Os vencedores da guerra do Iraque: Al-Qaeda, Irão e empreiteiros
militares
A América esgotou o seu tempo
por Paul Craig Roberts
[*]
George W. Bush ficará na história como o presidente que tocava
violino enquanto a América perdia o seu estatuto de superpotência.
Bush utilizou o embuste e a histeria para arrastar a América para uma
guerra que está a provocar nos EUA uma hemorragia económica,
militar e diplomática. A guerra está a ser travada com centenas
de milhares de milhões de dólares emprestados por países
estrangeiros. A guerra está a esgotar as forças armadas de tropas
e comissões. A guerra acabou com a proclamação dos EUA
à liderança moral e revelou os EUA como uma potência
impiedosa e agressiva.
Concentrada numa guerra contra o terrorismo inventada, a
administração Bush desviou para o Iraque o dinheiro dos diques de
Nova Orleans, com a consequência de que os EUA têm agora uma
factura de reconstrução de mais 100 mil milhões de
dólares a acrescentar à factura da guerra.
Os EUA têm tanta falta de tropas que os neo-conservadores andam a
defender a utilização de mercenários estrangeiros em troca
da nacionalidade americana.
As tentativas dos EUA para isolar o Irão foram bloqueadas pela
Rússia e pela China, potências nucleares que Bush não
consegue intimidar.
A Guerra do Iraque tem três beneficiários: (1) a al Qaeda, (2) o
Irão e (3) as indústrias de guerra americanas e os comparsas de
Bush-Cheney que obtêm contratos sem concurso.
Todos os outros ficam a perder.
A guerra trouxe à al Qaeda recrutas, prestígio e um terreno para
treino.
A guerra fez com que o Irão se aliasse à maioria xiita do Iraque.
A guerra trouxe enormes lucros às indústrias militares e
às empresas com contratos de reconstrução, à custa
de 20 mil vítimas entre os soldados americanos e dezenas de milhares de
vítimas civis iraquianas.
O Partido Republicano fica a perder, porque o seu apoio inflexível
à guerra está a isolar o partido da opinião pública.
O Partido Democrata fica a perder, porque a sua concordância cobarde com
uma guerra a que a maioria dos seus membros se opunha está a tornar o
partido irrelevante.
As últimas sondagens mostram que a maioria dos americanos acha que os
EUA não podem ganhar frente à revolta do Iraque. A maioria
defende a retirada e a utilização das despesas de guerra para a
reconstrução de Nova Orleans. Apesar da clareza do desejo do
público, o Partido Republicano continua a apoiar a guerra impopular.
Com excepção dos representantes Cynthia McKinney e John Conyers,
os Democratas fugiram do palco da manifestação anti-guerra de 24
de Setembro em Washington, DC. Os cínicos Democratas parece estarem
reféns dos mesmos grupos de interesses que dominam os Republicanos e
rejeitam o manto de partido maioritário que o eleitorado está a
oferecer ao partido que acabar com a guerra.
A administração Bush acumula números negativos de mais de
1 milhão de milhões de dólares por ano. O défice
orçamental federal está a aproximar-se dos 500 mil milhões
de dólares. O défice comercial dos EUA aproxima-se dos 700 mil
milhões.
O défice orçamental está a ser financiado por
estrangeiros, principalmente asiáticos, que detêm neste momento
uma dívida dos EUA suficiente para exercerem o seu poder sobre as taxas
de juro americanas e sobre o valor do dólar sempre que quiserem utilizar
o poder que Bush colocou nas suas mãos.
O défice comercial está a ser financiado em troca da entrega de
património americano e de futuras fontes de receita a estrangeiros,
ficando os americanos mais pobres para sempre por causa da perda acumulada de
riqueza.
Por enquanto, a China está desejosa de acumular valores americanos como
forma de assumir o controlo dos nossos mercados de consumo, atraindo a
indústria de manufacturas americanas com mão-de-obra mais barata
subsidiada por valores artificiais da divisa, e conquistando a nossa
tecnologia. A estratégia da China é sobrevalorizar o dólar
americano para encorajar a transferência das capacidades
económicas americanas para a China. A estratégia da China confere
um valor artificial ao dólar e mantém as taxas de juro americanas
artificialmente baixas.
Os valores das acções, obrigações e bens
imobiliários americanos dependem do apoio que as estratégias
económicas asiáticas derem ao dólar e às taxas de
juro americanas. Quando a Ásia atingir o seu objectivo de superioridade
na manufactura, na inovação e na evolução de
produtos, a estratégia vai mudar. Quando a China completar a sua
aquisição das capacidades americanas, deixa de existir
razão para apoiar o dólar.
Quando o dólar for abaixo, os custos, os lucros, as taxas de juro e os
padrões de vida serão afectados de forma dramática. Os
custos e as taxas de juro vão subir em espiral, e os lucros, os
padrões de vida, os valores das acções, os preços
das obrigações e os bens imobiliários vão
afundar-se.
Estes acontecimentos desagradáveis só estão à
espera da decisão da Ásia de cortar o seu apoio à
situação devedora dos EUA. Isso vai acontecer quando esse apoio
deixar de servir os interesses da Ásia.
Quando a Ásia tirar o tapete ao dólar, o governo americano vai
perceber que a política monetária e fiscal são impotentes
para contrabalançar as suas consequências.
Comparados com os défices orçamental e comercial dos EUA, os
terroristas são uma preocupação menor. O maior perigo que
os EUA enfrentam é o dólar perder o seu papel de divisa de
reserva. Isto será um acontecimento empobrecedor, de que os EUA nunca
mais se recomporão.
Um governo inteligente deveras preocupado com a segurança nacional
encontraria uma forma de suspender o leilão de mão-de-obra global
que está a esvaziar a economia americana de postos de trabalho de alto
valor acrescentado e da sua capacidade de manufactura, o que tem levado o
défice comercial americano a aumentar explosivamente. A perda da base
fiscal que decorre de as empresas americanas contratarem mão-de-obra e
localizarem a produção no estrangeiro torna cada vez mais
difícil equilibrar um orçamento esticado pela guerra, pelos
desastres naturais e pelo impacto demográfico na Segurança Social
e Cuidados de Saúde.
O leilão de mão-de-obra global está a desmantelar
rapidamente as escadas que conduzem a uma mobilidade ascendente e, portanto, a
pôr em perigo a estabilidade política americana. Esta
ameaça é muito maior do que qualquer Osama bin Laden pode
representar.
Os Republicanos e os Democratas estão a ficar sem tempo para sair da
confusão duma guerra sem sentido e para se concentrarem nas verdadeiras
ameaças que põem em perigo os Estados Unidos da América.
26/Setembro/2005
[*]
Ex-secretário assistente do Tesouro na administração
Reagan, co-autor de
The Tyranny of Good Intentions.
Contacto:
paulcraigroberts@yahoo.com.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/roberts09262005.html.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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