Scowcroft e Baker elevam a aposta
Aprofunda-se o abismo entre os conservadores
A maquinaria de tomada de decisões do Estado raramente é exposta
ao exame público. A cobertura do governo representativo é uma
ficção, mantida escrupulosamente, que esconde os pormenores
práticos da política real. Normalmente, os políticos e os
seus cúmplices nos media conseguem manter intacta a ilusão do
governo representativo, evitando a dedução embaraçosa de
que a ordem actual é realmente sustentada pelas elites que tomam as
decisões. Só quando surge uma grande clivagem entre os membros
da classe dominante é que temos a oportunidade de admirar como se movem
as peças do aparelho imperial.
A deterioração da situação no Iraque precipitou
este cenário extremo. A clivagem a que aludimos tornou-se, de facto, um
enorme abismo, lançando uma facção de antigos homens de
Estado conservadores contra os seus antecessores na administração
Bush. Pode-se esperar que esta batalha de gigantes cresça
exponencialmente devido ao choque quanto às características de
princípio quanto ao futuro da ocupação do Iraque.
De um lado, temos aqueles que talvez sejam os mais amplamente respeitados
peritos políticos (conservadores) vivos hoje, a aconselharem a
administração a retirar-se do Iraque. Zbigniew Brzezinski, Brent
Scowcroft e James Baker juntaram-se às fileiras dos esquerdistas
anti-guerra e apelam a uma retirada imediata das tropas americanas. Eles
notaram as tentativas fracassadas da administração Bush para
impor mesmo a segurança mínima ou para atingir os objectivos
globais da invasão. Com o Iraque a inclinar-se precipitadamente em
direcção à guerra civil, e com o prestígio da
América irreparavelmente danificado, os seus protestos deveriam ser
encarados como um apelo ao retorno à sanidade política.
Evidentemente, este firmes apoiantes da supremacia americana nunca aceitariam
semelhante derrota humilhante se houvesse a mais remota possibilidade de
êxito. Isto nos dá uma ideia da extensão em que os media
têm estado a esconder do público os pormenores cruciais do
desastre no Iraque. Mesmo aqueles que mais provavelmente beneficiariam com a
dominação regional estão a saltar para fora do navio do
Estado que se afunda.
A significância desta rebelião entre membros conservadores do
establishment não pode ser subestimada. A guerra no Iraque não
emanou de uma ameaça viável à segurança nacional e
sim de um consenso entre as elites de que o futuro da América dependia
da projecção do seu poder no Médio Oriente. Isto é
evidente em tudo, desde a manipulação das taxas de juro para
ajudar a agressão, às ameaças fabricadas promovidas pelos
media corporativos, às assinaturas dos 60 gigantes petrolíferos
(relatadas pelo secretário do Tesouro, Paul O. Neil) nos documentos de
energia de Cheney (os quais dividiram os campos petrolíferos iraquianos
meses antes da invasão).
DEMOCRACIA PARA ELITES
Uma das ilusões da democracia estilo americano é a
noção de que a política é conduzida pela vontade do
povo. Nada poderia estar mais longe da verdade. De facto, todo o sistema
corporativo de proporcionar informação ("os media")
está baseado na ideia de criar selectivamente uma mensagem que seja
compatível com os objectivos da elite. Os interesses do público
nunca são seriamente considerados na equação da
elaboração das políticas, excepto em termos de como a sua
aprovação possa ser obtida através dos canais normais da
desinformação calculada.
A política é perfilada pelas elites, para as elites. Ela muda
só quando políticas particular perdem o favor dos homens que
estão abrigados aos pés do poder. É o que torna a
insurgência de Baker-Scowcroft-Brzezinski notáveis. Eles indicam
o número crescente de estudiosos da política, eminências
pardas de corporações e pessoas políticas influentes que
já não apoiam a ocupação do Iraque. A sua
posição de influência e respeito entre os seus colegas
parece torná-los a última esperança para os americanos
anti-ocupação.
James Baker, que foi instrumental para travar a batalha legal que colocou G. W.
Bush na Casa Branca, afirmou que a presença americana contínua no
Iraque ameaça "minar o apoio interno" e perpetuar a
crença na região de que o Iraque é parte do
"desígnio imperial" de Washington.
Baker, um homem devotadamente leal a Bush, não tem problemas com a
moralidade da ocupação, apenas com a sua eficácia. O
facto de ele sugerir a retirada é uma indicação clara de
que a missão não tem saída.
