O branqueamento de lucros
por Rita Casaro
As jurisdições dos paraísos fiscais, que
são o destino final dos dinheiros resultantes de tráfico
de drogas, armas ou pessoas , de corrupção e de crimes
empresariais, são também um refúgio seguro para dinheiros
fiscais retidos indevidamente. Segundo o relatório da Oxfam, devido a
este mecanismo os países pobres perdem 50 mil milhões de
dólares por ano provenientes dos rendimentos fiscais. A
transferência de preços é um dispositivo usado pelas
filiais de empresas para efectuar falsas transacções com as suas
sociedades filiais estrangeiras, geralmente localizadas em lugares como as
Ilhas Virgens ou as Caimão, para ocultarem o montante dos seus lucros
nos países onde operam.
Chama-se a este processo branqueamento de lucros, declara a
jornalista norte-americana
Lucy Komisar
da Rede de Justiça Fiscal, uma organização empenhada em
alertar a sociedade para este tipo de fraudes. Grandes empresas de todo o mundo
têm praticado este tipo de fraude recorrendo a organizações
financeiras como o Citibank e com o apoio de aliados muito poderosos. O
dispositivo é usado por abastados indivíduos e empresas dos
Estados Unidos para branquear dinheiros e enganar a administração
fiscal. Em entrevista ao Planeta Porto Alegre, a jornalista revelou os
estratagemas usados na apropriação dos dinheiros públicos,
as consequências daí decorrentes e os modos de impedir esta
situação.
Os seus artigos e palestras introduziram um novo conceito no debate sobre o
sistema financeiro: o branqueamento de lucros. Como funciona esse processo?
É um processo bastante generalizado e normalmente é efectuado
através da transferência de preços (transferência de
produtos e serviços entre as sociedades afiliadas). É do
conhecimento geral que hoje em dia metade das operações
internacionais são realizadas por sociedades afiliadas e não por
duas empresas distintas. Por exemplo, um par de sapatos feitos no Brasil custa,
digamos, R$20. São vendidos por R$100 por todo o mundo. Por conseguinte,
o montante fiscal pago pelo fabricante deveria apresentar um lucro de R$80. De
modo a ludibriar as autoridades fiscais, o empresário estabelece uma
empresa de fachada nas Ilhas Virgens ou Caimão, ou em qualquer outro
lugar onde vigore o segredo bancário. Deste modo, a empresa XY
comprará o par de sapatos por R$50 para depois os exportar por R$100.
O resultado é que o imposto pago pelo fabricante é de R$30; os
restantes R$50 são depositados numa conta num paraíso fiscal. As
autoridades fiscais não são o único elemento prejudicado.
Numa empresa pública, os accionistas desconhecem o verdadeiro montante
dos lucros e também eles estão a ser ludibriados pois só
conseguem obter lucros na ordem dos R$30. Isto acontece por todo o mundo.
Estas fraudes dependem sempre do segredo oferecido pelas
jurisdições dos paraísos fiscais?
Há casos em que nem se preocupam sequer em ocultar o nome do
proprietário da empresa. Afirmam que a empresa está a desenvolver
um projecto de pesquisa ou a trabalhar como relações
públicas, e por conseguinte tem direito a uma percentagem dos lucros.
Por vezes custa a acreditar nos estratagemas de que se servem, de tão
ultrajantes que são. Por exemplo, uma empresa vende por um pequeno
montante o seu próprio logotipo a uma outra empresa diferente sediada
num paraíso fiscal. Posteriormente pagam uma fortuna para usar esse
logotipo. Este montante de dinheiro é enviado para paraísos
fiscais sem sofrer quaisquer impostos, pois na contabilidade o registo de
liquidação é referido como uma despesa.
De qualquer modo, resulta numa enorme apropriação indevida...
Em ambos os casos existe branqueamento de lucros e a sociedade fica a perder
porque deixa de beneficiar dos créditos de imposto. Em 1950, as empresas
norte-americanas pagavam 28% dos impostos federais, mas hoje essa
contribuição decresceu em 10% ou 11%. Quem paga o resto?
É a sociedade. Os governos estão a taxar o uso quando deveriam
estar a taxar as receitas. E, mais grave ainda, o serviço
público está a perder qualidade porque o governo reclama falta de
recursos. As pequenas empresas que efectuam negócios internacionais
também perdem: têm de pagar impostos e competir com as empresas
que praticam o branqueamento dos lucros. É uma competição
injusta! Quando digo que eles não pagam impostos, é no sentido
literal. Existe uma pesquisa que revela que empresas como a
General Electric
e a
Chevron
pagaram zero de impostos entre 1996 e 2000.
