Algumas reflexões sobre o G-20

por Zoltan Zigedy

Manifestação na cimeira do G20, em Pittsburgh. Apesar de o G-20 ter sido rejeitado por outras cidades, os responsáveis da cidade e do município desta metrópole da Pensilvânia Ocidental saltaram sobre a oportunidade de receber 19 líderes nacionais para o espectáculo público de determinar o destino do mundo. Alvo desde há muito das forças democráticas, as reuniões do G-20 revelam o elitismo e a arrogância das nações mais poderosas de uma forma que apela ao protesto. Com a exibição do verosímil mas enviesado mecanismo mais democrático – as Nações Unidas – as G-reuniões enviam a mensagem clara e desavergonhada de que os países mais ricos e as suas classes dominantes estão no pleno controle dos negócios mundiais. Apesar de aquilo que é cumprido seja pouco mais do que beber vinho, banquetes, assinaturas de documentos determinados previamente e vagas declarações, tudo isto é feito com cerimónia quase feudal e uma pompa ostensiva.

As elites de Pittsburgh viram este circo como uma oportunidade para exibir a "nova" Pittsburgh – uma reluzente aldeia Potemkin que escondia as vizinhanças devastadas e abandonadas deste cidade que outrora foi um gigante industrial. A Pittsburgh de hoje – fora da vista dos líderes mundiais – é uma cidade despovoada, de baixo rendimento, envelhecida, sobrecarregada por décadas de acumulação de dívida devido a esquemas de desenvolvimento mal concebidos mas altamente lucrativos para os seus promotores. A base fiscal foi esvaziada a fim de reter corporações gigantes chantagistas e atrair novos negócios que raramente vêm. Os empregos antigamente bem pagos na manufactura e na mineração desapareceram, só para serem substituídos por emprego no sector de serviços com baixos pagamentos e faltos de benefícios. Décadas de liderança política rigidamente casada com a obediência corporativa deixaram a região com uma infraestrutura rota, serviços públicos decrépitos e pobreza paralisante. Na verdade, Pittsburgh é uma lição da destrutividade da governação corporativa sem peias. A perda de empregos industriais bem pagos foi devastadora sobretudo para a comunidade afro-americana: a cidade é uma das mais segregadas nos EUA, com a pobreza afro-americana, a mortalidade infantil, o crime e a pobreza abjecta a rivalizarem com qualquer cidade da América.

A cidade não poupou despesas para abrilhantar os edifícios, ruas e espaços públicos do centro onde os líderes mundiais ou os media pudessem lançar um olhar crítico. Mas, mais do que tudo, Pittsburgh comprometeu-se com uma demonstração de força sem precedentes para confrontar qualquer um inclinado a estragar a festa: cerca de 20 milhões de dólares e 6.500 polícias (a maior parte importados) e a Guarda Nacional. Apesar das vantagens da segurança natural do chamado "Triângulo Dourado" – uma área confinada na convergência de dois rios – os opressivos arranjos de segurança garantiram que o centro de Pittsburgh fosse essencialmente uma cidade fantasma durante dois dias e meio. Os temores gerados pelos media histéricos (manifestantes atirarão sacos de excremento, armas de mão, assaltos, etc, etc) juntamente com as barreiras, pontos de estrangulamento e pontos de controle de segurança garantiram virtualmente que nenhum visitante lançasse um olho sobre os aborígenes dependentes de empregos no centro da cidade. Os habitantes de Pittsburgh tiveram uma dura experimentação do que deve ser a vida em lugares como Bagdad ou Cabul.

Os acontecimentos da semana arrancaram com um comício por emprego e uma marcha desde da Igreja Baptista Monumental no Distrito Hill, predominantemente afro-americano, até o célebre Freedom Corner, um ponto de referência do activismo dos direitos civis. Cerca de cinco centenas de manifestantes entoaram exigências por justiça social e racial com um forte tom anti-capitalista, provavelmente as mais militantes e centradas da semana. Tal como este comício, outros eventos efectuados na Igreja reflectiram as mais vasta diversidade de todos os muitos ocorridos durante a semana. O comício desfrutou dos apoios de dois sindicatos, a Steelworker's Union (USW) e a United Electrical Workers Union (UE), cujos representantes falaram na conclusão do comício juntamente com outros líderes sindicais e o indomável senador do estado da Pensilvânia, Jim Ferlo, que castigou o presidente Obama pelo seu desdenhoso desprezo para com o movimento anti-G-20.

