Scowcroft e Baker elevam a aposta
Aprofunda-se o abismo entre os conservadores

por Mike Whitney [*]

Cartoon de Latuff. A maquinaria de tomada de decisões do Estado raramente é exposta ao exame público. A cobertura do governo representativo é uma ficção, mantida escrupulosamente, que esconde os pormenores práticos da política real. Normalmente, os políticos e os seus cúmplices nos media conseguem manter intacta a ilusão do governo representativo, evitando a dedução embaraçosa de que a ordem actual é realmente sustentada pelas elites que tomam as decisões. Só quando surge uma grande clivagem entre os membros da classe dominante é que temos a oportunidade de admirar como se movem as peças do aparelho imperial.

A deterioração da situação no Iraque precipitou este cenário extremo. A clivagem a que aludimos tornou-se, de facto, um enorme abismo, lançando uma facção de antigos homens de Estado conservadores contra os seus antecessores na administração Bush. Pode-se esperar que esta batalha de gigantes cresça exponencialmente devido ao choque quanto às características de princípio quanto ao futuro da ocupação do Iraque.

De um lado, temos aqueles que talvez sejam os mais amplamente respeitados peritos políticos (conservadores) vivos hoje, a aconselharem a administração a retirar-se do Iraque. Zbigniew Brzezinski, Brent Scowcroft e James Baker juntaram-se às fileiras dos esquerdistas anti-guerra e apelam a uma retirada imediata das tropas americanas. Eles notaram as tentativas fracassadas da administração Bush para impor mesmo a segurança mínima ou para atingir os objectivos globais da invasão. Com o Iraque a inclinar-se precipitadamente em direcção à guerra civil, e com o prestígio da América irreparavelmente danificado, os seus protestos deveriam ser encarados como um apelo ao retorno à sanidade política.

Evidentemente, este firmes apoiantes da supremacia americana nunca aceitariam semelhante derrota humilhante se houvesse a mais remota possibilidade de êxito. Isto nos dá uma ideia da extensão em que os media têm estado a esconder do público os pormenores cruciais do desastre no Iraque. Mesmo aqueles que mais provavelmente beneficiariam com a dominação regional estão a saltar para fora do navio do Estado que se afunda.

A significância desta rebelião entre membros conservadores do establishment não pode ser subestimada. A guerra no Iraque não emanou de uma ameaça viável à segurança nacional e sim de um consenso entre as elites de que o futuro da América dependia da projecção do seu poder no Médio Oriente. Isto é evidente em tudo, desde a manipulação das taxas de juro para ajudar a agressão, às ameaças fabricadas promovidas pelos media corporativos, às assinaturas dos 60 gigantes petrolíferos (relatadas pelo secretário do Tesouro, Paul O. Neil) nos documentos de energia de Cheney (os quais dividiram os campos petrolíferos iraquianos meses antes da invasão).

DEMOCRACIA PARA ELITES

Uma das ilusões da democracia estilo americano é a noção de que a política é conduzida pela vontade do povo. Nada poderia estar mais longe da verdade. De facto, todo o sistema corporativo de proporcionar informação ("os media") está baseado na ideia de criar selectivamente uma mensagem que seja compatível com os objectivos da elite. Os interesses do público nunca são seriamente considerados na equação da elaboração das políticas, excepto em termos de como a sua aprovação possa ser obtida através dos canais normais da desinformação calculada.

A política é perfilada pelas elites, para as elites. Ela muda só quando políticas particular perdem o favor dos homens que estão abrigados aos pés do poder. É o que torna a insurgência de Baker-Scowcroft-Brzezinski notáveis. Eles indicam o número crescente de estudiosos da política, eminências pardas de corporações e pessoas políticas influentes que já não apoiam a ocupação do Iraque. A sua posição de influência e respeito entre os seus colegas parece torná-los a última esperança para os americanos anti-ocupação.

James Baker, que foi instrumental para travar a batalha legal que colocou G. W. Bush na Casa Branca, afirmou que a presença americana contínua no Iraque ameaça "minar o apoio interno" e perpetuar a crença na região de que o Iraque é parte do "desígnio imperial" de Washington.

Baker, um homem devotadamente leal a Bush, não tem problemas com a moralidade da ocupação, apenas com a sua eficácia. O facto de ele sugerir a retirada é uma indicação clara de que a missão não tem saída.

