As cidadelas das elites da América: fracturadas e em conflitos entre si
Algo está a acontecer. Quando dois colunistas do
Financial Times
pilares do establishment ocidental levantam uma bandeira de
advertência, devemos prestar atenção. Martin Wolf foi o
primeiro, com um artigo dramaticamente intitulado:
Os 100 anos que se deparam, conflito EUA-China (
The looming 100-year, US-China Conflict
).
Não uma "mera" guerra comercial, ele deu a entender, mas uma
luta total
(full-spectrum struggle).
A seguir o seu colega do FT, Edward Luce, destacou que o argumento de Wolf
contém mais nuances do que o título. Tendo passado parte desta
semana entre importantes decisores e pensadores políticos no
Fórum anual de Segurança Aspen, no Colorado, Luce
escreve
:
"Inclino-me a pensar que Martin não exagerava. A velocidade com a
qual líderes políticos estado-unidenses de todas as faixas se
uniram por trás da ideia de uma "nova guerra fria" é
algo que me tira o fôlego. Dezoito meses atrás a frase era
afastada como alarmismo periférico. Hoje é consenso".
Uma mudança significativa está em curso em círculos
políticos dos EUA, aparentemente. A última
observação de Luce é que "é muito
difícil ver o que, ou quem, vai impedir que esta grande rivalidade de
poder domine o século XXI". É claro que há de facto
um claro consenso bipartidário nos EUA sobre a China. Luce certamente
está certo. Mas isso está longe de ser o fim do assunto. Uma
psicologia colectiva da beligerância parece estar a formar-se e, como
observou um comentarista, tornou-se não apenas uma rivalidade de grande
potência, mas uma rivalidade entre gabarolas políticos da
"Beltway" para mostrar "quem tem o maior pénis".
E James Jeffrey, enviado especial dos EUA para a Síria (e vice
Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA), presente em
Aspen
, passou rapidamente a demonstrar o seu (depois de outros terem desvelado sua
masculinidade quanto à China e ao Irão). Uma política
estado-unidense, diz ele, reduz-se a um componente prioritário:
"martelar a Rússia". O "martelar a Rússia"
(insistiu repetidamente) continuará até o presidente Putin
entender que não há solução militar na Síria
(ele disse isso com elevada ênfase verbal). A Rússia assume
falsamente que Assad "venceu" a guerra: "Ele não
conseguiu", disse Jeffrey. E os EUA estão comprometidos a
demonstrar esta "verdade" fundamental.
Portanto, os planos dos EUA para "elevar a pressão"
escalarão o custo para a Rússia, até que uma
transição política se verifique, com uma nova Síria
a emergir como "nação normal". Os EUA
"alavancarão" os custos sobre a Rússia de cabo a rabo.
Através da pressão militar assegurando uma falta de
progresso militar em Idlib; através de israelenses a operarem livremente
por todo o espaço aéreo da Síria; através de
"parceiros dos EUA" (isto é, os curdos) a consolidarem no
nordeste da Síria; através de custos económicos
("nosso êxito" em travar a ajuda para a
reconstrução da Síria); através de extensas
sanções dos EUA à Síria (integradas com aquelas ao
Irão) "estas sanções estão a ter
êxito", afirma, e em terceiro lugar pela pressão
diplomática: isto é, "martelar a Rússia" na ONU.
Bem a mudança dos EUA sobre a Síria também nos apanha de
surpresa. Recorde-se que pouco tempo atrás a conversa era de parceria,
de os EUA a trabalhar com a Rússia a fim de encontrarem uma
solução na Síria. Agora a conversa do Enviado dos EUA
é de Guerra fria com a Rússia na mesma medida dos seus colegas de
Aspen embora a respeito da China. Tal "machismo" evidencia-se
que também vem do Presidente dos EUA. "Eu podia se quisesse
acabar a guerra dos EUA no Afeganistão em uma semana" (mas
isto implicaria a morte de 10 milhões de afegãos), exclamou
Trump. E, do mesmo modo, Trump agora sugere que para o Irão é
fácil: guerra ou não qualquer dos caminhos é bom,
para ele.
Toda esta jactância recorda o final de 2003 quando a guerra no Iraque
estava a entrar na sua etapa insurgente: Foi dito então que simples
"rapazes vão para Bagdad, mas que
homens de verdade optam por ir para Teerão
". Isto ganhou ampla difusão em Washington naquele tempo. Este tipo
de conversa deu origem, como bem me lembro, a algo que se aproxima de uma
euforia histérica. Responsáveis pareciam estar a andar quinze
centímetros acima do solo, a anteciparem todos os dominós que
esperavam tombar em sucessão.
A questão aqui é que a união tácita da
Rússia agora denominada como um grande "inimigo" da
América por responsáveis do Departamento da Defesa e da
China inevitavelmente está a ser reflectida de volta para os EUA, em
termos de uma crescente parceria estratégica russo-chinesa, pronta a
desafiar os EUA e seus aliados.
Na quinta-feira passada um avião russo, a voar numa patrulha conjunta
com um correspondente chinês, entrou deliberadamente no espaço
aéreo sul-coreano. E, pouco antes,
dois bombardeiros russos Tu-95
e dois aviões de guerra chineses H-6 ambos com capacidade
nuclear confirmadamente entraram na zona de identificação
aérea da Coreia do Sul.
