Inimigo da ciência gere a crise do coronavírus na Casa Branca
Michael Pence, o fundamentalista cristão que ocupa o lugar de
vice-presidente dos Estados Unidos, um céptico da ciência, foi
encarregado por Donald Trump de filtrar toda a informação sobre o
coronavírus que pode chegar à comunicação social e
à população dos Estados Unidos. Ferrenho do dogma
"criacionista" e inimigo da teoria da evolução,
responsável pelo maior surto de HIV no Estado de Indiana, onde era
governador, adversário do uso de preservativo método
"demasiado moderno" adepto do "tratamento
clínico" da homossexualidade, Pence dirige uma
"task-force" para lidar com a crise do COVID-19. E a fotografia
oficial da primeira reunião do grupo na Casa Branca mostra os
participantes rezando para que o mal do coronavírus seja afastado.
Rush Limbaugh, um comentador de rádio norte-americano de extrema-direita
a quem recentemente Trump concedeu a Medalha Presidencial da Liberdade, uma
honra atribuída normalmente a quem contribuiu para o bem da sociedade,
sugeriu recentemente que o novo coronavírus, também conhecido por
COVID-19, não passa de uma constipação comum que foi
"armadilhada" pelos opositores do presidente para prejudicá-lo
nas eleições deste ano. Tal contratempo para os marginais
lunáticos que se opõem à ciência e à medicina
modernas, incluindo vacinas, não se limite às ondas de
rádio.
O senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, considera o coronavírus
um produto chinês da guerra biológica que terá escapado
acidentalmente do único laboratório de nível 4 de
biossegurança da China, localizado em Wuhan, cidade onde ocorreu o
primeiro surto relatado do vírus. Ao que consta, Cotton foi influenciado
na sua opinião por Steve Bannon, o ex-estratego de Trump, caudilho da
união de grupos fascistas, ultranacionalistas e populistas da Europa,
especialista em teorias da conspiração. A tese das armas
biológicas chinesas logo surgiu estampada nas páginas do
Washington Times,
diário de extrema-direita que é propriedade da família do
chefe da seita religiosa coreana Sun Myoung-moon ("reverendo Moon"),
e do
Washington Examiner,
propriedade de Philip Anschutz, bilionário financiador de várias
causas e grupos de extrema-direita. Cavalgando igualmente a onda chinesa das
armas biológicas esteve o
Epoch Times,
propriedade da seita religiosa chinesa Falun Gong, que se opõe ao
governo de Pequim e surge frequentemente associada à CIA.
Um controlo descontrolado
Limbaugh, Cotton, Bannon e os jornais de extrema-direita, auxiliados e
incentivados pela cadeia de televisão Fox News, o website Breibart News,
onde Bannon trabalhou, e vários sites conspirativos conduzem uma
operação de diversão e desinformação da
população em relação ao coronavírus
multiplicando truques de propaganda congeminados pelos gestores da campanha
presidencial de Trump. O presidente afirmou erradamente que o
coronavírus está "sob controlo" nos Estados Unidos e
que irá desaparecer com a subida de temperatura própria da
Primavera.
Durante uma rara conferência de imprensa na Casa Branca, em 26 de
Fevereiro, Trump mentiu quando afirmou que os Estados Unidos tinham apenas 15
casos confirmados de coronavírus. Na altura eram 59: e quando o
presidente garantiu o "controlo", uma mulher do condado de Solano, na
Califórnia, foi o primeiro caso de uma pessoa contaminada sem ter feito
viagens ou estar exposta a infectados com o vírus.
Pence: "rezem!"
Donald Trump nomeou o vice-presidente, Michael Pence, para chefiar a task-force
da Casa Branca encarregada de lidar com os efeitos do coronavírus. Em
2015, quando era governador de Indiana, a incompetência e a
ignorância deste fundamentalista cristão provocaram o pior surto
de HIV da história do Estado ao opor-se a um programa de troca de
seringas. Devido ao facto de ser titular do financiamento estatal para as
agências de saúde pública, Pence é agora
responsável por garantir que todas as informações do
governo federal sobre o surto de coronavírus passem pelo seu gabinete
antes de serem tornadas públicas. Este dirigente político para
quem o preservativo é "demasiado moderno" fez distribuir uma
fotografia da primeira reunião da task-force na ala oeste da Casa Branca
na qual se vêm todos os participantes rezando para "afastar o
coronavírus".
"É só uma gripe"
O ministro oficioso da propaganda de Trump, Limbaugh, deu que falar ao acusar a
Dra. Nancy Messonnier, directora do Centro Nacional de Imunização
e Doenças Respiratórias do Centro de Controlo e
Prevenção de Doenças (CDC), de estar por detrás de
uma conspiração do "Estado profundo" para armadilhar a
"gripe comum" da qual o coronavírus não passa. Limbaugh
sugeriu que Messonier está envolvida numa conspiração
clandestina para impedir a reeleição de Trump; e citou o facto de
o irmão da Dra. Messonier ser o vice-procurador-geral Rod Rosenstein,
que nomeou Robert Mueller como conselheiro especial para investigar as alegadas
actividades contra a campanha de Trump em 2016, designadamente a suposta
"interferência russa". Durante a sua conferência de
imprensa, o presidente afirmou que não discorda da
acusação lançada por Limbaugh contra Messonier. Trump
envolveu ainda os chefes das bancadas democráticas no Congresso, em
especial o da minoria no Senado, Chuck Schumer, no leque de
conspirações.
