Advogada da
Human Rights
fala sobre a Prisão de Bagram
"A Administração Obama fracassou totalmente"
por Tina Monshipour Foster
[*]
entrevistada por John Goetz
A advogada da Human Rights Tina Foster falou ao
Der Spiegel
sobre os maus-tratos infligidos aos reclusos da prisão militar dos EUA
em Bagram, no Afeganistão, e a sua desilusão com a
Administração Obama.
Der Spiegel: Logo após ter tomado posse, o Presidente dos EUA, Barack
Obama, anunciou o seu plano para fechar Guantánamo. Pareceu que ia
inverter as políticas de direitos humanos da Administração
Bush. Irão agora os detidos da
prisão militar dos EUA em Bagram, no Afeganistão
, ter direitos legais?
Tina Foster: Infelizmente, o Governo dos EUA não mudou a sua
posição sobre Bagram quando Obama tomou posse. O Governo ainda
alega que os nossos constituintes não têm direito a qualquer
protecção das leis dos EUA. E mantém que mesmo aqueles
indivíduos trazidos para Bagram doutros países e detidos sem
culpa formada por mais de seis anos não têm ainda assim direito a
falar com o seu advogado. E agora afirmam que eles não têm direito
a fazer ouvir os seus casos nos tribunais dos EUA.
Der Spiegel: Mas houve uma importante decisão legal que declara que os
reclusos em Bagram têm direito a representação legal.
Foster: A decisão de 2 de Abril do Juiz John D. Bates, nomeado por
George Bush, foi de que os nossos constituintes têm direito a ver os seus
casos revistos pelo tribunal. Foi um grande êxito.
Der Spiegel: A Administração Obama está de acordo com a
decisão de Bates de atribuir a cada detido um representante?
Foster: Antes que pudéssemos apresentar qualquer prova ou avançar
nos seus casos, a administração Obama apelou para o Tribunal de
Recursos e alega agora que a decisão deve ser anulada. O anúncio
teve o intuito de gerar uma cobertura positiva dos media acerca dos
"novos" procedimentos em Bagram, que foram anunciados nesta altura
porque a entrada do recurso do Governo no Tribunal de Recursos devia dar-se no
dia seguinte. Se reparar nos procedimentos tal como tiveram lugar, verá
que os reclusos não terão qualquer representação
legal. Ao invés, o Departamento da Defesa afirma que enviará
"representantes" que não são advogados para interrogar
os reclusos e examinar os seus casos. Aqueles indivíduos não
são representantes do tribunal e não têm dever de
confidencialidade ou lealdade para com os reclusos.
Der Spiegel: Mas então qual é a diferença entre as
administrações de Bush e Obama?
Foster: Não há qualquer diferença entre a
posição da administração Bush e a da
administração Obama a respeito dos direitos dos reclusos de
Bagram. Fizeram muito barulho a propósito de coisa nenhuma, na
esperança de que os tribunais e o público não examinem o
caso em detalhe.
Der Spiegel: É verdade que a situação dos direitos humanos
melhorou muito em Bagram nos últimos 18 meses?
Foster: Alguns dos nossos constituintes estão em Bagram desde os seus
primórdios e ainda não lhes foi dito quais são as
acusações contra si, nem lhes foi dada a possibilidade de
discutir essas alegações em qualquer procedimento legal. Para
além disso, vários dos nossos constituintes foram trazidos para
Bagram de fora do Afeganistão. Por exemplo, Amin Al Bakri (um iemenita
negociante de pedras preciosas) que foi raptado quando estava numa viagem de
negócios na Tailândia, levado para prisões secretas,
torturado e finalmente levado para Bagram) ainda se mantém sem
comunicação e sem acesso aos seus advogados. Acreditamos que foi
torturado nas prisões secretas da CIA antes de ser transferido para
Bagram, razão por que acredito que o Governo não quer
autorizar-nos a falar com ele. Para esconder. É difícil imaginar
outra razão para que o governo não permitisse uma simples
audição num tribunal dos EUA.
ASSASSINATO
Der Spiegel: Então e o caso de Jawed Ahmad, que recebeu alguma cobertura
mediática?
