Se privatizar é a resposta, qual foi a pergunta?
por Jorge Vasconcelos
[*]
Nada de mal acontecerá se, amanhã, após uma
patriótica privatização para resolver a emergência
financeira de hoje, os planos de expansão da REN forem anunciados num
hotel londrino e os lucros das redes energéticas nacionais forem
distribuídos pelas viúvas da Escócia, pelos reformados da
Califórnia ou pelos oligarcas russos. Mas os consumidores portugueses de
energia não retirarão daí qualquer benefício.
As redes nacionais de transporte de electricidade e de gás natural
estão à venda. Eufemisticamente, diz-se que vão ser
privatizadas parcialmente, como sempre acontece quando o Estado,
envergonhado, vende o seu património. Sobretudo quando esse
património corresponde a uma infra-estrutura essencial que actua e
continuará a actuar em regime de monopólio.
A privatização da REN-redes energéticas nacionais parece
ser a resposta tecnicamente iluminada, politicamente moderna, economicamente
inteligente, financeiramente vanguardista e socialmente ousada a uma qualquer
questão. Será?
Será que a privatização da REN decorre de uma
obrigação ou de uma recomendação comunitária
(sabe-se como a Europa da concorrência sem distorções tinha
as costas largas)? A resposta é não.
De acordo com o direito comunitário, o transporte de energia
(electricidade e gás natural) é um monopólio regulado e
deve ser exercido por empresas separadas juridicamente de empresas que actuem,
em regime de concorrência, na produção, na
importação e na comercialização de energia.
Assegura-se assim o acesso não discriminatório de todos os
interessados às infra-estruturas de transporte e facilita-se o
desenvolvimento de mercados de energia eficientes.
O direito comunitário apenas impõe a separação
jurídica da actividade de transporte, nem sequer obrigando à
separação patrimonial. Contudo, quer a experiência
portuguesa de separação patrimonial do transporte de
electricidade, ocorrida em 2000, quer numerosas experiências
internacionais, na electricidade e no gás natural, demonstram a vantagem
de proceder à separação patrimonial.
A junção do transporte da electricidade e do gás natural
numa mesma empresa é, normalmente, uma livre decisão empresarial.
Embora em Portugal ela tenha sido imposta pelo legislador, não resulta,
em todo o caso, de qualquer constrangimento do direito comunitário.
Tratando-se de dois monopólios, esta forma de concentração
não cria, em princípio, obstáculos ao desenvolvimento da
concorrência e, potencialmente, pode proporcionar algumas economias ao
sector energético (embora a escassa experiência internacional
não seja conclusiva a respeito do valor das sinergias).
Relativamente à natureza da propriedade das empresas de transporte de
energia - pública, privada ou cooperativa - o direito comunitário
é neutro e as mais diversas situações coexistem no
espaço da União Europeia. Olhando em torno, pode-se concluir que
nem a propriedade privada das infra-estruturas de transporte garante
automaticamente maior eficiência aos mercados de energia - sobretudo
quando não é acompanhada da já referida
separação patrimonial - nem a propriedade pública garante
automaticamente melhor qualidade de serviço, contrariamente a algumas
intuições difusas.
Será que a privatização da REN decorre de um compromisso
eleitoral? A resposta é não.
O programa do Governo estabelece como objectivo "[d]ar um novo impulso
à liberalização do mercado da electricidade, em todos os
seus segmentos (produção, distribuição,
comercialização) e antecipar o calendário de
liberalização do mercado do gás natural" mas
não refere a privatização da REN.
Que motivos podem justificar a privatização do transporte de
energia em Portugal? Duas hipóteses ocorrem ao espírito:
a) Necessidade de atrair capital para novos investimentos no transporte de
energia.
As dificuldades financeiras da EDP, no final dos anos 1980, levaram à
abertura da produção de electricidade ao capital privado e
à construção, no início dos anos 1990, da primeira
central eléctrica em regime de
project finance
em Portugal (que foi também a primeira na Europa continental).