Donald Trump sentiu-se ainda ofendido pelo Dr. Anthony Fauci, de 79 anos, chefe
do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID), por ter
afirmado que o número de infectados nos Estados Unidos não iria
parar nos 59 confirmados até então. Trump não gosta de ser
contrariado, em público ou em privado, mesmo quando está errado.
A maior calamidade da conferência de imprensa foi, porém, a
notícia da nomeação de Pence um céptico em
relação a tudo quanto diz respeito à ciência, um
fanático adepto do dogma do "criacionismo". Cabe-lhe,
então, filtrar todas as informações sobre o
coronavírus emanadas pelas agências de saúde pública
como o CDC, o NIAID, o Departamento de Saúde e Serviços
Humanitários ou o Serviço de Saúde Pública dos
Estados Unidos.
Embora não haja provas de que o governo chinês, como é
alegado por Cotton e Bannon, tenha sido, de alguma forma, responsável
pelo coronavírus, há bastantes exemplos de que, pelo
contrário, o governo dos Estados Unidos esteve envolvido na
produção e transmissão de agentes biológicos e
químicos durante e depois da guerra fria. Estes dados, porém,
nunca foram preocupação para Cotton, Pence e outras pessoas da
mesma espécie.
Em 1997, um investigador da Universidade Estadual de Iowa extraiu, com
êxito, material genético dos restos mortais de uma mulher obesa de
trinta e alguns anos que morreu em consequência da gripe espanhola no
Alasca, em 1918. Juntamente com ela, e no espaço de uma semana,
faleceram cerca de 85% dos membros da Missão Brevig (chamada
Missão Teller em 1918). A pandemia de gripe espanhola matou pelo menos
50 milhões de pessoas em todo o mundo.
Trabalhos de Drs. Frankensteins
Uma vez que o material genético foi obtido dos pulmões,
baço, fígado e coração da mulher inuit, os
cientistas recriaram o vírus da gripe espanhola de 1918 num
laboratório financiado pelo governo dos Estados Unidos. Os
órgãos da mulher foram cortados em cubos de 2,5
centímetros e enviados para o Instituto de Patologia das Forças
Armadas em Rockville, Maryland, onde o vírus foi identificado e
reactivado. Não se tratou, aliás, da única
diligência do género: equipas de cientistas norte-americanos
deslocaram-se a Longyearbyen, na remota ilha ártica norueguesa de
Svalbard, para abrir as campas de mineiros que foram vítimas da gripe
espanhola em 1918.
Talvez o senador Cotton e Steve Bannon não precisem mais do que procurar
nos laboratórios do governo dos Estados Unidos em Maryland, incluindo o
Instituto de Investigação Médica do Exército dos
Estados Unidos em Fort Detrick, para encontrar o verdadeiro Dr. Frankenstein
que brinca com perigosos organismos patogénicos.
Parte do material genético da gripe espanhola foi supostamente
reproduzido para criar sinteticamente o que é hoje conhecido como
vírus A/H1N1 ou, segundo designação do CDC, "a nova
gripe". A gripe A/N1H1, que contém material genético de duas
linhagens de gripe suína, duas linhagens de gripe humana e uma
única linhagem de gripe das aves matou pelo menos 579 mil pessoas quando
a pandemia varreu o mundo em 2009.
É importante que, ao lidar com pandemias, o governo transmita
absolutamente a verdade à população e aos meios de
comunicação social. Durante o surto de "nova gripe" em
2009, o Centro Nacional de Contacto do CDC funcionou como "a única
fonte fiável de informações precisas, oportunas,
consistentes e de base científica para o público em geral,
prestadores de serviços de saúde e parceiros de saúde
pública". Deixou de ser assim com a Administração
Trump e o coronavírus. Michael Pence, um vice-presidente que acredita
que a Terra tem apenas seis mil anos, que os dinossauros coexistiram com os
seres humanos, que a homossexualidade é passível de tratamento
médico, é o árbitro que decide quais as
informações médicas sobre o COVID-19 a transmitir à
população. Pence é quem estabelece o que deve ser do
conhecimento de todos: as notícias sobre o coronavírus devem ser
"boas", não podem afectar os mercados bolsistas e a economia
dos Estados Unidos, que já estão em colapso. Os Estados Unidos
são governados por um regime que se orienta por
superstições, mitos e magia.
03/Março/2020
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
Strategic Culture Foundation
e a tradução em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=662
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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