Brent Scowcroft implicitamente apoia a análise de Baker. Scowcroft, que
é antigo Conselheiro de Segurança Nacional, esteve ao
serviço tanto das administrações de H. W. Bush como de
Gerald Ford e tem um sólido registo de comprometimento com as
saídas conservadoras. Ideologicamente ele é cortado do mesmo
pano de Bush, embora o extremismo dos neocons haja criado uma divisão
significativa entre republicanos da velha guarda como Scowcroft e o novo
establishment.
Em reunião recente da New America Foundation, Scowcroft fez uma
crítica amarga do conflito do Iraque e advertiu que a "guerra
recomendada" estava a por em risco alianças há muito
consagradas e a perigar o prestígio da América no mundo.
Scowcroft enfatizou os seus profundos temores acerca da guerra ao sugerir que
deveríamos considerar "se escapamos agora" antes de serem
feitos mais danos à credibilidade e ao prestígio da
América.
(Scowcroft também apresentou um resumo seco do desastre no
Afeganistão, semelhante àqueles que anteriormente apareciam
apenas nos sítios web de esquerda. "Não fomos para o
Afeganistão porque era o Afeganistão, fomos ali porque era a sede
da Al Qaeda e porque os Taliban estavam a apoiar a Al Qaeda. E nós
varremos muito bem os Taliban e a Al Qaeda do Afeganistão. Agora o
Afeganistão está como quando a União Soviética o
abandonou":
Um Estado fracassado.
E uma eleição não faz uma democracia.
Fomos realmente felizes com Karzai, ele revelou-se ser muito bom, e
especialmente favorável para nós mas ele ainda é
mais o presidente da municipalidade de Kabul do que presidente do
Afeganistão. Os senhores da guerra não só estão
vivos e bem como estão a prosperar e a tomar conta de grande parte do
país.
Eles provavelmente têm à sua disposição mais
recursos do que alguma vez já tiveram antes porque
o Afeganistão está a tornar-se um narco-Estado.
Temos muito pouca experiência em lidar com Estados fracassados e temos
de impedir de recuar à condição em que estavam em 1994
quando desistimos disso e os tornámos um paraíso para o
terrorismo".
"Narco-Estado"? "Mayor de Kabul"? "Estado
fracassado" dirigido por "senhores da guerra"? Estas são
exactamente as mesmas observações feitas pelos críticos da
guerra do Afeganistão durante mais de três anos. É
extraordinário ver que
estas mesmas visões são partilhadas por republicanos ao par
das coisas
(insiders)
atrás de portas fechadas. Embora os media ainda caracterizem o
Afeganistão como um êxito de Bush, é refrescante saber que
analistas sérios não partilham este ponto de vista. O
Afeganistão foi um fracasso pavoroso; os comentários de
Scowcroft apenas reforçam este ponto.)
Zbigniew Brzezinski apresentou uma avaliação ainda mais
destrutiva da guerra do Iraque. Antigo conselheiro de segurança
nacional de Jimmie Carter, ele é geralmente considerado como uma das
autoridades principais sobre assuntos internacionais e política externa.
Além de ser o arquitecto da guerra clandestina da América no
Afeganistão na década de 1980 (através do financiamento e
do armamento de militantes islâmicos), ele é o mestre da
Realpolitik americana e um estrategista do tipo maquiavélico. O seu
livro "O grande tabuleiro de xadrez" ("The Grand
Chessboard") apresenta o plano básico para a
dominação global americana através da
projecção de força na Eurasia e da
consolidação do controle sobre o petróleo do Médio
Oriente e da Bacia do Cáspio. A actual estratégia imperial que
está a ser executada pela Casa Branca de Bush é uma
invenção principalmente de Brzezinki.
A crítica de Brzezinski foi sucinta e abrazadora: "Grande parte do
que tem acontecido até agora na Política Externa Americana foi
influenciada pelo conflito em andamento no Iraque, esta guerra, que era uma
guerra recomendada, já é uma regressão moral para os
Estados Unidos. Uma regressão moral na óptica de como a
principiámos, como a justificámos e do porque de alguns dos
incidentes chocantes que têm acompanhado o seu desenrolar. Os custos
morais para os Estados Unidos são elevados. É uma
regressão
(setback)
política.
Os Estados Unidos em toda a sua história nunca estiveram envolvidos numa
intervenção como está hoje. Ela constitui também
uma regressão militar. "Missão cumprida" são
palavras que muitos nesta administração desejam esquecer.
