Esquerdas conservadoras também na Andaluzia

por Juan Torres Lopez [*]

Promotores da revolução conservadora. Um dos maiores erros que se podem cometer ao analisar as sociedades do nosso tempo é continuar a considerar que a direita é conservadora e a esquerda progressista ou revolucionária.

Segundo o Dicionário da Real Academia, ser conservador ou conservadora em política equivale a ser especialmente favorável a manter a ordem social e os valores tradicionais frente às inovações e às mudanças radicais.

Se considerarmos como boa essa definição, está claro que nos últimos quarenta ou cinquenta anos a direita foi revolucionária, ao passo que as esquerdas, em todas as suas expressões ainda que em maior medidas aquelas que governaram, mostraram-se como correntes de pensamento e acção muito mais conservadoras.

Quando o sistema capitalista entrou na grande crise dos anos sessenta e setenta do século passado (não só a do petróleo como a mais profunda que afectava suas bases estruturais) as grandes empresas multinacionais e os bancos não tiveram medo de dar a volta aos princípios, às políticas e aos valores que até então haviam servido para manter o sistema mas que estavam a fazer água. E estiveram tão decididos a romper a ordem social dominante que não tiveram medo de impulsionar uma autêntica mudança política revolucionária, a que eles próprios chamaram "revolução conservadora". A que levou a cabo a direita de todo o mundo acendendo o neoliberalismo e que foi liderada inicialmente por Pinochet, Thatcher, Reagan e o papa João Paulo II.

Com a revolução conservadora da direita ao serviço do capital, não só mudaram as políticas económicas como também o modo de utilizar as instituições, a ética que guia a intervenção dos Estados e, sobretudo, a forma de ser, as motivações e o comportamento das pessoas: "o económico é o método, o objectivo é mudar a alma", disse Thatcher numa entrevista ao Sunday Times em 3 de Maio de 1981.

A revolução que se pretendeu teve um êxito extraordinário porque conseguiu muito folgadamente seus dois grandes objectivos: recuperar o lucro do capital que estava em perigo pelo enorme poder de negociação que haviam adquirido as classes trabalhadoras e reduzir à mínima expressão a capacidade de resposta destas últimas quando isso sucedesse às suas custas.

Esses dois objectivos foram alcançados através de três grandes vias. Em primeiro lugar, convertendo as sociedades numa soma de átomos, de indivíduos desconectados uns dos outros, para que não fossem capazes de organizar-se colectivamente e dar respostas potentes à espoliação e sofrimento que lhes iam provocar as políticas neoliberais. Em segundo lugar, dominando e utilizando os meios de comunicação e todas as fontes de informação e opinião para cometer o que Jean Baudrillard chamou "o crime perfeito, o assassinato da verdade" que conseguiu, como diz Chomsky, que as pessoas já não acreditassem nos factos. E, finalmente, graças a uma série de reformas estruturais muito bem concebidas e postas em prática para mudar o modelo produtivo e a organização do trabalho.

Nesse processo, as esquerdas não só foram derrotadas como, além disso, perderam o norte. O relato histórico que antes lhes havia servido para atrair as classes trabalhadoras e profissionais até por em xeque o capitalismo glorioso do pós guerra ficou obsoleto perante a revolução na colocação, nos objectivos e na linguagem da nova direita. A base eleitoral da esquerda fragmentou-se enquanto se expandiram o individualismo e a desinformação e o anterior horizonte de mudança social que apregoava começou a ser visto como algo longínquo e anacrónico diante da ideia do fim da história que se impunha por toda a parte com a força de um tsunami.

Utilizando uma linguagem eclesiástica, poderia dizer-se que a direita conseguiu gerar um projecto ecuménico, capaz de penetrar e convencer grandes maiorias sociais e inclusive aqueles que nunca haviam comungado com as etiquetas ou ideias da direita, apesar de perderem direitos e bem estar em passos gigantescos. As esquerdas, pelo contrário, foram incapazes de gerar um projecto de maiorias e, em resumo, criaram uma multidão de capelas, normalmente muito confrontadas entre si e, quase sempre, como se se tratasse de uma guerra de religião: ecologismo, pacifismo, feminismo, decrescimento, rendimento básico, economia do bem comum... para não mencionar senão as que agora mais aparecem.

Quase todas as correntes das esquerdas proclamam no papel o seu radicalismo e desejo de ir mais além do tipo de sociedades em que vivemos, mas as mudanças sociais não se produzem porque simplesmente se manifesta a vontade de executá-las. As esquerdas fizeram conservadoras porque não souberam dar passos substanciais no terreno da acção para mostrar antecipadamente sinais desse futuro diferente a que dizem aspirar. Em resumo, faz-se (quando se faz) uma melhor gestão do presente, mas nem sempre isso ocorre. As esquerdas podem por muitas ideias sobre o papel mas constroem muito poucas realidades. Em grande parte, porque continuam a pensar em termos binomiais, lineares e inclusive maniqueístas, sem saber ou querer dirigir-se mais do que às suas tribos correspondentes no seu dialecto particular, sem compartilhar pensamento para elaborar projectos comuns e sem se organizar para criar experiências concretas.

A política revolucionária e com êxito da direita consiste em gerar uma ideação, um conto com base em mitos ou expressões sobre coisas que na realidade são materialmente inexistentes (livre mercado, liberdade de escolha, capital humano, soberania do consumidor, empregabilidade...) mas que a sua forma de conectar com as pessoas, de comunicar e de conviver com elas lhe permitiram que fossem assumidas como verdades.

Lamentavelmente, frente a isso já não base apresentar outra retórica e oferecer um ideal, um programa, um sonho, um simples objecto de crença. Se as esquerdas querem formar maioria de transformação efectiva têm de criar realidades diferentes daquelas que estamos a viver, antecipar o futuro que oferecem e não reclamar actos de fé pois só assim pode nascer o contrapoder que permita destruir o que as grandes empresas e as finanças conseguiram concentrar em seu benefício nestes anos de neoliberalismo.

Na Andaluzia padecemos este mal e em alto grau. Nossas esquerdas são na prática conservadoras da ordem existente porque carecem do projecto de futuro, de conivência e unidade entre elas e de cumplicidade com a sociedade. Sejamos sinceros: o que oferecem hoje em dia às andaluzas e andaluzes o PSOE, Unidas Podemos ou Anticapitalistas? O que estão a fazer hoje em dia para influenciar substantivamente a marcha das coisas? Onde está o seu encontro com as pessoas comuns para pensar e poder actuar e reforçar-se colectivamente, como é imprescindível para mudar sociedades complexas como a nossa?

As esquerdas andaluzas precisam despertar e recompor-se, mas não o farão a sós. É preciso que sejam as pessoas que lhes chamem a atenção tomando a palavra e pondo-se a andar.

19/Dezembro/2020

[*] Economista.

O original encontra-se em La Voz del Sur e em
juantorreslopez.com/izquierdas-conservadoras-tambien-en-andalucia/


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22/Dez/20