Duas pistas para os despistados
por Jim Kunstler
A primeira pista surgiu durante um noticiário de rotina difundido pela
NPR na sexta-feira, o qual apresentava o candidato presidencial Mitt Romney a
vender a ideia surrada de que o nosso país "está dependente
do petróleo estrangeiro". Já ouvimos isso um milhão
de vezes, claro, e aceitamos a ideia sem pensar. Mas se alguém se
arriscar a avançar mentalmente apenas um passo de bebé
perceberá rapidamente que o problema não está na
dependência do petróleo estrangeiro. O problema é que
adoptámos um estilo de vida tão irremediavelmente centrado nos
carros, na motorização incessante, e uma das suas
consequências é o vício no petróleo cuja
produção acontece estar em declínio na nossa
própria terra.
Por outras palavras, o problema não é o facto de dois
terços do petróleo que utilizamos vir de outros países,
mas sim o nosso próprio comportamento no nosso próprio
país. Para viver com base na realidade, é mais eficaz modificar
o nosso próprio comportamento do que tentar governar o comportamento de
outros indivíduos e entidades soberanas. Perceber isto e comunicar ao
público pode ser um teste para qualquer um que se candidate a
presidente. Pode-se esperar que um candidato Republicado evite astuciosamente
esta realidade uma vez que vendedores de carros e urbanizadores de
extensos loteamentos suburbanos estão entre os mais fervorosos
Republicanos. Mas é uma desgraça para a oposição
Democrata ignorar esta realidade.
O mais grave problema que este país enfrenta, portanto, é a
incapacidade do público americano e dos seus líderes de enfrentar
o facto de que não podemos continuar a viver do modo actual e, a
propósito, quando digo "líderes" não me
restrinjo aos líderes políticos. Os nossos fracassos de
liderança são abrangentes, incluindo liderança no meu
sector nominal, o jornalismo. Durante duas semanas consecutivas o preço
do petróleo nos mercados de futuros fechou acima dos US$80 por barril, e
durante essas duas semanas o
New York Times Sunday Business Section
não foi capaz de publicar uma reportagem sobre as consequências
do aumento do petróleo no território não cartografado dos
preços elevados. Será que os editores do
Times
estão sob o efeito do crack? Seguramente, a mais de US$80 o
petróleo assolará a economia americana.
A segunda pista para os despistados veio no fim de semana, quando o presidente
Bush declarou que o caos reinante nos aeroportos dos EUA havia atingido um
nível tão intolerável que o governo federal pode ter de
intervir e obrigar as companhias de aviação a se porem em forma
através da regulação de rotas e repartição
de voos. Mais uma vez, é realmente impressionante a incapacidade do
público e dos seus líderes de estenderem o pensamento uma
polegada para além do horizonte de um dado problema. É como se
todo o país tivesse sofrido uma lobotomia e talvez tenhamos,
através da exposição excessiva à TV.
Terá ocorrido a alguém que se pudéssemos correr comboios
entre cidades a umas poucas milhas de distância digamos de
Cleveland para Columbus Ohio poderíamos descongestionar os
aeroportos da noite para o dia? Que, ao assim fazer, os americanos poderiam
viajar muito mais agradavelmente e economicamente entre os lugares que
percorrem mais frequentemente? Isto certamente não ocorreu a nenhum dos
candidatos à presidência, ou a qualquer dos editores-chefe dos
novos media, ou mesmo a qualquer executivo do que ainda resta da
indústria ferroviária. Mas tentarei cozinhar o assunto de um
modo digerível para eles: o melhor caminho para aliviar a actual agonia
das viagens aéreas é conseguir que os comboios de passageiros
corram outra vez. Deixem as companhias aéreas fazerem os que elas fazem
melhor: viagens realmente de longo curso. Os empregos agora em hemorragia na
indústria automobilística americana poderiam mudar para o
tráfego ferroviário de passageiros e mercadorias. Toda a gente
ficará muito mais feliz.
As pessoas que conheço queixam-se infindavelmente acerca da estupidez do
presidente George W. Bush, e de quão gravemente ele mentiu ao
público acerca disto ou daquilo. Mas um observador casual de Marte
teria de concluir que o presidente Bush representa perfeitamente um país
que mostra tão profunda incapacidade de pensar, e uma tal aversão
à verdade acerca do seu próprio comportamento. Um povo que se
recusa tão irremediavelmente a actuar merece sofrer.
01/Outubro/2007
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/10/two-clues-for-t.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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