Foster: O nosso constituinte Jawed "Jojo" Ahmad era um jovem
jornalista que trabalhava para a rede de televisão canadiana CTV. Foi
também capturado pelo Exército e detido sem
acusação durante mais de um ano até ser finalmente
libertado pelo governo dos EUA. Tudo isto aconteceu em 2007-2008 (ou seja,
é bem recente). Esse "erro" do Governo dos EUA custou a vida a
Jojo. Conseguimos finalmente convencer o Governo dos EUA que ele era
inocente e felizmente foi libertado. Jojo dedicou o seu tempo, depois de ter
saído da prisão, a denunciar outras injustiças em Bagram e
noutras partes do Afeganistão. Ele ajudou-nos nos casos doutras pessoas
inocentes que estão hoje detidas em Bagram, e foi essencialmente a nossa
testemunha estrela nesta litigação. Tudo isto teve um fim
precipitado no princípio deste ano, quando Jojo foi alvejado e morto
às claras. Os seus assassinos nunca foram identificados. Foi um dos
momentos mais duros da minha vida. Era uma grande pessoa e um amigo.
Der Spiegel: Pode comparar a situação dos direitos humanos em
Bagram com a de Guantánamo?
Foster: O que a maioria das pessoas não compreende é que Bagram
sempre foi muito pior que Guantánamo. Uma coisa que nunca foi
suficientemente sublinhada em relatos dos media respeitantes a
Guantánamo é que muitos dos maus-tratos que os prisioneiros de
Guantánamo sofreram aconteceram de facto em Bagram. Muitos dos nossos
antigos constituintes foram sujeitos a humilhação sexual e
violação ao estilo de Abu-Ghraib. Em termos de tortura e abusos,
Bagram tem um historial muito pior que Guantánamo. Há pelo menos
dois reclusos que ali morreram depois de serem torturados pelos
torcionários dos EUA. A um deles os torcionários amarraram-lhe os
pulsos e bateram-lhe até as pernas ficarem "em polpa", de
acordo com o próprio relatório da autópsia do
Exército. Os nossos constituintes que foram libertados mais recentemente
relatam a exposição a temperaturas extremas, tortura do sono,
isolamento prolongado e outras torturas que ainda persistem. Bagram foi sempre
uma câmara de tortura; os EUA não conseguirão
livrá-la dessa reputação a não ser que deixem de
manter os reclusos sem comunicação e em segredo.
Der Spiegel: O major-general Douglas M. Stone, que foi encarregado de
investigar Bagram, terá dito que muitos dos reclusos de Bagram
estão inocentes.
Foster: Creio que o relatório do general Stone confirma o que
ficámos a saber ao longo dos anos com os nossos constituintes, ou seja,
que a maioria das pessoas em Bagram foi feita prisioneira injustamente. O
general Stone reviu os próprios registos do Exército e concluiu
que, dos 600 reclusos actualmente em Bagram, há 400 pessoas inocentes
que o governo dos EUA não devia manter prisioneiras. É
óbvio que os procedimentos que o Exército está a usar para
determinar quem deve prender e quem deve libertar são um fiasco total. O
que é completamente incompreensível é por que razão
estas 400 pessoas inocentes não foram libertadas. Não faz sentido
manter inocentes na prisão. É totalmente contraproducente e
põe em causa todo o esforço de guerra.
Der Spiegel: Você trabalhou na campanha de Obama no ano passado.
Está arrependida?
Foster: Eu votei e fiz campanha por Obama, tal como todos os outros, aqui nos
EUA, que queriam ver este país recuperar das políticas ilegais e
injustas da administração Bush. Quando ouvi o anúncio de
Obama de que ia fechar Guantánamo, suspirei de alívio, pensando
que talvez este tenebroso capítulo da História dos EUA tivesse
chegado ao fim. Infelizmente, desde então, a administração
Obama falhou completamente e não trouxe a mudança prometida. Por
um momento, acreditámos que talvez a administração
precisasse de tempo para mudar as suas políticas. A realidade é
que as administrações de Bush e de Obama têm a mesma
posição sobre os direitos dos reclusos em Bagram.
21/Setembro/2009
[*]
Advogada, 34 anos, residente em
Nova Iorque. Começou a representar os reclusos de Guantánamo
em 2005 e compreendeu que muitos deles haviam estado na prisão de Bagram
e aí haviam sofrido maus-tratos muito graves. Em 2005, viajou para o
Afeganistão pela primeira vez. Aí conheceu centenas de familiares
dos reclusos de Bagram que perguntaram por que razão o mundo estava
interessado em Guantánamo mas ninguém parecia preocupar-se com os
maus-tratos em Bagram. Desde então tem trabalhado exclusivamente com os
reclusos de Bagram.
O original encontra-se em
http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,650324,00.html
Tradução de André Rodrigues P. Silva
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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