Enquanto os nossos objectivos finais forem muito ambiciosos, nunca
alcançaremos democracia e estabilidade se não estivermos aptos a
comprometer 500 mil soldados, gastar US$ 200 mil milhões por ano, ter
provavelmente uma conscrição obrigatória
(draft)
e ter alguma forma de compensação de guerra.
Como sociedade, não estamos preparados para isto. Chega-se a um ponto
na vida de uma nação em que tais sacrifícios não
são justificados... e só o tempo dirá se os Estados
Unidos estão a enfrentar um momento de sabedoria ou estão
resignados à decadência cultural".
Brzezinski não é um homem dado a voos retóricos de
fantasia. Ele é conhecido pela sua abordagem truculenta, do estilo
Kissinger "não faça prisioneiros". A sua
denúncia da guerra do Iraque como uma "regressão moral"
ou, mais significativamente, como um sinal de
"decadência moral"
será interpretado por muitos políticos realistas como um sinal
de que não podemos ter êxito nos nossos objectivos declarados.
A avaliação da guerra de Brzezinski estende-se muito além
dos campos de batalha, até aos seus efeitos devastadores sobre a
"legitimidade internacional" da América. Como um sinal de
desprezo para com a cruzada de Bush por todo o mundo, Brzezinski cita um
inquérito efectuado no princípio do ano que mostra como um vasto
número de entrevistados estava desapontado pelo facto "de que mais
americanos não terem sido mortos" na invasão.
Opinião de Brzezinski: "Isto é uma medida da profundidade
do rancor para com as nossas políticas".
A estimativa de Brzezinski do que será preciso para ter êxito no
Iraque ("500 mil soldados, US$ 200 mil milhões por ano, e a
conscrição") é uma aproximação
perspicaz daquilo que é inteiramente consistente com as
conclusões de muitos no establishment da Defesa, incluindo o generla
Shinseki que foi removido das suas responsabilidades por fazer cálculos
semelhantes.
A questão mais vasta, contudo, é resumida pelos
comentários de James Dobbins, da conservadora Rand Corporation, quando
admitiu:
"O princípio da sabedoria é perceber que
não podemos vencer".
As observações de Dobbins são apoiadas pela
concessão do Chefe da Inteligência do Iraque, general Mohammed
Shahwani, de que "os EUA estão a enfrentar 40 mil combatentes
duros" e um grupo de apoio de "até 150 a 200 mil".
Como era de prever, a notícia foi enterrada na imprensa ocidental, mas
as implicações são claras. O Pentágono tem estado
a mentir ao povo americano acerca da dimensão e da força da
insurgência (as estimativas anteriores eram de 5 a 20 mil) e a
probabilidade de vencer o conflito é estreita ou nula.
A elite de extrema-direita da América capta plenamente o significado
destes números. Por essa razão o general reformado Gary Luck foi
enviado ao Iraque a fim de efectuar uma avaliação abrangente da
realidade actual sobre o terreno. O secretário Rumsfeld sabe muito bem
que Luck retornará a casa com uma análise pormenorizada da
deterioração da situação de segurança e um
apelo bem ensaiado por mais tropas no terreno. Não se sabe se o
relatório de Luck será ou não a base para a
reinstauração da conscrição, mas assinalará
a escalada firme de homens e recursos dedicados ao novo pântano da
América.
O abismo crescente entre as elites americanas não terá efeitos
mensuráveis sobre a Casa Branca em pé de guerra. A
administração já anunciou a sua intenção de
manter pelo menos 120 mil soldados instalados no Iraque durante os
próximos três anos, no mínimo. Isto é uma mensagem
clara aos objectores de que os seus conselhos foram devidamente rejeitados.
Como disse recentemente Donald Rumsfeld, "Não haverá
críticas posteriores". O grande plano de ocupar o Iraque
continuará e as vozes da razão serão silenciadas.
Ao marginalizar Baker, Scowcroft e Brzezinski a administração
está a cortar os laços com os seus pais ideológicos. O
projecto no Iraque agora está desligado da análise fundamentada
de peritos políticos conservadores e é apoiada apenas pela
ideologia de extrema direita de políticos extremistas. Na medida em que
são cada vez mais eliminadas do terreno as pessoas que poderiam
proporcionar algum auxílio racional à sangria, o projecto
torna-se mais inoculado com a retórica incendiária da
religiosidade e do nacionalismo. A cruzada no Iraque agora é apoiada
apenas por frágeis escoras de arrogância e ilusão; os
fundamentos da catástrofe.
27/Jan/2005
[*]
O autor vive no estado de Washington. O seu email é
fergiewhitney@msn.com
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O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney01272005.html
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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