"Esta foi a
primeira vez
, que eu saiba, que aviões de combate chineses e russos voaram em
conjunto através da zona de identificação de defesa
aérea de um importante aliado dos EUA neste caso, de dois aliados
dos EUA. Claramente trata-se de um assinalar geopolítico bem como uma
colecta de inteligência", disse Michael Carpenter, um antigo
especialista em Rússia do Departamento da Defesa dos EUA. Foi uma
mensagem para os EUA, Japão e Coreia do Sul. Se fortalecer a
aliança militar EUA-Japão, a Rússia e a China não
tem opção excepto reagir militarmente também.
Assim, quando olhamos em torno, o quadro parece ser de que a belicosidade dos
EUA está de certo modo a consolidar-se como um consenso da
elite
(mas com uns pouco indivíduos corajosamente a fazerem
contra-pressão a esta tendência). Então, o que está
a acontecer?
Os dois correspondentes do FT estavam efectivamente a assinalar nos seus
artigos separados que os EUA estão a entrar numa
transformação monumental e arriscada. Mais ainda, aparentemente a
elite da América está a ser fracturada em enclaves balcanizados
que não se estão a comunicar entre si nem querem
comunicar-se entre si. Trata-se antes de mais um conflito entre rivais mortais.
Uma orientação insiste sobre uma renovação da
Guerra fria para sustentar e renovar o super-dimensionado complexo
militar-segurança, o qual representa mais da metade do PIB da
América. Outros da elite exigem que a hegemonia global do US
dólar seja preservada. Outra orientação do Estado Profundo
está desgostosa com o contágio de decadência sexual e
corrupção que penetrou na governação americana
e espera realmente que Trump "drenará o pântano".
E outra ainda, que encara a amoralidade agora explícita de DC como pondo
em risco a posição global e a liderança da América
quer ver um retorno aos costumes tradicionais americanos um
"rearmamento moral", por assim dizer. (E depois há os
deploráveis, que simplesmente querem que a América cuide de sua
própria renovação interna.)
Mas todas estas divididas facções do Estado Profundo acreditam
que a beligerância pode funcionar.
No entanto, quanto mais essas fraccionadas facções rivais da
elite dos EUA, com seus estilos de vida endinheirados e confortáveis,
enclausuraram-se nos seus enclaves, alguns nas suas visões separadas
sobre como a América pode reter sua supremacia global, menos
provável é que entendam o impacto muito real da de sua
beligerância colectiva sobre o mundo exterior. Como qualquer elite
mimada, eles têm um sentido exagerado do seus direitos e da sua
impunidade.
Estas facções de elite apesar de todas as suas rivalidades
internas parecem ter-se fundido em torno de uma singularidade de fala e
de pensamento que permite às classes dominantes substituírem a
realidade de uma América sujeita a stress e tensão severos
a fábula de um hegemonista que ainda pode escolher quais governos e
povos não complacentes intimidar e remover do mapa global. Sua
retórica solitária está a azedar as atmosferas no
não-ocidente.
Mas uma outra implicação da incoerência dentro das elites
é aplicável a Trump. Assume-se amplamente, por causa do que ele
diz, que não quer mais guerras e porque ele é presidente
dos EUA não acontecerão guerras. Mas não é
assim que o mundo funciona.
O líder de qualquer nação nunca é soberano. Ele ou
ela senta-se no topo de uma pirâmide de principezinhos brigões
(principezinhos do Estado Profundo, neste caso), os quais têm os seus
próprios interesses e agenda. Trump não está imune
às suas maquinações. Um exemplo óbvio sendo a
artimanha do sr. Bolton, com êxito, ao
persuadir os britânicos
a apresarem o petroleiro Grace I ao largo de Gibraltar. De uma penada,
Bolton escalou
o conflito com o Irão ("aumentou a pressão" sobre o
Irão, como provavelmente diria Bolton); colocou o Reino Unido na linha
de frente da "guerra" da América com o Irão; dividiu os
signatários do JCPOA e embaraçou a UE. Ele é um
"operador" sagaz não há dúvida acerca
disso.
E aqui está a questão: estes principezinhos podem iniciar
acções (incluindo de falsas bandeiras) que conduzem os
acontecimentos para a sua agenda; que podem encurralar um Presidente. E isto
é presumir que o Presidente está de algum modo imune a uma grande
"mudança de estado de espírito" entre os seus
próprios lugares-tenentes (ainda que este consenso não seja mais
do que uma fábula que se segue à beligerância).
Mas será seguro assumir que Trump é imune ao "humor"
geral entre as variadas elites? Seus recentes comentários improvisados
sobre o Afeganistão e o Irão não sugerem que ele possa se
inclinar para a nova beligerância? Martin Wolf concluiu seu artigo no FT
sugerindo que a mudança nos EUA indica que podemos estar a testemunhar
um tombo rumo a um século de conflito. Mas no caso do Irão,
qualquer movimento equivocado poderia resultar em algo mais imediato e
não controlado.
03/Agosto/2019
[*]
Antigo diplomata britânico, fundador e director do Conflicts Forum, com
sede em Beirute.
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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