Os trabalhadores frente a Trump e às primárias democratas

por John Catalinotto [*]
entrevistado por Initiative Communiste

IC: Como avalia o primeiro mandato de Trump em termos sociais, políticos, culturais e geopolíticos?

JC: Trump conseguiu transferir uma enorme quantidade de riquezas da classe operária, inclusive dos sectores mais oprimidos, para os sectores mais ricos e mais elitistas da sociedade americana. Ele fez isso principalmente de duas maneiras:

A primeira consistiu em modificar as leis fiscais a fim de que aos rendimentos mais elevados fosse imposta uma taxa muito mais baixa, reduzindo igualmente os impostos sobre os lucros das sociedades, os ganhos em capital e a riqueza herdada – todas estas mudanças ajudam os super ricos.

O segundo modo foi por privatizações, pela abertura das terras públicas a uma exploração privada, como a costa do Alasca e certas partes do Oeste americano. Esta prenda à sua classe miliardária valeu-lhe o apoio contínuo deste sector da sociedade, ainda que uma parte da classe dirigente considere Trump como um presidente incompetente que não compreende nada dos assuntos estrangeiros. Ele enche os seus cofres com dinheiro. E eles gostam disso.

Politicamente, Trump polarizou a sociedade. Há menos cooperação do que nunca nestes últimos tempos entre o Partido Republicano de Trump e o Partido Democrata, que são ambos partidos pró capitalistas e pró imperialistas. Todos os presidentes americanos dizem mentiras.

Culturalmente, Trump eliminou os factos do discurso público e substitui-os por uma retórica que enfatiza sua ideologia reaccionária: racismo, misoginia, islamofobia, comentários anti-LGBTQ são a contribuição diária do presidente dos Estados Unidos. Em reacção a esta evolução, à esquerda, tem havido um crescimento do movimento social-democrata que é contra Trump e também por reformas sociais. A maior parte destas reformas já haviam sido conquistadas em numerosos países europeus entre 1945 e 1990, como os cuidados de saúde universais, a educação gratuita, melhores pensões de reforma. Os comentários reaccionários diários de Trump também promoveram a dinâmica dos partidos fascistas, das milícias de extrema-direita, etc.

Geopoliticamente, Trump prosseguiu seus esforços para atingir os mesmos objectivos das administrações anteriores, a saber, a dominação imperialista americana dos países oprimidos e a hegemonia americana dentro do mundo imperialista. Ele clama mais abertamente por tratados que favorecem o "U.S. America First", em oposição aos tratados mundiais. Seus ataques a princípio pareciam ameaçar a aliança da NATO, mas eles revelaram-se exigências para que as potências imperialistas europeias pagassem um maior custo da aliança militar e aceitassem ter menos migalhas do saqueio imperialista. Os EUA perderam poder económico relativo (para a China e a UE) e Washington está a tentar ultrapassar esta perda recorrendo a mais poder militar. Isso é verdadeiro sob Bush, Obama e agora sob Trump.

IC: Haverá uma questão política real, do ponto de vista da classe trabalhadora, nas eleições primárias do Partido Democrata? Pensa que há realmente candidatos do Partido Democrata que possam trazer uma alternativa mais favorável para o movimento dos trabalhadores e para o campo do progresso social e da paz no mundo?

JC: É difícil imaginar uma situação em que uma simples mudança eleitoral, mesmo a eleição do candidato mais progressista, provocasse uma mudança real no carácter pró capitalista e pró imperialista do aparelho de Estado americano. O que Lenine escreveu sobre o capitalismo e o imperialismo há mais de 100 anos permanece verdadeiro: não se pode mudar a natureza pró capitalista do poder de Estado sem esmagá-lo e substituí-lo por uma forma de Estado operário ou popular. Isto não é uma tarefa fácil.

Há entretanto um novo desenvolvimento nas primárias democratas. É o crescimento de um movimento em apoio a Bernie Sanders, o senador de Vermont. Sanders considera-se um "socialista democrático", mas a sua versão de "socialismo" é realmente um programa para reformar o capitalismo. No entanto, a classe capitalista não está inclinada a permitir reformas como a gratuidade de despesas escolares, do Medicare para todos ou a revogação da anti-sindical Lei Taft-Hartley. Mesmo as suas palavras, no contexto da situação social reaccionária nos Estados Unidos, levaram muitos jovens a identificaram-se como pró socialistas. Sanders é o único candidato que recolhe grandes quantias de dinheiro de milhões de pequenas doações. Os outros candidatos estão dependentes de doadores ricos. Sanders é o único candidato que reúne audiências de massa entusiásticas, com muitos jovens que parecem realmente prontos a combaterem por estes programas.