A presença da polícia no comício foi só uma antevisão das tácticas de tropas de assalto (Storm troops) exibidas posteriormente naquela semana após a chegada dos "hóspedes". A polícia fez um registo fotográfico provocativo e meticuloso dos participantes e líderes, uma prática que acompanhou todos os eventos de massa que se seguiram. O pittsburghenses podem ter certeza de que estas fotos e outros relatos e registos serão retidos e investigados. Se a cidade não tinha um "Esquadrão Vermelho" antes, ela tem um agora.

AS AUTORIDADES

Dirigido pelo Serviço Secreto, o aparelho de segurança local exacerbou tensões ao negar permissões para reunir e manifestar até ao último minutos e apenas com a interferência legal da ACLU (American Civil Liberties Union). Eles esperavam claramente enfraquecer a participação e impedir o planeamento. A enorme presença da polícia recebeu treino modelado de acordo com tácticas de contra-insurgência com unidades organizadas em grupos com dimensão de pelotão equipados com armadura em todo o corpo e armados com rifles de assalto e espingardas. Mantiveram uma constante presença de helicópteros nos céus da cidade sitiada. Antes dos comícios reais, a polícia efectuou raids sobre lugares de reunião da cidade tão inócuos como jardins públicos. Visitámos um desses jardins, colocado sob vigilância constante por uma câmara instalada pouco antes da reunião do G-20.

Os seus planos de segurança ficaram evidentes no decorrer da semana: eles localizavam qualquer reunião, cercavam os participantes e ordenavam a dispersão à mais leve provocação. Esta táctica garantia confusão e confrontação. Repetidamente, os participantes informavam que não podiam sair quando eram dadas ordens de dispersão.

Canhão sónico LRAD. As autoridades introduziram uma nova arma em Pittsburgh: um Dispositivo acústico de longo alcance ( Long Range Acoustic Device, LRAD ) que envia um som estridente de 150 decibéis para cima de multidões, deixando as vítimas confusas e desorientadas. Esta arma, utilizada pelos EUA no Iraque, é ironicamente o mesmo dispositivo empregado contra a Embaixada Brasileira para desalojar o presidente eleito, Zelaya, deposto por um golpe militar. Agentes de repressão pensam da mesma forma.

O FANTASMA DE ALEXANDER BERKMAN [1]

Tal como os seus antecessores Yippie e Weatherman [2] , os anarquistas eram o espectro que assombrava a Pittsburgh respeitável. Durante meses os media, especialmente a rádio local, fizeram todos os esforços para combinar anarquistas com terroristas, retratando-os como lançadores de fezes, niilistas que partem vidraças e escondem-se em edifícios abandonados a aguardarem pacientemente o momento certo para atacar. Durante muitos anos veteranos da esquerda encontraram em manifestações os vestidos de negro, juventude com bandanas. Para a minha mente confessadamente saturada, muitos, se não a maior parte, são os filhos e filhas dos estratos superiores da classe média a brincarem de revolução. Tal como os seus antecessores, eles recusam-se a aceitar a disciplina do marxista ou a luta conduzida pelo trabalho. E tal como os seus antecessores, alguns amadurecerão politicamente e alguns mudarão de posição – desapontados com o atraso das massas – para tomarem os seus lugares na hierarquia capitalista. No entanto, eles exibem uma figura anarquicamente revolucionária e têm um compreensível apelo junto a alguma juventude irada.

Em Pittsburgh, eles planearam uma marcha não permitida na quinta-feira para tumultuar o G-20. Reunidos num parque de Pittsburgh, várias centenas de anarquistas e simpatizantes atraíram uma força da polícia ainda maior para o espectáculo preparado para os media. Interrompendo a marcha, a policia declarou a reunião ilegal e exigiu que a multidão dispersasse. De imediato, a arma da LRAD foi utilizada (alguns dizem que pela primeira vez nos EUA), empurrando a multidão a fim de reorganizar-se uns poucos quarteirões mais adiante, só para acabarem gaseados e dispersos. A polícia, apoiada pelo helicóptero de vigilância, tentou encurralar quaisquer grupos remanescentes cercando-os com forças maciças. Os tácticos da polícia moviam unidades móveis num jogo de xadrez para bloquear tanto o avanço como a retirada de quaisquer grupos, tácticas que virtualmente garantiam confrontação e uma desculpa para efectuar prisões. Foram lançadas pedras, algumas janelas partidas e construídas barricadas com latas de lixo, mas a resistência não aguentava o gás e as balas de borracha. A confrontação servida para a TV exauriu ambos os lados ao anoitecer, com pouco mais danos e baixas do que a consequência de uma vitória do clube de futebol Pittsburgh Steeler. No entanto, os residentes em vários bairros de Pittsburgh obtiveram uma amostra do que as autoridades têm em armazém para qualquer movimento de resistência vigorosa.