Todavia, a REN goza de excelente saúde financeira (em 2006 teve
resultados líquidos de 148 milhões de euros e em 2005, antes da
junção do gás à electricidade, de 104
milhões de euros) e são-lhe atribuídos os melhores
ratings. Em 2005 investiu 215 milhões de euros no sector
eléctrico - bem acima dos 137 milhões de 2004, dos 118
milhões de 2003 e dos cerca de 60 milhões por ano que investia
nos anos 1990, antes da liberalização e da
regulação do sector.
b) Necessidade de melhorar o desempenho da empresa.
O desempenho técnico e económico da REN tem vindo a melhorar ao
longo dos últimos anos. De acordo com um estudo de benchmarking
encomendado pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, a
REN, não sendo a empresa de transporte de electricidade mais eficiente,
e tendo embora importantes ganhos de eficiência a obter, também
não é a menos eficiente. Em 2006, as tarifas de uso da rede de
transporte estavam 27% abaixo do valor de 1999, em termos reais.
Entre 1999 e 2004, a gestão optimizada dos contratos vinculados de
produção de energia eléctrica do sistema público,
realizada pela REN, permitiu obter ganhos comerciais de 111 milhões de
euros que foram partilhados entre os consumidores e os accionistas da empresa.
O desempenho técnico da REN tem vindo a melhorar ao longo dos
últimos anos, quer em termos de qualidade de serviço, quer em
termos de redução das perdas de electricidade na rede - estas
desceram de 2,6% em 1995 para 1,4% em 2005.
Se o Estado proprietário considerava o desempenho financeiro da empresa
insuficiente, podia mudar a sua administração, como fazem
normalmente os accionistas descontentes e como sugere o próprio programa
do Governo: "O Estado, pela posição que ainda ocupa em
importantes empresas, deve ser um exemplo catalisador da adopção
de boas práticas de governação societária, tendo em
vista a definição de um quadro de gestão que fomente o
rigor, que responsabilize os responsáveis e promova uma maior
transparência da sua acção. O Estado, deste ponto de vista,
é um accionista como os demais e deve reger a sua actividade dentro do
quadro normativo vigente".
Não sendo evidentes razões objectivas intrínsecas aos
sectores da electricidade e do gás natural que justifiquem a
privatização da REN, essas razões devem ser procuradas
fora do sector energético. Descartando motivações
ideológicas, manifestamente fora de moda, restam
motivações financeiras a emergência das contas
públicas, a necessidade de reduzir o défice público.
O "emergencialismo" parece ser a nova ideologia do Estado
português no século XXI, no bem e no mal. No bem, quando serve de
pretexto para a introdução de reformas necessárias; no
mal, quando relega para segundo plano considerações de
carácter económico, industrial, ambiental e social de longo prazo
em nome de imperativos financeiros de curto prazo.
Privatizar uma empresa não significa liberalizar um sector. Privatizar
um monopólio não tem mesmo nada a ver com
liberalização. Na perspectiva dos consumidores de energia, mais
útil que privatizar as redes de transporte, seria liberalizar e
privatizar integralmente os produtores e comercializadores de electricidade e
de gás natural, favorecendo o desenvolvimento de uma concorrência
saudável entre eles, num quadro ibérico transparente e eficiente.
Assim, um monopólio semi-privado no meio de um mercado virtual produz o
mesmo efeito que um smoking na praia.
Nada de mal acontecerá se, amanhã, após uma
patriótica privatização para resolver a emergência
financeira de hoje, os planos de expansão da REN forem anunciados num
hotel londrino e os lucros das redes energéticas nacionais forem
distribuídos pelas viúvas da Escócia, pelos reformados da
Califórnia ou pelos oligarcas russos. Mas os consumidores portugueses de
energia não retirarão daí qualquer benefício.
[*]
Ex-presidente da
ERSE
e consultor de energia
O original encontra-se em
http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?Session=&CpContentId=298627
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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