Brent Scowcroft implicitamente apoia a análise de Baker. Scowcroft, que é antigo Conselheiro de Segurança Nacional, esteve ao serviço tanto das administrações de H. W. Bush como de Gerald Ford e tem um sólido registo de comprometimento com as saídas conservadoras. Ideologicamente ele é cortado do mesmo pano de Bush, embora o extremismo dos neocons haja criado uma divisão significativa entre republicanos da velha guarda como Scowcroft e o novo establishment.

Em reunião recente da New America Foundation, Scowcroft fez uma crítica amarga do conflito do Iraque e advertiu que a "guerra recomendada" estava a por em risco alianças há muito consagradas e a perigar o prestígio da América no mundo.

Scowcroft enfatizou os seus profundos temores acerca da guerra ao sugerir que deveríamos considerar "se escapamos agora" antes de serem feitos mais danos à credibilidade e ao prestígio da América.

(Scowcroft também apresentou um resumo seco do desastre no Afeganistão, semelhante àqueles que anteriormente apareciam apenas nos sítios web de esquerda. "Não fomos para o Afeganistão porque era o Afeganistão, fomos ali porque era a sede da Al Qaeda e porque os Taliban estavam a apoiar a Al Qaeda. E nós varremos muito bem os Taliban e a Al Qaeda do Afeganistão. Agora o Afeganistão está como quando a União Soviética o abandonou": Um Estado fracassado. E uma eleição não faz uma democracia.

Fomos realmente felizes com Karzai, ele revelou-se ser muito bom, e especialmente favorável para nós — mas ele ainda é mais o presidente da municipalidade de Kabul do que presidente do Afeganistão. Os senhores da guerra não só estão vivos e bem como estão a prosperar e a tomar conta de grande parte do país.

Eles provavelmente têm à sua disposição mais recursos do que alguma vez já tiveram antes porque o Afeganistão está a tornar-se um narco-Estado. Temos muito pouca experiência em lidar com Estados fracassados e temos de impedir de recuar à condição em que estavam em 1994 quando desistimos disso e os tornámos um paraíso para o terrorismo".

"Narco-Estado"? "Mayor de Kabul"? "Estado fracassado" dirigido por "senhores da guerra"? Estas são exactamente as mesmas observações feitas pelos críticos da guerra do Afeganistão durante mais de três anos. É extraordinário ver que estas mesmas visões são partilhadas por republicanos ao par das coisas (insiders) atrás de portas fechadas. Embora os media ainda caracterizem o Afeganistão como um êxito de Bush, é refrescante saber que analistas sérios não partilham este ponto de vista. O Afeganistão foi um fracasso pavoroso; os comentários de Scowcroft apenas reforçam este ponto.)

Zbigniew Brzezinski apresentou uma avaliação ainda mais destrutiva da guerra do Iraque. Antigo conselheiro de segurança nacional de Jimmie Carter, ele é geralmente considerado como uma das autoridades principais sobre assuntos internacionais e política externa. Além de ser o arquitecto da guerra clandestina da América no Afeganistão na década de 1980 (através do financiamento e do armamento de militantes islâmicos), ele é o mestre da Realpolitik americana e um estrategista do tipo maquiavélico. O seu livro "O grande tabuleiro de xadrez" ("The Grand Chessboard") apresenta o plano básico para a dominação global americana através da projecção de força na Eurasia e da consolidação do controle sobre o petróleo do Médio Oriente e da Bacia do Cáspio. A actual estratégia imperial que está a ser executada pela Casa Branca de Bush é uma invenção principalmente de Brzezinki.

A crítica de Brzezinski foi sucinta e abrazadora: "Grande parte do que tem acontecido até agora na Política Externa Americana foi influenciada pelo conflito em andamento no Iraque, esta guerra, que era uma guerra recomendada, já é uma regressão moral para os Estados Unidos. Uma regressão moral na óptica de como a principiámos, como a justificámos e do porque de alguns dos incidentes chocantes que têm acompanhado o seu desenrolar. Os custos morais para os Estados Unidos são elevados. É uma regressão (setback) política.

Os Estados Unidos em toda a sua história nunca estiveram envolvidos numa intervenção como está hoje. Ela constitui também uma regressão militar. "Missão cumprida" são palavras que muitos nesta administração desejam esquecer.

