por Colectivo Editorial de La Haine
A coincidir com as ameaças lançadas no passado dia 3 de
Março pela Audiência Nacional às webs que façam
suposta "apologia do terrorismo", a polícia intensificou
repentinamente suas visitas a La Haine, e detectámos na imprensa
empresarial atitudes que poderiam preparar o terreno para uma nova
criminalização.
Nos últimos dias tivemos em alguns momentos problemas de acesso à
nossa web, algo que nos surpreendeu uma vez que desde que implantámos o
novo desenho e a nova tecnologia, em Outubro de 2005, o sítio havia
melhorado muito o seu rendimento.
Ao investigar as causas disto detectámos um repentino aumento das
visitas da polícia. Sobretudo a partir do número IP
195.55.201.80, que segundo a
Ripe
pertence à Direcção Geral da Polícia.
Particularmente entre as 13 e as 14 horas do dia 1 de Março houve um
aumento espectacular das páginas lidas, coincidente com um aumento
também exponencial dos acessos a partir de outro IP, este pertencente
segundo a
Ripe
à Telefónica. Aparentemente foi uma tentativa de
hackear a web. Houve mais de 15 mil tentativas de aceder à área
administrativa do nosso sítio. Entre outras coisas procuravam executar
ficheiros inexistentes e também tentaram aceder com o método
POST, o que indicaria provas de contra-senhas. Foi nesse momento que se
lançou uma consulta que consumiu quase totalmente os recursos da nossa
base de dados, fazendo com que a web ficasse inacessível por sofrer
"demasiadas conexões".
Mas como todos sabemos, para a polícia não faltam tempo e
recursos, pelo que as visitas continuaram a chegar. Até ontem, nestes
poucos dias do mês de Março, houve um total de 3717 acessos. Isto
é particularmente notável uma vez que nestes últimos meses
as visitas policiais passavam quase desapercebidas.
Continuando a investigação, vimos por exemplo um artigo em El
País,
La Guardia Civil descubre una red de internautas que hace apología de ETA y de otras bandas armadas
, que diz entre outras coisas:
O titular do Julgado número 1 da Audiência Nacional, Santiago
Pedraz, começará na próxima semana a tomada de
declaração como imputados de sete supostos administradores ou
utilizadores de páginas web que, segundo um relatório da Guardia
Civil, dão apoio a bandos armados ou grupos terroristas. "Isto
realiza-se inserindo anagramas de bandos armados, imagens e comentários
homenageando terroristas presos ou mortos em enfrentamentos com as
forças e corpos de segurança, e inclusive mensagens incitando a
ETA a matar membros da Ertzaintza", sustenta a investigação.
O relatório entregue ao juiz pela unidade de Ciberterrorismo do
serviço de informação da Guardia Civil recorda que estas
pesquisas iniciaram-se em Março de 2005 por representantes legais da
Associação de Vítimas do Terrorismo, perante a
existência na Internet de páginas web que enalteciam a luta armada
e implicavam um desprezo para com as pessoas que sofreram violência
terrorista.
Todas estas páginas web onde caem estas mensagens supostamente
delictivas, cuja difusão a Guardia Civil pretende que o juiz bloqueie,
têm como nexo o facto de que tomam a aparência de fóruns de
temática independentista ou revolucionária.
Mas isto não para aí. No mesmo dia Periodistadigital.com, num
artigo assinado por Felipe Valdés,
La telaraña tejida por ETA
, enfurece-se directamente contra La Haine.
O primeiro passo é fixar um ideário comum à
"causa" pela qual se "luta" (mata), fazer crer que
só há uma saída. Disso, de luta, é o que fala uma
página cujo nome traduzido significa "o ódio", que no
seu princípio diz:
"Temos um interesse especial em que a esquerda abra os olhos e os
braços à luta do povo vasco, a qual está a desestabilizar
de um modo muito importante a harmonia política e económica da
União Europeia".
Para legitimar a referida postura citam como referência um artigo de
Günther Anders chamado "O fim do pacifismo", cuja
extrapolação para Euskadi dão o título "A
única saída é a violênia", tese (sic) que
explicam amplamente. Uma vez estabelecido o terreno de jogo (somos um povo
oprimido ao qual só a luta, ou seja, a violência, pode operar),
passa-se à etapa seguinte: a propaganda difundida através de
meios de comunicação afins.
A citação entre aspas foi retirada da nossa
apresentação
e o "artigo" de Günther Andres
é na realidade uma análise de
Osvaldo Bayer
do compêndio
¿Violencia, sí o no? (Una discusión necesaria),
uma crítica demolidora à violência do sistema capitalista.
Não é a primeira vez que nos atacam. Após os atentados
nos comboios suburbanos de Madrid, La Haine deixou de funcionar às 21h30
de sábado 13 de Março de 2004, véspera das
eleições presidenciais e dia de manifestações
espontâneas contra Aznar que cobríamos em directo; o servidor
suspendeu nossa web logo a seguir a um ataque informático. Enquanto
isto acontecia, recebiam-se nos nossos correios mais de 50 mensagens
insultuosas com o selo de "Basta Ya", organização
ultra-direitista vinculada ao partido de Aznar. A página esteve
encerrada vários dias até que finalmente tivemos de mudar de
servidor. Nesse momento
escrevemos
:
Este ataque demonstra-nos que incomodamos os poderosos e seus aliados. Somos
conscientes de que estávamos a realizar um trabalho eficaz para
desmantelar as mentiras do governo e sua utilização eleitoral
(...) Após esta miserável rasteira à expressão
rebelde levantamo-nos de novo. Não nos calaram, nem nos calarão.
Continuamos de pé com a mesma convicção de sempre".
"Este ataque nos demuestra que molestamos a los poderosos y sus aliados.
Somos conscientes de que estábamos realizando un trabajo eficaz para
desmantelar las mentiras del gobierno y su uso electoral (...) Tras esta
miserable zancadilla a la expresión rebelde nos levantamos de nuevo. No
nos callaron, ni nos callaran. Seguimos en pie con la misma ilusión que
siempre."
Não sabemos se se está a preparar uma
criminalização em regra contra nosso sítio, ou se
são apenas balões de sondagem para ver por onde andamos, ou ainda
um jogo macabro para tentar assustar-nos. Em todo o caso, queremos fazer uma
chamada de atenção, especialmente aos movimentos sociais com os
quais tecemos a luta anti-capitalista, e aos outros meios alternativos, para
que estejam atentos diante de uma possível escalada criminalizadora.
08/Março/2006
O original encontra-se em
http://www.lahaine.org/index.php?p=13108&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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