O plano de acção das forças de segurança era calculado e provocativo e a vista de manobras de tropas de assalto maciças deixou muitos participantes alarmados. O que eles encaravam como brincadeira de crianças foi recebido com enorme força repressiva. A precipitada utilização de gás nas ruas e passagens estreitas das vizinhanças de Pittsburgh perturbou muitos. Será esta a cara da Pittsburgh do futuro? É o cúmulo da loucura pensar que a táctica policial simplesmente retrocederá ao habitual após este exercício repressivo. A pasta de dentes está fora da bisnaga.

A BATALHA PELA UNIVERSIDADE

Os planeadores do G-20 organizaram poucos eventos brilhantes do lado de fora da "Green Zone" de alta segurança construída no centro. Um deles foi uma recepção próximo à Universidade de Pittsburgh. Sendo no essencial um show estilo Óscar para as celebridades do G-20 e os media, os organizadores não tinham intenção de permitir pessoas comuns que normalmente são atraídos por tais extravagâncias. Estudantes universitários – desocupados durante dois dias devido ao G-20 – muito naturalmente reuniram-se a fim de ter um vislumbre dos respeitáveis dignitários. Mas a policia – endurecida pela escaramuça da tarde com os anarquistas – não permitiu nada disso, pressionando os estudantes para longe do evento e exigindo que se dispersassem. A mão pesada da polícia encontrou alguma resistência, mas isto resultou sobretudo em pânico, medo e algumas prisões.

Muitos estudantes sem dúvida – ao verem pela primeira vez a cara da selvajaria policial – motivaram-se para aderir à marcha de sexta-feira em solidariedade com aqueles que foram maltratados e presos quinta-feira à noite.

Após o encerramento do G-20, estudantes reuniram-se outra vez próximo ao sítio da acção de quinta-feira e foram mais uma vez atacados pela polícia. Para a maior parte, os 400 estudantes reunidos sexta-feira à noite estavam numa actividade mais social do que política. No entanto, foram sujeitos à arma LRAD, bastões e balas de borracha. O violento assalto policial resultou em 110 prisões, incluindo membros dos media. A polícia não podia resistir a mais um ataque contra a civilidade e as garantias constitucionais.

OS MEDIA

O sensacionalismo atrai os media tal como uma mariposa é atraída pela luz. Os media locais compraram totalmente o esforço oficial de relações públicas, bombardeando as pessoas com um catálogo de benefícios que certamente desceriam sobre a cidade com a hospedagem do G-20. Os media de Pittsburgh sempre ignoraram os relatórios críticos do declínio da cidade, exibindo promessas orientadas pelo lucro de urbanizadores e consultores que conduziram a região a um endividamento sem precedentes. As necessidades dos bairros, os serviços públicos, as minorias postas de lado e os empregos bem pagos sempre foram ofuscados pelas grandiosas ressurreições urbanas impostas pelos ricos da cidade e os seus apaniguados políticos. A velha herança de umas poucas famílias dominantes, como os Mellons e os Scaifes, a dizerem ao povo como pensar nunca foi completamente perdida.

Os media de Pittsburgh insistiram incessantemente sobre as necessidades de segurança dos líderes do mundo, demonizando a chegada de anarquistas e o potencial para terrorismo. Durante a semana de acção política, os media banalizaram os acontecimentos da resistência, seleccionando os mais obscuros e as exigências mais excêntricas numa tentativa grosseira de mostrar todos os participantes como marginais e frívolos. Nas reuniões, mostravam um interesse e fascinação particular com os activistas mascarados, com o desejo de pintar os milhares comprometidos a defender pacificamente um conjunto de questões sérias como inclinados a actos odiosos de vandalismo e escândalo.

Num exemplo raro, The Pittsburgh Post-Gazette rompeu a muralha da hipocrisia, descrevendo razoavelmente, de forma completa e com algum escândalo o assalto da polícia contra estudantes da Universidade de Pittsburgh sexta-feira à noite. Não há dúvida de que fez isso porque a polícia de tumultos assaltou e prendeu um dos seus: um jovem repórter. Isso fez toda a diferença.

