Petróleo:
Subestimando a procura, superestimando a oferta
No fim de Agosto de cada ano, a Agência Internacional de Energia (IEA)
actualiza os relatórios dos 15 anos anteriores com todas as
últimas revisões. Não tive tempo para conferir e
verificar quão grandes foram algumas revisões. O que me
impressionou foram as mudanças em curso tanto na procura (a qual sempre
foi encarada com uma grande dose de cepticismo, considerando-se serem
improváveis novos crescimentos de qualquer magnitude) como na oferta
não-OPEP a qual tem sido projectada para ascender no 4º trimestre
do ano seguinte durante os últimos 15 anos.
Em retrospectiva, o melhor meio de examinar as questões chave
fundamentais
é olhar cuidadosamente para as mudanças na oferta e procura
global, e de onde vieram elas. Entre 1991 e 2005, a procura global por
petróleo cresceu 16,5 milhões de barris/dia (mi. b/d). O mais
espantoso é que a procura não-OPEP cresceu de 58,9 mi. b/d em
1991 para 79,8 mi. b/d em 2005. Por outras palavras, além do colapso
não previsto da antiga União Soviética, a procura de
petróleo do resto do mundo cresceu em 20,9 mi. b/d em apenas 14 anos
(35%, 2,5% por ano) em contraposição às
projecções de muitos sábios do petróleo de que o
crescimento da procura certamente enfraqueceria.
Nesse meio tempo, a oferta de petróleo não-OPEP, fora da antiga
URSS, cresceu nestes mesmos 14 anos, mas apenas uns modestos 6,7 mi. b/d, de 31
para 37,7 mi. b/d. Isto é menos do que 0,5 mi. b/d. Demasiadas
regiões importantes atingiram o pico e entraram em declínio. Se
a antiga URSS não tivesse sido capaz de crescer de 10,4 para 11,6 mi.
b/d e a OPEP de crescer de 25,6 para 34,2 mi. b/d, a economia mundial
provavelmente teria estado em águas muito quentes.
Olhando para a frente, se o crescimento da antiga URSS é modesto e o
crescimento da OPEP verifica-se apenas num punhado de países, e é
compensado pelos declínios na Indonésia, na Venezuela,
possivelmente na Nigéria, no Iraque, possivelmente no Irão e
talvez na Arábia Saudita será impossível tolerar
quaisquer saltos significativos na procura, e certamente nenhum da magnitude
daqueles que se verificaram nos últimos 14 anos.
O mundo do petróleo transformou-se de um modo muito diferente daquele
que os peritos da EIA, IEA, CERA, BP, EXXON e todos os outros pensaram. Tudo o
que alguém precisa fazer é identificar estas grandes
tendências do passado e fazer uma pequena quantidade de trabalho de casa
para avaliar os números a fim de identificar as tendências chave.
Tudo isto seria académico para o mundo se não estivéssemos
a tratar de petróleo, o maior e o mais crítico recurso
energético mundial. Como nós arrebentámos com o futuro
será o assunto de muitos livros ao longo das próximas
décadas!
Mais dados sobre a oferta e a procura (pelos editores da
Peak Oil Review
)
Uma vez que Matt Simmons sugeriu olhar para as tendências do passado
quanto à oferta e à procura, aqui está uma retrospectiva
de 10 anos
dos maiores ganhadores e perdedores na oferta global de petróleo.
Também anexamos as tendências de consumo interno destes mesmos
países.
O que nos contam os dados:
O ganho na oferta total da Rússia e da China foi compensado pelo
consumo interno acrescido daqueles dois países. No essencial, o ganho
da Rússia foi engolido pela China. Note-se que o consumo interno da
Rússia está a ganhar terreno mais rapidamente do que os
números dos últimos 10 anos indicariam.
Os 10 países com maiores declínios duplicaram o impacto daqueles
declínios pelos aumentos dos seus consumos internos num montante igual
ao do seu declínio.
Um dos ganhadores, o Iraque, seria uma aposta muito questionável
[tentar] repetir o seu ganho, o qual reflectiu a transição do
Iraque de exportador sob embargo em 1995 para exportador dilacerado pela guerra
hoje.
Dois dos principais países em declínio na última
década a Colômbia e a Austrália caíram
0,5 milhão de b/d adicionais após os seus picos (em 1999 e 2001,
respectivamente). Assim, a soma relativamente modesta desta
comparação de 1995 para 2005 esconde as suas estórias
verdadeiras de esgotamento.
Notámos que durante a próxima década pelo menos
três dos Grandes Ganhadores da década passada
Rússia, México e China atingirão o pico
petrolífero e entrarão em declínio. Isso é
projectado por muitos analistas (inclusive as próprias agências
destes países). Possuídos por conflitos políticos, o
Iraque e a Nigéria são incógnitas. Serão os cinco
jogadores remanescentes Arábia Saudita, Casaquistão,
Canadá, Brasil e Catar capazes de gerar grandes aumentos durante
a próxima década?
Os maiores ganhadores e perdedores na produção de petróleo
1995-2005
e os aumentos dos consumos internos
|
Países ganhadores
|
Quantidade ganha
milhões b/dia
|
Aumento do consumo interno
|
|
milhões b/d
|
Tendência
|
|
1. Rússia
|
3,263
|
0,170
|
diminuiu até 1999 e então aumentou
|
|
2. Arábia
|
1,908
|
0,619
|
consumo subiu todos os anos
|
|
3. Iraque
|
1,290
|
|
não há dados
|
|
4. Brasil
|
1,000
|
0,321
|
subiu todos os anos
|
|
5. Casaquistão
|
0,930
|
0,061
|
caiu até 1999 e então subiu
|
|
6. México
|
0,694
|
0,328
|
subiu em quase todos os anos
|
|
7. Canadá
|
0,645
|
0,465
|
subiu em quase todos os anos
|
|
8. China
|
0,638
|
3,593
|
subiu todos os anos
|
|
9. Catar
|
0,636
|
0,062
|
triplicou a utilização interna
|
|
10. Nigéria
|
0,582
|
|
não há dados
|
|
Ganho total
|
11,586
|
5,619
|
|
|
Países perdedores
|
Quantidade perdida
milhões b/d
|
Aumento do consumo interno
|
|
milhões b/d
|
Tendência
|
|
1. EUA
|
1,492
|
2,930
|
aumento relativamente firme
|
|
2. Reino Unido
|
0,941
|
0,033
|
aumento durante 3 anos
|
|
3. Indonésia
|
0,442
|
0,348
|
constante durante 4 anos
|
|
4. Egipto
|
0,228
|
0,142
|
aumentos razoavelmente firmes
|
|
5. Síria
|
0,127
|
|
não há dados
|
|
6. Gabão
|
0,122
|
|
não há dados
|
|
7. Camarões
|
0,048
|
|
não há dados
|
|
8. Uzbequistão
|
0,046
|
|
não há dados
|
|
9. Colômbia
|
0,042
|
-0,030
|
procura constante desde 1999
|
|
10. Austrália
|
0,029
|
0,103
|
aumento gradual
|
|
Perda total
|
3,517
|
3,526
|
|
Fonte: BP Statistical Review of World Energy, Junho 2006.
[*]
Presidente da Simmons & Co. International, banco de investimentos independente
especializado na indústria energética. Autor de
Crepúsculo no deserto
.
O original encontra-se em
Peak Oil Review
, nº 35, 05/Setembro/2006.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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