Como conseguiram essas empresas fazer isso?
As empresas declaram as receitas e as despesas como bem entenderem. Há
casos absurdos de toalhas importadas do Paquistão a 154 dólares
cada uma. Ou até a exportação de pneus de camião
para o Reino Unido por 11,74 dólares, ou edifícios
pré-fabricados da Trindade por 1,20 dólar. São mentiras e
constitui uma enorme perda para o país. Tudo isto é feito
através da transferência de preços. É um processo
declaradamente desonesto, embora não ilegal. Deveria haver modos de
detectar e pôr cobro a fraudes desta magnitude.
Estes dados referem-se aos EUA, mas trata-se de uma prática
generalizada, não é verdade?
Não restam dúvidas sobre isso. Um relatório da Oxfam
calcula que no espaço de um ano os países pobres sofrem uma
evasão de 50 mil milhões de dólares através dos
paraísos fiscais. Tal montante equivale à soma que essas
nações recebem como ajuda bilateral, uma ajuda que geralmente tem
de ser reembolsada. Uma empresa instala-se num país, extrai
petróleo, diamantes ou o que quer que seja e recorre aos paraísos
fiscais para branquear os seus lucros a fim de não pagar os impostos no
país onde está a fazer dinheiro.
O que sugere para impedir esta prática?
A solução consiste em cobrar um imposto único, de modo a
que a receita seja distribuída de acordo com o verdadeiro negócio
efectuado. Não se pode estabelecer uma empresa nas Ilhas Caimão
se não houver ninguém lá. Também é
necessário abolir o segredo bancário, para que as pessoas
não possam servir-se deste estratagema para branquearem os lucros.
Há 11 milhões de milhões
(trillions)
de dólares em paraísos fiscais, um montante equivalente a um
terço do produto nacional bruto mundial. São números
alarmantes. Os EUA estimam perdas de aproximadamente 50 mil milhões de
dólares por ano através dessa transferência de
preços.
Quem faz funcionar a circulação de dinheiro?
Essas contas estrangeiras não são abertas em pequenos bancos de
que as pessoas nunca ouviram falar. São filiais do Citibank ou do Banco
Bilbao & Viscaya, que arrecadam muito dinheiro abrindo estas contas secretas
devido às enormes comissões que recebem. Todas estas
instituições dispõem de serviços bancários
privados, aos quais recorre quem dispõe pelo menos de 1 milhão de
dólares. Estas contas existem para que as pessoas muito abastadas possam
ocultar e branquear o seu dinheiro. Acaba por se constituir como um
serviço internacional para qualquer espécie de crime, desde o
lobbying
ilegal até armamento, drogas, tráfico de crianças e de
mulheres e terrorismo.
E por que razão o governo dos Estados Unidos, geralmente tão
dedicado à prevenção do tráfico de drogas e do
terrorismo, não investiga o Citibank?
O problema é que este dispositivo é usado por abastados
cidadãos e empresas dos Estados Unidos para ludibriar as autoridades
fiscais. Os próprios governantes do país recorrem a esse
estratagema. Se pretendessem perseguir os criminosos, também eles
seriam incriminados. Quando o Presidente Bush dirigia a
Harken Energy
no Texas, a empresa fundou uma outra empresa estrangeira para não
pagarem impostos. Quando o vice-presidente Dick Cheney dirigia a
Halliburton , a empresa aumentou pelo menos de nove para 44 filiais. Portanto,
irão
manter o actual estado das coisas para seu próprio benefício.
Não se a Rede de Justiça Fiscal puder impedir isso
Estamos empenhados em alertar as pessoas para esta realidade e os nossos
esforços dirigem-se no sentido de estabelecer a Rede de Justiça
Fiscal em muitos países, para nos ajudarem a vigiar essas fraudes.
É necessário que as organizações que lutam por
empresas ambientais e sociais responsáveis exijam também que as
empresas paguem os impostos. Muitas empresas poderiam doar dinheiro para a
cultura ou outras causas honrosas, o que constituiria uma grande medida de
marketing. Mas, afinal, o que acontece normalmente? Gastam R$100 mil nesse
projecto e retêm R$1 milhão em impostos. Este dinheiro, que
pertence à sociedade, poderia ser usado pelo governo em dez outros
projectos, ou de acordo com a vontade da sociedade e não com a vontade
das empresas.
O original encontra-se em
http://www.planetaportoalegre.net/.
Tradução de A. Gomes.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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