Desperdício, fraude e abuso:
mais um dia no Pentágono
Quando era adolescente, um aprendiz de sindicalista, dois dos meus livros
favoritos foram
Labor's Untold Story
e
History of the Great American Fortunes
. Recomendo-os a quaisquer leitores desejosos de rever a nossa própria
história como povo trabalhador aqui nos Estados Unidos. Ambos
são monumentos à educação da classe
operária. Naquele tempo, antigos sindicalistas emprestaram-me
exemplares muito gastos pelo uso, considerando que um jovem militante como eu
podia beneficiar do seu conteúdo. Estou certo de que beneficiei.
Foi nas páginas destes dois volume que primeiro descobri o que ao
longo da história americana incontáveis homens de
negócio sem escrúpulos fizeram fortunas instantâneas e
muitas vezes vultosas através da fraude e ludibrio do nosso governo.
Muito frequentemente, isto significava as nossas forças armadas.
Remontando aos 1800, foram feitos milhões com a venda de comida
não comestível para o Exército, entregando navios à
Marinha que não estavam aptos a navegar, e vendendo armas e
munições de alto preço que eram de qualidade tão
fraca a ponto de ser inútil, e mesmo perigosa para os soldados em campo.
Toda espécie de fraude imaginável foi perpetrada por estes
Barões Ladrões incipientes, todos os quais aproveitavam-se
sistematicamente de quaisquer conflitos em andamento ou a aproximar-se como
meios para ficarem ricos às custas dos contribuintes.
Os últimos 100 assistiram ao crescimento exponencial deste
fenómeno. Os preços exagerados e o roubo muitas vezes é
feito de modo mais profissional do que no passado, mas o preço pago pelo
nosso governo é maior do que nunca. Mas, dito isto, nada poderia nos
ter preparado para o filão cleptomaníaco que se seguiu ao 11 de
Setembro e a invasão do Iraque. Pela dimensão absoluta e
abrangência da fraude e do saqueio, nenhum outro momento na
história da humanidade pode ser comparado ao que hoje a acontecer. Os
maquinadores de piratas dos anos passado eram operadores de pequena escala
pelos padrões de hoje. Todo restaurante caro em torno do
Pentágono está pejado diariamente de operadores a pagarem os
Barões Ladrões de hoje, todos a procurarem conseguir contratos
lucrativos e sem fazer coisa alguma junto aos seus convidados das equipes de
compradores das forças armadas.
Trabalhar aqui em Washington, D.C. proporcionou-me uma poltrona avançada
para assistir ao crime do roubo do Pentágono. Além do pessoal de
serviço uniformizado das nossas forças armadas agora
bastante visível devido ao grande número que vai e vem aqui na
área do distrito podemos verificar o crescimento constante de
toda espécie concebível de empreiteiros militares, fornecedores
de serviços, representantes, vendedores de hardware e software,
distribuidores de equipamento, consultores, etc. Nunca na história do
mundo uma agência militar o nosso Pentágono teve
tanto dinheiro para gastar num espaço de tempo tão curto.
É o que parece este momento de "dinheiro para nada", tenho a
certeza.
Minhas observações e repugnância em relação a
isto multiplicaram-se quando em Novembro último abri as páginas
da publicação da indústria da defesa
Defense News.
O seu
número de 6 de Novembro continha um editorial intitulado
"Financiamento da defesa americano Orçamento? Que
orçamento?". Esta jóia vergastava os republicanos pelos
seus gastos impulsivos na defesa, e por acicatarem as forças armadas a
irem ao Congresso a fim de proporem grandes aumentos em financiamentos
requeridos que não fossem senão "WAGs". É assim
que os militares denominam os
"Palpites selvagens" (Wild Ass Guesses").
Os editores desta revista de negócios militares pareciam entender que,
se o saque, o roubo e a simples negligência nos gastos do
Pentágono se tornassem mais descontrolados, o comboio das benesses em
breve chegaria a um fim drástico. Os elementos sóbrios do
negócio ficam nervosos quando as suas boas coisas ficam um tanto
demasiado boas por demasiado tempo e começam a publicar manchetes e a
chamar a atenção dos políticos.
Contudo, aquele editorial no
Defense News
não era senão a ponta
de um iceberg. Quando o Inspector Geral (IG) do Pentágono Thomas Gimble
testemunhou perante o Subcomité de Apoio à Prontidão e
Gestão do Comité das Forças Armadas do Senado, em 17 de
Janeiro, a tampa explodiu. Gimble está a "actuar" como IG
porque o seu antecessor libertou-se a fim de ir trabalhar para o Prince Group,
o qual tem como uma das suas subsidiárias a Blackwater USA, uma
empreiteira de segurança privada que faz negócios com o
Pentágono no Iraque e alhures. A actuar como IG, Gimble despejou um
espantoso relatório sobre aquele painel do Senado. As audiências
habituais Senado são muito aborrecedoras, mas posso assegurar que
durante esta ninguém dormiu. E recordo que o IG é a pessoa
dentro da casa que é suposta salvaguardar ou pelo menos tentar
a integridade e honestidade da agência, sua equipa e seus
processos.
