Contra o fausto do 30º aniversário da proclamação deste rei de Espanha

por Victor Diaz-Cardiel [*]

"Não tolerarei que ninguém fale mal de Franco na minha presença".
Juan Carlos I


Cartaz de Juan Antonio Morales, do Ministério da Propaganda da República Espanhola, publicado em 1936-37. Em 18 de Julho de 1978, a Casa Real publicou o texto seguinte, que nunca foi rectificado: "Hoje comemora-se o aniversário do levantamento nacional, que deu a Espanha a vitória contra o ódio e a miséria, a vitória contra a anarquia, a vitória para levar a paz e o bem-estar a todos os espanhóis. Surgiu o exército escola de virtudes e a encabeçá-lo o generalíssimo Franco, forjador da grande obra de regeneração."

Estava aprovada a Constituição.

Esta a regeneração, de que falava o texto da Casa Real, que nunca foi corrigido, nem rectificado:

192.684 executados e assassinados (1939-1945), incluindo 30.000 que continuam desaparecidos no ano de 2004).

Que fez a monarquia nestes 30 anos? Que fizeram os governos democráticos?

- 14 anos de governo do PSOE de Filipe Gonzalez: Olhemos para trás.

- Podemos dizer: a Guerra Civil, o pós-guerra e os seus protagonistas eram pura arqueologia, restos do passado, que havia que ultrapassar apressadamente. "Afastemo-nos o mais rapidamente possível daquela Espanha negra que acreditamos esquecida".

- "Organizar desfiles e convidar e convidar para eles, os fascistas da divisão azul e os anti-fascistas da divisão Leclerc". As opiniões são de Alfonso Guerra, Bono, N. Redondo (filho), Filipe Gonzalez.

O governo de José Luís Rodriguez Zapatatero tem um compromisso forte, que não teve o primeiro governo do PSOE de Filipe Gonzalez, na recuperação da memória histórica. Aprovou os decretos seguintes:

1- Decreto Real 189/2004, de 10 de Setembro que cria a comissão inter-ministerial para o estado da situação das vítimas da Guerra Civil e do franquismo.

2- Deliberação de 23/12/2004, da comissão de peritos (17) sobre os papéis do arquivo de Salamanca. Resolução do governo 28/12/2004, favorável à deliberação da Comissão.

3- Decreto Real de 3 de Dezembro de 2004 que nomeia a comissão que vai organizar e coordenar, entre outras efemérides, o XXX aniversário da proclamação de Juan Carlos I como rei de Espanha. A comissão é presidida por Maria Teresa Fernandez de la Veja, vice-presidente do governo.

PARA QUÊ ESTA CELEBRAÇÃO?

Porque é que um partido que se reclama do republicanismo cívico celebra com todo o fausto, esta subida ao trono de quem não é capaz de ser um chefe de Estado, mas dos vencedores?

Nem assomo de vingança, nem assomo de revanche, nada disso. O que temos é uma necessidade, imensa, os espanhóis e as espanholas, de aprofundar a democracia. Podermos decidir sobre o chefe de Estado que queremos. Necessidade que os meios de comunicação, públicos e privados, não nos tomem por "carneiros" e não nos repitam um milhar de vezes que a senhora Leticia está grávida, que Juan Carlos voltou a ser avô, que este é o avô único, que visita os meninos no colégio, que vai a todos os actos desportivos mais importantes, que goza, enfim, de impunidade jurídica.

À força de repetir milhares e milhares de vezes a bondade do monarca e da Casa Real "convence-nos" que Juan Carlos lutou pela liberdade toda a sua vida, que a família real é Imaculada. Foi o monarca Juan Carlos I, durante todos aqueles anos de ditadura e todo o tempo de transição um democrata clandestino, ou melhor, foi ele, juntamente com outros, bem entendido, o "grande pregador" que tornou possível a conservação do poder: do franquismo e do actual?

A monarquia e o seu séquito não é só um grupo profundamente conservador, muito afastado da experiência e do quotidiano da maioria das classes populares, mas também actua como inibidor da recuperação da história real do nosso país, recuperação sem a qual não se pode estabelecer uma cultura autenticamente democrática, estabelecendo os valores republicanos nos quais tal cultura se baseia.

Juan Carlos I jamais pediu perdão aos vencidos, não assistiu como Chefe de Estado a nenhum acto público comemorativo, por exemplo, do fim da II Guerra Mundial. Isso significaria, certamente, renunciar ao seu intenso passado franquista-fascista. O "homem providencial", a monarquia são cada vez mais uma contradição, um impedimento para o desenvolvimento material, político-económico, social e cultural da sociedade espanhola. Um anacronismo, uma enteléquia que, definitivamente, deveria ser simplesmente excluída do modelo de Estado que necessitam os povos de Espanha.

A cultura republicana, pelo contrário, significa que as distâncias sociais entre o Chefe de Estado e as classes populares são muito mais reduzidas que nas monarquias: a espanhola em primeiro lugar.

A cultura republicana transmite a sensação de que o poder deriva da cidadania, por isso, mesmo que o Chefe de Estado lhes não agrade, podem mudá-lo por outro Chefe de Estado. E mais, qualquer cidadão pode aspirar a esse cargo de serviço público.

Com a celebração do XXX aniversário, será que o PSOE, o partido do governo, não pretende transferir o prestígio de Juan Carlos I ao seu filho Filipe? E nele perpetuar a monarquia.

O original encontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=17206 .
Tradução de JPG.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

19/Jul/05