lucros enormes. Elas são a indústria mais lucrativa
do mundo. Se o mundo soubesse que elas em breve fariam lucros
astronómicos devido à escassez de petróleo, os governos
fariam esforços para regular ou aplicar impostos a estes lucros
inesperados. Finalmente, os altos executivos das companhias de petróleo
desenvolveram esquemas de pagamentos pelos quais podem-se tornar
multimilionários depois de uns poucos anos em posições de
topo. Tudo o que eles precisam fazer é sentar e dizer a toda a gente
que ninguém deveria ficar alarmado .
3- Dados da AIE indicam uma escassez de petróleo depois deste ano
Aqueles que argumentam que o pico petrolífero já chegou nunca
afirmaram que o mundo ficará subitamente sem petróleo, ou que uma
grande escassez provocará a catástrofe. Eles meramente destacam
que a oferta mal pode acompanhar a procura. Mesmo se o pico petrolífero
estiver a uns poucos anos de distância, a projecções da
Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que a procura
ultrapassará a oferta no 4º trimestre de 2007.
[2]
Mesmo que o mundo continue a aumentar a produção de
petróleo em milhões de barris por ano, isto não
será suficiente para atender o crescimento da procura, levando os
preços a aumentarem agudamente. A produção à
escala mundial parece ter atingido o pico a aproximadamente 85 milhões
de barris por dia (mbd), e o experiente perito em petróleo e
geólogo T. Boone Pickens declarou recentemente ser este o nível
do "pico petrolífero" e previu US$80 por barril no fim de 2007.
[3]
As projecções da AIE mostram que a procura mundial de
petróleo cresce até um récord de 87 mbd no 4º
trimestre de 2007, ao passo que a produção permanece estagnada em
torno do 85 mbd. Esta diferença parece pequena, mas ela significa que
os compradores de petróleo devem licitar por uma oferta limitada, e
espera-se que todas elas tragam para casa contratos para entregas do
óleo.
4- As reservas de petróleo estão a esgotar-se.
Os poços de petróleo ficam secos depois de 10 a 15 anos.
Aumentar a produção não é apenas uma questão
de furar novos poços, mas sim substituir poços esgotados por
novos. Algumas companhias de petróleo não estão a
conseguir substituir as suas reservas de petróleo no momento em que a
produção está a cair. Elas disfarçam este problema
através da compra de pequenas companhias de petróleo e
registando-as nas suas reservas e produção. Se bem que isto
resolva o seu problema, nada faz para substituir reservas esgotadas à
escala mundial.
John Busby, colaborador da SRA, descobriu um outro engano através das
análises dos relatórios anuais.
[4]
As companhias de petróleo também produzem gás natural.
Trata-se de um produto energético, mas não algo que possa ser
utilizado pela maioria dos automóveis. No entanto, agora as companhias
de petróleo listam as suas reservas como barris de petróleo
"equivalente", contando o conteúdo energético do
gás natural como dados de barris de petróleo. Isto obscurece
exactamente quanto petróleo bruto foi esgotado pois pode estar a ser
compensado por aumentos no gás natural.
Outra questão é a das reservas contabilísticas das
companhias de petróleo quando este é descoberto. Em muitos
casos, a falta de infra-estrutura local ou a instabilidade política
tornam o desenvolvimento destas reservas demasiado custoso ou arriscado. As
companhias de petróleo também furaram dúzias de
poços milhares de pés abaixo da base do oceano e apregoaram estas
descobertas em águas ultra-profundas como grandes acréscimos
às suas reservas de petróleo. No entanto, não há
qualquer esforço em andamento para produzir petróleo de muitos
destes furos pois as complexidades e os riscos são aterradores.
[5]
5- A procura por petróleo cresce apesar dos preços mais altos.
Os gurus do livre mercado estão confusos porque a sua mágica da
oferta versus procura fracassa nos mercados de petróleo. Os
preços da gasolina duplicaram nos últimos três anos, mas a
procura aumentou. Preços mais altos da gasolina não resultaram
em procura diminuída, mas menos gastos em outras áreas. Exemplo:
a Walmart culpou os preços mais altos da gasolina pelas suas vendas mais
baixas em 2005. Preços mais altos reduziram o crescimento da procura
pois as pessoas conduzem menos, fazem partilhas de carros, utilizam transportes
públicos e compram veículos mais eficientes em combustível.
Contudo, a procura por petróleo ainda aumentou devido a tendências
infraestruturais e culturais que evoluíram desde a Segunda Guerra
Mundial, especialmente nos Estados Unidos. A maior parte do país
está concebida de modo a que os automóveis sejam o único
método prático de transporte. Em áreas onde existe o
transporte por autocarro, o sistema é considerado um subsídio
para os pobres, e muitos americanos arrepiam-se à sugestão de
tomarem um autocarro. Eles prefeririam antes retirar dinheiro das suas
poupanças para pagar US$10 por galão [3,78 litros] de gasolina do
que ficar à espera numa paragem de autocarro. O grande livro de Paul
Fussell acerca da sociedade americana definia a classe pobre como a daqueles
que embarcam no autocarro.
Além disso, grandes carros de luxo são um símbolo de
status e muitos homens amam carros desportivos poderosos e grandes
camiões. Eles prefeririam trabalhar num segundo emprego do que serem
vistos a conduzir um pequeno Honda. Uma das canções mais
populares dos últimos anos era "Gasolina", em língua
espanhola, cujo refrão se traduz por "ela gosta de gasolina"
enquanto o seu vídeo mostra jovens a desfrutarem carros grandes e
poderosos. Na China e em outros países em desenvolvimento, o
símbolo do êxito é possuir um carro. Os trabalhadores
pobres querem possuir um carro mais devido ao status do que pela sua utilidade
como transporte.
Le gusta la gasolina
Estes padrões culturais certamente provocarão um choque de
civilizações pois toda a gente compete pelo petróleo. A
gasolina a US$5 por galão provoca impacto na economia, mas tem um
impacto limitado no crescimento da procura por petróleo. O mercado
livre sabe como reduzir a procura preços mais altos, mas
quão altos devem ir? O problema é que o preço não
é um factor importante para a alta classe média e acima, para os
militares, governos e a maior parte dos negócios. Eles pagarão
seja o que for que o mercado peça desde que isto não exija
sacrifício pessoal. Ironicamente, nas mentes da maior parte dos
americanos, preços mais elevados da gasolina apenas elevarão o
status social de conduzir um monstro bebedor de gasolina. Infelizmente,
aqueles que têm um orçamento limitado e estão dependentes
de um automóvel para o transporte lutarão para sobreviver nesta
era em que todos gostam de "Gasolina".
13/Jun/2007
[1]
O Thunder Horse parte uma perna
, 04/Maio/2007
[2]
Oil Market Report, IEA, May 11, 2007.
[3]
"Conference speakers point to $70-$80 oil by end of year",
Fort Worth Business Press,
May 13, 2007.
[4]
"ignotum per ignotius", SRA; October 27, 2006.
[5]
O Thunder Horse parte uma perna
, 04/Maio/2007
O original encontra-se em
http://www.sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1254
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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