Aqui estão algumas das pepitas reveladas por Gimble na
audição, a actuar como IG, sem qualquer ordenamento: o
Pentágono tem uma chuva de tanto dinheiro que não pode
gastá-lo bastante rápido. De facto, o Departamento da Defesa
montou um esquema em que outras agências federais agora estão a
gastar vastas somas de dinheiro apropriadas ao Pentágono. De facto,
milhares de milhões de dólares em dezenas de milhares de
contratos. As leis que regem os processos de compra são habitualmente
ignoradas. A competição, os limites de preços e a
supervisão foram "abandonados". A auditoria de contratos e
empreiteiros e tanto não existente como demasiado lenta e superficial
para ser eficaz. O Pentágono tem tanto dinheiro deixado por gastar no
fim de ano que cozinhou ainda um outro esquema para esconder milhares de
milhões de dólares em outras agências federais. Considero
como meu caso favorito o de um recruta contratado da Marinha a quem foi
permitido como principiante autorizar contratos com um valor combinado
máximo de US$ 5 milhões. Ele gastou US$ 135 milhões.
Viram o quadro?
Nossos amigos da
Defense News
publicaram uma reportagem acerca desta
audição e do testemunho explosivo do IG Gimble:
"Pentagon IG: Procurement Laws Are Routinely Broken: Blames DoD for Hiring Other Agencies To Help Spend Funds"
(22/Janeiro/2006). Ver no sítio web do
Defense News.
Se quiser examinar o relatório completo do IG Gimble,
pode apreciá-lo online em
www.dodig.osd.mil/Audit/reports/FY07/07-044.pdf
.
Tais peripécias fora de controle estão a transpirar do
Pentágono, bem ali na Virgínia do Norte, e à vista do
Capitólio americano. Penso que estamos todos plenamente conscientes da
situação igualmente má ou mesmo pior
respeitante ao desperdício, fraude e roubo que tem sido desenfreada
desde que a primeira bota pisou o solo do Iraque quatro anos atrás. O
custo "legítimo" de manter a mais maciça máquina
militar do mundo é estarrecedor. Os custos exorbitantes de uma aventura
ilegal como o Iraque aumenta esta despesa exponencialmente. Finalmente, quando
companhias orientadas para o lucro ordenham o sistema corrupto e falido de
vendas e contratação com extensão que é evidente,
então o orçamento militar assume um crescimento maligno e
parasítico no corpo nacional. Nenhum país na história do
mundo alguma vez aguentou tais pressões por muito tempo.
Esta fraude e roubo tão colossal deveria aumentar nossa
resolução de por fim à guerra do Iraque tão
rapidamente quanto possível. Deveria servir como aviso à nossa
nova maioria do Partido Democrata no Congresso de que deve actuar quanto a
isto. Cortes vastos no orçamento do Pentágono estão na
ordem do dia, de facto são exigidos. Uma auditoria completa das
despesas, desde o topo até à base, bem como daqueles que fazem as
despesas e daqueles que embolsam os cheques a seguir. Terceiro, é
óbvio que um tribunal federal especial precisaria ser improvisado a fim
de processar provavelmente várias dezenas de milhares de criminosos
tanto do Pentágono como do sector privado que engendraram
este desrespeito maciço pela lei e o consequente roubo dos fundos
governamentais dos EUA. Isto deve seguir até o topo no organograma de
comando, ao demitido secretário da Defesa Donald Rumsfeld, ao
vice-presidente Dick Cheney e ao presidente George W. Bush.
Contudo, não espero que nada disto aconteça. Mas, para
acrescentar algo prático ao meu conselho, tente descarregar este artigo
para principiantes. Açoite-o então da próxima vez que
conversar com um político Republicano ou Democrata que comece com o
"Não podemos permitir-nos o sistema nacional de cuidados de
saúde" ou "Todos têm de sacrificar-se um pouco".
Balelas. Temos todo o dinheiro para consertar os nossos problemas. O que nos
falta são prioridades civilizadas e sãs, a vontade
política de implementá-las e a motivação para
processar aqueles rufiões de colarinho branco que estão a acartar
para longe o dinheiro público com camiões de carga.
Sentir-se-á melhor se fizer isto, mesmo que sejamos conduzidos a um
asilo por causa do Pentágono.
[*]
Director de Acção Política do
United Electrical Workers Union (UE)
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/townsend270107.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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