O império agonizante e os seus inimigos internos
A democracia nos EUA não está em perigo nós
não vivemos numa democracia. A
imagem
da nossa democracia é que está em perigo. O Estado profundo
os generais, banqueiros, líderes de grandes
corporações, lobistas, chefes de serviços secretos,
burocratas do governo e tecnocratas tem a intenção de
salvar o que representam. É difícil trombetear-se como o
guardião e da liberdade e democracia tendo Donald Trump a dizer
incoerentemente idiotices acerca de si próprio, a incitar à
violência racista, a insultar os nossos aliados tradicionais, assim como
os tribunais, a imprensa e o Congresso, a escrever inanidades no tweeter com
erros ortográficos e a denunciar ou sabotar impulsivamente a
política interna e externa bipartidária. Mas o pecado mais
imperdoável de Trump aos olhos do Estado profundo é sua
crítica às guerras infindáveis do império, embora
lhe falte a habilidade intelectual e organizacional para supervisionar um
descomprometimento dessas acções.
O Estado profundo cometeu o maior erro estratégico da história
americana quando invadiu e ocupou o Afeganistão e o Iraque. Tais fiascos
militares fatais, uma característica de todos os impérios na sua
fase de declínio, são os chamados actos de
"micro-militarismo". Impérios moribundos historicamente
desperdiçam o último capital que têm, económico,
político e militar, em conflitos fúteis, intratáveis e
invencíveis, até que desabam. Nesses actos de micro-militarismo
eles procuram recuperar uma dominância anterior e da sua perda de
estatura. Desastres acumulam-se atrás de desastres Os arquitectos da
espiral da morte do império, no entanto, são intocáveis.
Os generais e políticos despistados que impelem o império a
expandir o caos e o seu colapso orçamental têm êxito numa
coisa: perpetuarem-se a si próprios. Ninguém é
responsabilizado. Uma imprensa servil trata estes mandarins com uma
veneração quase religiosa. Generais e políticos, muitos
dos quais deveriam ter sido afastados ou julgados, estão aposentados com
lugares lucrativos nas administrações dos fabricantes de armas,
para os quais estas guerras são imensamente lucrativas. São
chamados por uma imprensa servil a fornecerem ao público análises
do caos que criaram. São apresentados como exemplos de integridade,
serviço altruísta e patriotismo.
Depois de quase duas décadas, todos os objectivos apregoados para
justificar nossas guerras no Médio Oriente foram postos de cabeça
para baixo. A
invasão do Afeganistão
deveria liquidar a Al Qaeda. Em vez disso a Al Qaeda migrou para preencher os
vazios de poder que o Estado profundo criou nas guerras no Iraque,
Síria, Líbia e Iémen. A guerra no Afeganistão
transformou-se numa guerra com os Talibãs, que agora controlam a maior
parte do país e ameaçam o regime corrupto que escoramos em Cabul.
O Estado profundo orquestrou a invasão do Iraque, o qual nada teve a ver
com os ataques do 11 de Setembro. Previam confiantemente que poderiam construir
uma democracia ao estilo ocidental e enfraquecer o poder do Irão na
região. Ao invés disso, destruíram o Iraque como
país unificado, colocando facções étnicas e
religiosas em guerra umas contra as outras. O Irão, estreitamente ligado
ao governo xiíta dominante em Bagdade, emergiu ainda mais forte. O
Estado profundo armou rebeldes "moderados" na Síria, num
esforço para derrubar o presidente Bashar Assad, mas quando percebeu que
não podia controlar os jihadistas aos quais havia fornecido cerca
de 500 milhões de dólares em armas e assistência o
Estado profundo começou a bombardeá-los e a armar rebeldes curdos
para combatê-los. Estes curdos foram posteriormento traídos por
Trump.
A "guerra ao terror" espalhou-se como uma praga desde o
Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia até o
Iémen, o qual após cinco anos de guerra está a sofrer um
dos piores desastres humanitários do mundo. O custo financeiro de toda
esta miséria e morte está entre US$5 e 8 milhões de
milhões
(trillions).
O custo humano ascende a centenas de milhares de mortos e feridos, cidades e
infraestruturas destruídas e milhões de refugiados.
Trump cometeu uma heresia política quando ousou apontar a loucura do
militarismo desenfreado. Ele pagará por isso. O Estado profundo pretende
substituí-lo por alguém talvez Mike Pence, moral e
intelectualmente tão vazio quanto Trump que fará o que lhe
disserem. É este o papel do executivo dos EUA: personificar e humanizar
o império, fazê-lo com pompa e dignidade. Barack Obama que
especiosamente reinterpretou a Autorização de Uso da Força
Militar de 2001 para dar ao executivo o direito de assassinar qualquer um no
exterior, até mesmo um cidadão dos EUA, considerado terrorista
destacou-se neste jogo.