TRABALHO

Leo Gerard, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Aço, parecia estar por toda a parte, falando em muitas ocasiões e com paixão acerca dos pecados do G-20. O endosso do sindicato aos eventos, incluindo as marchas de abertura e encerramento, foi significativo e louvável. Alguns outros sindicatos deram notáveis contribuições; a maior parte não se envolveu. Mas havia pouca participação de massa dos trabalhadores nos acontecimentos da semana. Numa cidade e região famosa pela sua concentração do trabalho organizado, a participação dos operários de base teria feito uma diferença qualitativa no impacto dos protestos do G-20. Com milhares de membros e reformados na área, é difícil acreditar que tivessem sido feitos quaisquer grandes esforços para mobilizar membros no apoio a estes eventos.

O vasto fosso entre o endosso oficial e a participação dos membros aponta para o longo período de dependência do trabalho em relação à estratégia eleitoral e à fidelidade ao Partido Democrata. A maquinaria da acção de massa tornou-se enferrujada pelo desuso e em necessidade desesperada de reparação. Os corpos e vozes dos trabalhadores de base estavam dolorosamente ausentes do G-20. Sem alguma distância oficial entre o movimento trabalhista e o Partido Democrata, os membros estão compreensivelmente relutantes em protestar num evento patrocinado pelo presidente Obama. É desnecessário dizer que, com poucas excepções, os líderes do Partido Democrata não foram encontrados em parte alguma entre as pessoas anti-G-20.

O GRANDE FINAL

A marcha de encerramento de sexta-feira trouxe milhares de pessoas às ruas de Pittsburgh numa demonstração de resistência nunca vista nesta cidade desde o apogeu das actividade anti-Guerra do Vietname. Oito, talvez nove, milhares de manifestantes marcharam para o coração de Pittsburgh para ouvir oradores posicionados no Edifício City-County, antes de marchar para o lado Norte da cidade. Este final permitiu que a manifestação juntasse todas as causas defendidas ao longo dos seis dias de protesto, numa celebração pacífica e alegre de discordância para com a agenda do G-20.

Graças à energia e determinação do patrocinador do evento – The Thomas Merton Center, desde há muito um catalisador pela justiça social – e ao seu infatigável organizador – Pete Shell – a marcha de sexta-feira foi um grande êxito. Apesar da presença mais uma vez intimidatória da polícia, não houve choques (abundavam rumores de que a polícia planeava encenar uma provocação, uma suspeita reforçada pela encenação que ela montou e de uma massa de polícias a tumultuarem junto ao Edifício City-County).

Na marcha final e ao longo da semana, P. Shell fez um esforço consciente para centrar os eventos em torno de questões de paz, igualdade e justiça económica, uma tarefa dificultada pelas diversas e por vezes conflitantes agendas dos muitos participantes. A falta de foco tem prejudicado todos os G-protestos e, embora não ameace a unidade, embotou a crítica das essência não democrática e amistosa para com as corporações do G-20.

O desafio dos manifestantes – "Isto é o que realmente parece democracia" – posiciona-se em agudo contraste com o apelo às armas dos organizadores do G-20. Aqueles que participaram na oposição podem apontar a enorme reunião de ferramentas de repressão e dizer com igual vigor: "Isto é o que realmente parece fascismo".

Os melhores planos estabelecidos pelas agências de segurança não conseguiram amedrontar milhares de participantes nas actividades do G-20. Mas muitos mais poderia ser reunido se pudéssemos encontrar um meio de trazer os trabalhadores de base para as ruas. Muitos mais adeririam se pudéssemos integrar melhor os afro-americanos, hispânicos e outras minorias e as suas questões na luta.

Tradicionalmente, isto tem sido o papel da esquerda – especialmente da esquerda marxista – fazer estas conexões, trazer clareza e foco para as questões. Mas por algum tempo a esquerda tem estado dividida entre sectários estreitos e tímidos apologistas de um regime político e económico retrógrado.

[1] Alexander Berckman (1870-1936): activista do movimento anarquista nos EUA.
[2] Weatherman: organização progressista dos EUA que combateu a guerra do Vietname. O seu nome provém de um verso da canção "Subterranean Homesick Blues", de Bob Dylan, que diz: "Você não precisa de um meteorologista para saber para que lado sopra o vento" ("You don't need a weatherman to know which way the wind blows").


O original encontra-se em http://mltoday.com/en/some-reflections-on-the-g-20-687.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Out/09