O dilema do prisioneiro
A hipótese de Bretton Woods II
Há uma pergunta que domina os círculos financeiros do mundo todo:
Quanto tempo pode durar o principal devedor do mundo que vive de
empréstimos? A resposta depende das expectativas dos seus credores. No
fim, tudo se reduz a uma variante do bem conhecido dilema do prisioneiro: se
se deixa de emprestar corre-se o risco de que o devedor não possa pagar
jamais.
Os protagonistas deste dilema são os Estados Unidos e o resto do mundo
ou, se se prefere, as economias da Ásia. Estas últimas
estão a financiar o gigantesco défice em conta corrente dos
estadunidenses. Enquanto a China e o Japão mantiverem sua paridade
vinculada ao dólar e acumularem reservas nessa divisa, os Estados Unidos
pensam que não diversificarão suas reservas mudando para outros
activos, como por exemplo o euro. À sombra da China e do Japão
gravitam economias mais pequenas, como a Tailândia, Malásia e
Filipinas, que podem tirar proveito deste arranjo.
Desta forma, os bancos centrais da Ásia estão a reviver algo
parecido ao sistema de paridades fixas e constituíram aquilo que os
economistas do Deutsche Bank denominaram o sistema de Bretton Woods II (BWII).
Neste sistema, as economias emergentes da Ásia mantêm as suas
moedas vinculadas ao dólar, de maneira análoga ao que faziam o
Japão e a Europa no modelo original de Bretton Woods, e este sistema de
paridades semi-fixas seria estável. A intervenção dos
bancos centrais evitaria a apreciação das moedas asiáticas
e permitiria continuar a financiar o enorme défice em conta corrente dos
Estados Unidos.
Mas nem tudo é leite e mel. As reservas na China, Tailândia,
Malásia e Filipinas, por exemplo, atingiram os US$230 mil milhões
em 2004. Parte destas reservas provem do superávite em conta corrente
destes países, mas 70% vem de entradas de capitais. A
acumulação de reservas não pôde ser esterilizada e
levou a um incremento na oferta monetária e a um aumento no
crédito dos bancos. Por isso aumentaram os maus empréstimos,
gerando borbulhas especulativas e aumentou a carteira dos créditos
vencidos.
O caso da China é preocupante. Para este ano calcula-se que as reservas
aumentarão para US$240 mil milhões. Menos da metade dessas
reservas poderão ser esterilizadas pelo banco central, o que se
traduzirá num aumento de 6% na base monetária, gerando maiores
pressões inflacionárias. Se as autoridades chinesas decidirem
esterilizar, terão que aumentar a taxa de juros, interrompendo o
processo de ajuste e atraindo mais capitais num processo muito inestável.
A China e o Japão incorrem em grandes perdas ao manterem as suas
reservas em dólares. Washington pensa que não lhes resta outro
remédio senão continuar em frente porque ao diversificarem
reservas provocariam um ajuste cambial no dólar com perdas
astronómicas para esses países. Além disso, a
depreciação da moeda estadunidense travaria as
exportações para os Estados Unidos e o crescimento da China, com
grandes repercussões sociais e, muito provavelmente, provocaria uma
recessão mundial de alcance incalculável.
Nada disto convém à China, ao Japão ou à Europa.
Por isso Washington pensa que mantem o resto do mundo preso pelo
pescoço. As principais economias têm que aceitar o risco de
perder com o ajuste do dólar. Estão presas no dilema do
prisioneiro financeiro e têm de continuar a absorver papel verde com
menor credibilidade e maiores riscos.
O corolário para Washington é que pode continuar o seu jogo
irresponsável: pode reduzir impostos para os mais ricos, privatizar a
segurança social desnecessariamente e com um grande custo fiscal, e pode
dilapidar recursos na absurda guerra do Iraque. Além disso, pode manter
uma taxa de poupança nacional líquida de 1,7%, a mais baixa das
economias desenvolvidas, e acreditar que o resto do mundo continuará
sempre a emprestar-lhe. Esta negligência benevolente de Washington face
ao seu défice externo faz com que o BWII pareça o seu antecessor.
Mas há que recordar que a negligência benevolente desmoronou-se
em 1973 e Bretton Woods I desapareceu.
Os dados do problema são claros. A acumulação de reservas
em dólares na China é insustentável. Como não
é possível esterilizar toda a entrada de capitais, o excesso de
investimentos, a especulação e a carteira vencida (que já
atinge 50% do PIB) terão um impacto negativo decisivo, travando
fortemente o crescimento e provocando uma crise parecida às das outras
economias asiáticas em 1997.
Há evidentemente um problema compartilhado e os Estados Unidos
não podem continuar a pretender que nada se passa. Pode manter a sua
estratégia de não cooperação e forçar a
China a continuar a financiar o seu jogo. Mas isto só vai adiar e
tornar mais dura a aterrissagem. No fim, Bretton Woods II terminará num
colapso doloroso se os Estados Unidos não corrigirem o seu défice
fiscal e o seu desequilíbrio na conta corrente.
23/Fev/2005
[*]
Economista, mexicano.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2005/feb05/050223/027a1eco.php
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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