Remover Trump do cargo não ameaçaria o poder corporativo.
Não restauraria as liberdades civis, incluindo o nosso direito à
privacidade e a um devido processo legal. Não desmilitarizaria a
polícia nem defenderia os direitos da classe trabalhadora. Não
impediria os lucros das empresas petrolíferas e bancárias.
Não trataria da emergência climática. Não acabaria
com a falta de garantias públicas de vigilância sobre as pessoas.
Não terminaria com prisões especiais, nem com o sequestro de
pessoas por todo o mundo consideradas inimigas do Estado. Não impediria
os assassinatos por drones militarizados. Não impediria a
separação das crianças dos seus pais e o armazenamento
destas crianças em instalações imundas e superlotadas.
Não remediaria a consolidação da riqueza e do poder pela
oligarquia e o empobrecimento dos cidadãos. Continuaria a
expansão do nosso sistema prisional e de locais sinistros em todo o
mundo, locais onde se pratica a tortura, assim como o abate de cidadãos
pobres e desarmados em terrenos suburbanos devastados. Mais importante, as
catastróficas guerras estrangeiras que resultaram numa série de
Estados fracassados e desperdiçaram milhões de milhões de
dólares dos contribuintes permaneceriam sacrossantas, apoiadas com
entusiasmo pelos líderes dos dois partidos dominantes, fantoches do
Estado profundo.
A destituição de Trump, apesar do entusiasmo da elite liberal,
é sobretudo cosmética. Todo o sistema político e
governamental está corrompido. Hunter Biden, como confirmado, recebia 50
mil dólares por mês para fazer parte do conselho de
administração da empresa de gás ucraniana Burisma
Holdings, embora não tenha qualquer experiência na
indústria do gás. Ele havia trabalhado anteriormente para a
corporação de cartões de crédito MBNA, a qual foi
um dos maiores contribuidores da campanha de Joe Biden quando ele era senador
do Delaware. Hunter Biden foi contratado pela Burisma Holdings pela mesma
razão pela qual foi contratado pela MBNA. Seu pai era desde há
muito tempo uma ferramenta do poder corporativo e do complexo industrial
militar, em suma do Estado profundo, era senador e depois vice-presidente. Joe
Biden, os Clintons e os líderes do Partido Democrata personificam o
mesmo suborno legalizado que define os seus rivais no Partido Republicano.
Os candidatos corporativos nos dois partidos dominantes são
pré-seleccionados, financiados e ungidos pelas grandes empresas. Se
não cumprirem as exigências do Estado profundo, que protege os
interesses corporativos e a administração do império,
são removidos. Existe até uma palavra para isso:
primarying
. Os lobistas corporativos escrevem as leis. Os tribunais as aplicam.
Não há forma de o sistema político americano votar contra
os interesses da Goldman Sachs, Citigroup, AT&T, Amazon, Microsoft, Walmart,
Alphabet, Facebook, Apple, Exxon Mobil, Lockheed Martin, United Health Group ou
Northrop Grumman.
Nós, o público dos EUA, somos espectadores. Uma audiência.
Quem estará sentado quando o jogo das cadeiras musicais parar? Trump
será capaz de manter o poder? Pence será o novo presidente? Ou o
Estado profundo elevará um mercenário político como Biden
ou um apologista neoliberal como Pete Butiggieg, Amy Klobuchar ou Kamala Harris
à Casa Branca? Será que vai tentar Michael Bloomberg, John Kerry,
Sherrod Brown ou, Deus nos livre, Hillary Clinton? E se o Estado profundo
falhar? E se a podridão no Partido Republicano, ou o que
Glen Ford
chama de "partido do homem branco" de Trump, for tão profunda
que não signifique o fim político do presidente mais incompetente
da história americana? A luta pelo poder, que inclui o bloqueio a Bernie
Sanders e Elizabeth Warren de obter a indicação ao Partido
Democrata, fará durante meses uma televisão notável e
gerará milhares de milhões em receitas publicitárias.
A guerra entre o Estado profundo e Trump começou no momento em que ele
foi eleito. O ex-director da CIA John Brennan e o ex-director da National
Intelligence James Clapper ambos são agora comentadores pagos da
televisão, juntamente com o ex-chefe do FBI James Comey logo
acusaram Trump de ser uma ferramenta de Moscovo. As agências de
serviços secretos divulgaram histórias obscenas sobre "
pee tapes
" e chantagem, além de relatos de "repetidos contactos"
com serviços secretos russos. Brennan, Clapper e Comey juntaram-se
rapidamente a outros ex-agentes dos serviços secretos, incluindo Michael
Hayden,
Michael Morell
e Andrew McCabe. Os seus ataques foram ampliados por antigos líderes
militares, incluindo
William McRaven
, James Mattis, H.R. McMaster, John Kelly,
James Stavridis
e Barry McCaffrey.
