Tiros a quente
por Jim Kunstler
O Federal Reserve parece estar a manufacturar uma impressionante oferta de
"asneiras ainda maiores" para continuar a deitar as pequenas gotas de
crédito no peito ferido da economia. A ideia do Fed, suponho, é
que se emprestarem um pouco de dinheiro aos génios que engendraram a
mais recente (a provavelmente última) bolha da era do petróleo
barato para cobrir as suas perdas presentes, então a economia americana
será "consertada". Penso que eles não percebem que as
finanças já se tornaram virtualmente a economia americana
se for subtraída, não sobra nada além de cabeleireiros,
frangos fritos e colonoscopias. Será que por "endireitar a
economia" a pessoas querem dizer a capacidade para continuar a manter em
funcionamento um conjunto evidente de roubos fraudulentos que nada têm a
ver com o financiamento da actividade produtiva real?
Por "asneiras maiores" quero dizer, naturalmente, compradores
desejosos de avançar e comprar títulos de que outras pessoas
estão a livrar-se como se fossem cobertores com varíola. Mas
mesmo a oferta do Fed de maiores asneiras possa demonstrar-se insuficiente
quando se tornar evidente quanto papel mau está realmente fora dali e
como lhe foi permitido contaminar todos os nichos da banca e das casas de
horrores do investimento. Penso que ainda não começámos a
ouvir as revelações.
Na semana passada a destruição global continuou, com
presságios negros para esta semana e na verdade para o resto do ano. O
tão mencionado "carry trade" emprestar fardos
maciços de yens japoneses a juros ridiculamente baixos e acumular o
dinheiro em lugares onde os retornos são mais elevados ficou
abalado quando os mercados de acções estremeceram e os
spreads
das divisas começaram a ir por ali e acolá. Isto não
podia ser saudável para os génios dos derivativos, cujos
algoritmos apanhavam gripe todas as vezes que mudavam as temperaturas numa sala
da bolsa em qualquer lugar do mundo, e para os quais o
carry trade
fora uma espécie de mineração a céu aberto nestes
últimos anos. A acção da semana passada deve ter
arrebentado um bocado de paredes naqueles estabelecimentos. Os Big Fund Boyz
têm estado a disfarçar cobrindo os danos com papel de parede.
Mais cedo ou mais tarde, a força das coisas ultrapassará as suas
capacidades de fingirem que está tudo bem. Meu palpite é que
agora mesmo farão tudo excepto colocar os seus MBS-e-outros-papeis-lixo
no bloco dos leilões e então teremos duas coisas:
anúncios sem rodeios de capitulações e insolvências,
acrescentado que, a propósito, os nossos fundos foram incorporados nas
Ilhas Cayman, fora do alcance dos tribunais americanos. Assim, vocês
crédulos tolos que pensaram processar-nos, lixem-se (e isto actua
lindamente para a maior legitimidade do sector financeiro americano).
Por falar na Ilhas Cayman, elas estão prestes a serem assoladas pelo
Furacão Dean. Aqueles gabinetes Potemkin onde os Boys incorporaram os
seus fundos misteriosos podem nem mesmo estar de pé às três
da tarde. Mas falar do Furacão Dean levanta algumas interessantes
questões paralelas. O Texas pode estar a dar um suspiro de
alívio com a rota actual da tempestade, pois pensa-se que
avançará para a Península de Yucatan e o México.
Mas, como se vê neste artigo em TheOilDrum.com, é uma
situação de Cila e Caribde real. O universo dos campos de
petróleo do Golfo e as refinarias de Houston pode não ser
devastado, mas em contrapartida tudo indica que o campo de petróleo de
Cantarell, do México, será assolado. Com o México sendo a
nossa fonte número de dois de petróleo importado, com as
importações de petróleo a serem quase 75 do nosso
abastecimento diário e com o campo de Cantarell correspondendo a 60 por
cento da produção mexicana bem, veremos como isso vai.
Ninguém parece realmente saber o que manteve o comércio de
petróleo bruto apenas em torno dos US$ 70 por esta altura, mas as duas
principais especulações são: a)
"destruição da procura" entre os
consumidores-condutores americanos; e 2) desesperados Big Fund Boyz a
descartarem posições nos mercados de futuros de petróleo
para levantar cash a fim de cobrir as suas perdas alhures. Seja como for, o
Dean não parece bom para os preços do petróleo nos EUA.
Estas coisas levam-me a dizer que estamos firmemente numa zona de instabilidade
declarada nas finanças globais. Tenho de considerar que as perdas e
desequilíbrios nos fundos agora são demasiado graves para
corrigir. O Federal Reserve tem permissão para escolher se deixa estas
entidades afundarem ou deixa afundar o dólar dos EUA ao tentar
salvá-las. A espécie de tostões prévios
"pingados do helicóptero"
[1]
da "liquidez" que eles lançaram nas passadas duas semanas
pode realmente cumprir ambos, apenas um bocado mais lentamente. Quero dizer
com isto que o dano pode não ocorrer todo de uma vez mas ser estendido
até ao fim deste ano. De qualquer modo, as quantias maciças de
hipotecas reajustáveis a desenrolarem-se até ao Natal
arrebentarão muitas outras paredes no atormentado corpo político.
E não nos esqueçamos de um Furacão (mesmo um de categoria
5) não faz toda uma estação de furacões.
20/Agosto/2007
[1] Alusão a declarações de Bernanke, novo presidente da
Reserva Federal, de que em certas circunstâncias despejaria dinheiro
até de helicóptero.
O original encontra-se em
http://jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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