Migalhas imperiais

por Néstor García Iturbe

Como todos os anos, o Departamento de Agricultura do Governo dos Estados Unidos (USDA) anunciou as quantias destinadas à ajuda alimentar, a distribuir pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), de acordo com o Programa Internacional McGovern-Dole, assim chamado em honra dos ex-senadores, George McGovern e Robert Dole que se distinguiram no desenvolvimento de um compromisso mundial pela alimentação escolar e pela nutrição infantil.

Para o ano de 2004 foram orçamentados para este programa 50 milhões de dólares, destinados à alimentação de dois milhões de crianças. Estes fundos deveriam beneficiar as crianças da Bolívia, da República Dominicana, da Guatemala, do Afeganistão, do Congo, da Costa do Marfim, da Eritreia, da Gâmbia, do Quénia, do Kirgistão, do Malawi, da Moldova e de Moçambique, num total de 13 países.

Para 2005, foi orçamentada a quantia de 91 milhões de dólares, neste caso com o propósito de contribuir para a alimentação de 3,4 milhões de crianças que vivem em 15 países: Bolívia, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Afeganistão, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Quénia, Quirguistão, Líbano, Moldova, Nepal, Paquistão, Uganda e Vietname.

Quando tomamos em consideração as quantias destinadas para esta ajuda e os milhões de crianças que com ela se pretende alimentar, temos como resultado que no ano de 2004, com este Programa, o governo dos Estados Unidos destinou 25 dólares anuais à alimentação de dois milhões de crianças, o que não chega nem para gastar um dólar diário durante um mês nesta "caritativa" missão. Em cada um dos 13 países foram beneficiados em média, durante esse mês 153 846 crianças, que não representam nem 2 por cento da população infantil dos ditos países.

Fazendo uma análise similar em relação aos fundos de 2005, podemos concluir que os US$91 milhões se destinam à alimentação de 3,4 milhões de crianças, pelo que a média destinada a cada criança será de 26,76 dólares anuais, o que, com muita dificuldade, poderia assegurar durante um mês a alimentação de cada um deles. Quanto aos países beneficiados, são 15 em 2005, pelo que o número de crianças por país seria 226 666, um ligeiro aumento relativamente a 2004, mas ainda insuficiente, pois tal número não chega a representar 3 por cento da população infantil desses países.

Do mesmo modo que em 2004, em 2005 o Departamento de Agricultura do governo dos Estados Unidos, comprará em solo norte-americano, a empresas norte-americanas, os alimentos que enviará aos países mencionados, e assim o negócio fica em casa; as empresas livram-se dos seus excessos de existências, a um preço vantajoso e nos países receptores da ajuda não vêm nem um centavo de dólar, nem podem procurar melhores preços para fazer com que os créditos que lhe concedeu o "magnânimo" país do norte lhes rendam um pouco mais.

Quando se analisam as centenas de milhares de milhões de dólares que os Estados Unidos gastam anualmente em consequência da sua política guerreira e os milhares de milhões que recebe dos países mais pobres do mundo devido à exploração a que estes se vêm submetidos, é ridículo que se destinem essas irrisórias quantias à alimentação das crianças, umas migalhas, que se anunciam como se com elas se resolvesse um problema, o que está muito longe da triste realidade em que vive a população infantil mundial.

Maio/2005

O original encontra-se em http://www.cubasocialista.cu/texto/cs0153.htm

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
16/Jun/05