A conspiração russa, após a divulgação do
relatório Mueller, provou ser um fracasso. Os actores do Estado
profundo, no entanto, foram revigorados pela decisão de Trump de
pressionar o governo da Ucrânia para investigar Biden. Trump, desta vez,
parece ter dado aos seus inimigos do Estado profundo corda suficiente para
enforcá-lo.
A destituição de Trump marca um capítulo novo e assustador
na política americana. O Estado profundo mostrou a sua cara. Fez uma
declaração pública de que não tolerará
discordâncias, embora as discordâncias de Trump sejam
retóricas, caprichosas e ineficazes. Porém, o esforço de
destituição de Trump envia uma mensagem ameaçadora
à esquerda americana. O Estado profundo não só pretende
impedir, como fez em 2016, Bernie Sanders ou qualquer outro democrata
progressista de alcançar o poder, mas sinalizou que destruirá
qualquer político que tente questionar a manutenção e
expansão do império. A sua animosidade em direcção
à esquerda é muito mais pronunciada do que a animosidade em
relação a Trump. E os seus recursos para destruir a esquerda
são quase inesgotáveis.
O filósofo político
Sheldon Wolin
viu tudo isso no seu livro de 2008:
Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism
. Escreveu ele:
"O papel político do poder corporativo; a corrupção
dos processos políticos e representativos pelos lóbis, a
ampliação do poder executivo à custa de
limitações constitucionais e a degradação do
diálogo político promovido pelos media
são
a base do sistema, não excrecências sobre ele. O sistema
permaneceria em vigor mesmo que o Partido Democrata alcançasse a
maioria; e se essa circunstância surgir, o sistema estabelecerá
limites rígidos para mudanças indesejadas, como é evidente
na timidez das actuais propostas democráticas de reforma. Em
última análise, a tão louvada estabilidade e
conservadorismo do sistema americano não deve nada a ideais sublimes e
tudo ao facto irrefutável de que está minado de
corrupção e inundado de contribuições
principalmente de doadores ricos e de corporações. Quando um
mínimo de um milhão de dólares é exigido aos
candidatos à Câmara de Representantes ou a juízes eleitos,
e quando patriotismo é para os que estão livres da
conscrição na tropa enaltecerem para os cidadãos comuns
servirem a tropa, em tais ocasiões é um simples acto de má
fé afirmar que a política tal como é praticada agora, pode
milagrosamente curar os males que são essenciais à sua
existência.
Não há restrições internas ou externas ao Estado
profundo. As instituições democráticas, incluindo a
imprensa, que outrora davam uma voz aos cidadãos e tinham uma palavra a
dizer quanto ao exercício do poder, foram neutralizadas. O Estado
profundo promoverá a consolidação da riqueza e do poder
corporativo, expandirá a desigualdade social que atirou metade dos
americanos à pobreza ou à quase pobreza, tirará as
liberdades civis que restam e alimentará os apetites vorazes das
forças armadas e da indústria de guerra. Os recursos do Estado
serão desbaratados enquanto o défice federal incha. A
frustração e os sentimentos de estagnação entre os
cidadãos privados de poder e desprezados, que contribuíram para a
eleição de Trump, aumentarão.
Chegará o momento do acerto de contas, como ocorreu nos últimos
dias no
Libano
e no
Chile
. A agitação social é inevitável. Qualquer
população pode ser empurrada apenas até um certo ponto. O
Estado profundo, incapaz de se reformar e determinado a manter o controlo do
poder, transformar-se-á sob a ameaça do descontentamento popular
num fascismo corporatista. Dispõe de ferramentas legais e físicas
para transformar instantaneamente os Estados Unidos num estado policial. Este
é o verdadeiro perigo por trás do esforço do Estado
profundo para destituir Trump. É uma mensagem gritante para obedecer ou
ser silenciado. Em resumo, Trump não é o problema. Nós
somos. E se o Estado profundo não conseguir livrar-se de Trump, ele
será usado, ainda que com relutância, para realizar o trabalho
sujo. Trump, se conseguir sobreviver no poder, terá os seus desfiles
militares. Nós , Com ou sem Trump teremos tirania.
04/Novembro/2019
[*]
Foi durante duas décadas correspondente estrangeiro na América
Central, Médio Oriente, África e Balcãs. Esteve em mais de
50 países e trabalhou para o
Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News
e
The New York Times,
dos quais foi correspondente estrangeiro durante 15 anos.
https://www.truthdig.com/author/chris_hedges/
O original encontra-se em
https://www.truthdig.com/articles/the-enemy-within/
e em
http://www.informationclearinghouse.info/52485.htm
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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