A liderança do Partido Democrata está a movimentar-se internamente para descobrir um meio de impedir Sanders de obter a nomeação. Sanders tem dito que se não conseguir a nomeação apoiará quem quer que o Partido Democrata nomeie. Isto significa que uma campanha séria do Partido Democrata é improvável. Se o movimento de Sanders for suficientemente forte para vencer as primárias e ultrapassar a liderança do Partido Democrata, estes líderes provavelmente abandonarão Sanders. Ao mesmo tempo o grande capital deslocará seu apoio para Trump. E Trump conduzirá uma campanha que retrate Sanders como um comunista radical. É uma luta vital.

IC: Qual é a situação da classe operária e do movimento democrático, em termos sociais, culturais e políticos nos Estados Unidos?

JC: Tal como no mundo todo, a derrota do socialismo na URSS em 1989-1991 continuou a ter repercussões negativas sobre a classe operária e o movimento democrático no Estados Unidos. Tem havido ganhos parciais quanto àquilo que as pessoas aqui chamam "questões sociais", isto é, uma luta crescente por igualdade de género, maior aceitação de questões sociais como casamento e adopção de direitos para casais gay ou lésbicos, uma maior presença pública de pessoas trans. Naturalmente Trump trava uma guerra reaccionária sobre todas estas questões. E ataques físicos a gays, lésbicas e assassínios de pessoas trans, assassínios misóginos de mulheres ainda se verificam. Quanto ao combate contra o racismo, ter um presidente afro-americano por dois mandatos, algo que parecia quase inacreditável quando aconteceu, nada fez para travar a brutalidade da polícia racista e a discriminação racial em muitas áreas.

As manifestações mais maciças desde 2017 foram todas dirigidas contra a administração Trump e têm estado em parte sob o controle do Partido Democrata ou da sua ala esquerda. Houve manifestações de mulheres contra a misoginia aberta de Trump, em favor do controle das armas de fogo para travar a epidemia de mortes por balas, em solidariedade com os refugiados e os migrantes e pela defesa do ambiente.

As lutas da classe operária assumiram igualmente a forma de greves importantes dos professores, em particular em certos estados onde tais acções são ilegais (Virgínia Ocidental, Oklahoma, por exemplo) e em Chicago e Los Angeles. Estas mostraram que uma resistência da classe trabalhadora é possível, embora esta resistência ainda não se tenha propagado amplamente no conjunto da classe.

Um grande desafio para a esquerda não parlamentar nos EUA este ano será como participar ao lado do movimento de apoio a Sanders e ao mesmo conseguir manter um papel revolucionário independente. Muitos mais jovens do que antes nas últimas três décadas estão agora desiludidos com o capitalismo e em busca de uma mudança radical na sociedade. Exactamente agora eles orientam-se rumo à social-democracia, aos Democratic Socialists of America (DSA) por exemplo. Progredirão eles da actividade eleitoral e social-democrata até consagrar suas vidas ao combate pela mudança fundamental do sistema? Durante o período eleitoral e depois as organizações que votam comunista nos EUA estarão a adaptar-se a esta luta viva, tal como vocês em França têm de adaptar-se a mudanças no movimento Coletes Amarelos e à onda de greves em defesa dos direitos a pensões contra os ataques de Macron.

IC: Para a Palestina, Cuba, os patriotas e os progressistas da América Latina, do Oriente Próximo ou da África, faria uma grande diferença a eleição de um candidato do "Partido Democrata" ou do "Partido Republicano"?

JC: Quando Trump, durante o discurso da Estado da União, apresentou Juan Guaidó como o "presidente da Venezuela", todos os republicanos e quase todos os democratas ovacionaram este comentário (e naquele momento havia tamanha hostilidade entre os dois partidos que a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, rasgou o discurso impresso de Trump). Além disso, todo o impeachment contra Trump foi baseado na sua ameaça de reter ajuda militar ao governo reaccionário da Ucrânia. Assim, diríamos que ambos os partidos têm uma abordagem agressiva, beligerante, para com o resto do mundo. Mesmo se Sanders fosse eleito, ele teria de confrontar o Pentágono, a CIA e a burocracia maciça do governo para efectuar uma política externa mais pacífica. Isso é mais fácil de dizer do que de fazer.

[*] Dirigente do Workers World .

O original encontra-se em www.initiative-communiste.fr/...


Esta entrevista encontra-se em https://resistir.info/ .
09/Mar/20