Enquanto os nossos objectivos finais forem muito ambiciosos, nunca alcançaremos democracia e estabilidade se não estivermos aptos a comprometer 500 mil soldados, gastar US$ 200 mil milhões por ano, ter provavelmente uma conscrição obrigatória (draft) e ter alguma forma de compensação de guerra.

Como sociedade, não estamos preparados para isto. Chega-se a um ponto na vida de uma nação em que tais sacrifícios não são justificados... e só o tempo dirá se os Estados Unidos estão a enfrentar um momento de sabedoria ou estão resignados à decadência cultural".

Brzezinski não é um homem dado a voos retóricos de fantasia. Ele é conhecido pela sua abordagem truculenta, do estilo Kissinger "não faça prisioneiros". A sua denúncia da guerra do Iraque como uma "regressão moral" ou, mais significativamente, como um sinal de "decadência moral" será interpretado por muitos políticos realistas como um sinal de que não podemos ter êxito nos nossos objectivos declarados.

A avaliação da guerra de Brzezinski estende-se muito além dos campos de batalha, até aos seus efeitos devastadores sobre a "legitimidade internacional" da América. Como um sinal de desprezo para com a cruzada de Bush por todo o mundo, Brzezinski cita um inquérito efectuado no princípio do ano que mostra como um vasto número de entrevistados estava desapontado pelo facto "de que mais americanos não terem sido mortos" na invasão. Opinião de Brzezinski: "Isto é uma medida da profundidade do rancor para com as nossas políticas".

A estimativa de Brzezinski do que será preciso para ter êxito no Iraque ("500 mil soldados, US$ 200 mil milhões por ano, e a conscrição") é uma aproximação perspicaz daquilo que é inteiramente consistente com as conclusões de muitos no establishment da Defesa, incluindo o generla Shinseki que foi removido das suas responsabilidades por fazer cálculos semelhantes.

A questão mais vasta, contudo, é resumida pelos comentários de James Dobbins, da conservadora Rand Corporation, quando admitiu: "O princípio da sabedoria é perceber que não podemos vencer". As observações de Dobbins são apoiadas pela concessão do Chefe da Inteligência do Iraque, general Mohammed Shahwani, de que "os EUA estão a enfrentar 40 mil combatentes duros" e um grupo de apoio de "até 150 a 200 mil".

Como era de prever, a notícia foi enterrada na imprensa ocidental, mas as implicações são claras. O Pentágono tem estado a mentir ao povo americano acerca da dimensão e da força da insurgência (as estimativas anteriores eram de 5 a 20 mil) e a probabilidade de vencer o conflito é estreita ou nula.

A elite de extrema-direita da América capta plenamente o significado destes números. Por essa razão o general reformado Gary Luck foi enviado ao Iraque a fim de efectuar uma avaliação abrangente da realidade actual sobre o terreno. O secretário Rumsfeld sabe muito bem que Luck retornará a casa com uma análise pormenorizada da deterioração da situação de segurança e um apelo bem ensaiado por mais tropas no terreno. Não se sabe se o relatório de Luck será ou não a base para a reinstauração da conscrição, mas assinalará a escalada firme de homens e recursos dedicados ao novo pântano da América.

O abismo crescente entre as elites americanas não terá efeitos mensuráveis sobre a Casa Branca em pé de guerra. A administração já anunciou a sua intenção de manter pelo menos 120 mil soldados instalados no Iraque durante os próximos três anos, no mínimo. Isto é uma mensagem clara aos objectores de que os seus conselhos foram devidamente rejeitados. Como disse recentemente Donald Rumsfeld, "Não haverá críticas posteriores". O grande plano de ocupar o Iraque continuará e as vozes da razão serão silenciadas.

Ao marginalizar Baker, Scowcroft e Brzezinski a administração está a cortar os laços com os seus pais ideológicos. O projecto no Iraque agora está desligado da análise fundamentada de peritos políticos conservadores e é apoiada apenas pela ideologia de extrema direita de políticos extremistas. Na medida em que são cada vez mais eliminadas do terreno as pessoas que poderiam proporcionar algum auxílio racional à sangria, o projecto torna-se mais inoculado com a retórica incendiária da religiosidade e do nacionalismo. A cruzada no Iraque agora é apoiada apenas por frágeis escoras de arrogância e ilusão; os fundamentos da catástrofe.

27/Jan/2005

[*] O autor vive no estado de Washington. O seu email é fergiewhitney@msn.com .

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/whitney01272005.html .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
30/Jan/05