Será que Trump pode cumprir?
por Paul Craig Roberts
Minha visão de Trump é condicional e aguarda evidências.
Fico encorajado pela oposição dos Um Porcento a Trump, ou
então acabámos de experimentar a maior patranha da
história. Na verdade, uma patranha inútil, quando o Establishment
tinha Hillary como sua candidata.
As ordens executivas de Trump não confirmam o argumento de que ele
está a actuar para os Um Porcento. Trump vetou o TPP tão desejado
pelas corporações globais. Ele está a tentar interromper a
imigração em massa que as corporações utilizam para
reduzir níveis salariais internos. Comprometeu-se também a
normalizar relações com a Rússia, para grande desconforto
dos neoconservadores e do complexo militar/segurança.
Quanto a Mnuchin, ele deixou a Goldman Sachs em 2002, o mesmo ano em que Nomi
Prins saiu da Goldman Sachs. Isso foi há 14 anos atrás. Sabemos
perfeitamente que Nomi, um antigo director administrativo, não é
um operacional para a Goldman Sachs, de modo que a minha posição
é esperar e ver o que Mnuchin faz antes de declararmos que é um
agente da Goldman Sachs. Para uma visão diferente ver
Nomi Prins na secção de convidados
deste sítio web.
Quanto a isto penso assim: Se Trump for sincero, e o Establishment Dominante
parece pensar que ele é, acerca de limpar um ninho de foras da lei, que
melhor ajuda poderia ter ele do que um dos fora da lei?
A mudança a partir do topo exige pessoas com meios duros. Quaisquer
outras seriam espezinhadas.
Minha posição é aguardar pelas provas. Durante anos meus
leitores disseram que precisavam de alguma esperança. O ataque de Trump
ao Establishment dominante dá-lhes esperança. Por que afastar
esta esperança prematuramente?
Desde o princípio minha preocupação tem sido o facto de
que Trump não tem experiência nos debates de política
económica e política externa. Ele não conhecia as
questões ou os actores. Mas ele sabe duas coisas importantes: a classe
média e a trabalhadora são flageladas e o conflito com a
Rússia poderia resultar na guerra termonuclear. Minha opinião
é que é de apoiá-lo sobre estas duas questões, as
mais importantes de todas.
Minha preocupação é que Trump já se tenha desviado
quanto a melhores relações com a Rússia. Trump teve o bom
senso de falar com o presidente Putin, da Rússia, durante a sua primeira
semana no gabinete. As informações são que a
conversação de uma hora decorreu bem. Contudo, a
informação da administração Trump é que as
sanções não foram mencionadas e que Trump está a
considerar ligar a remoção das sanções à
redução de armas nucleares.
Claramente, Trump precisa de conselheiros mais perspicazes do que os actuais.
Confrontado com 28 países da NATO, a Rússia, cuja
população é apequenada diante deste conjunto de
países e armamentos, confia nas suas armas nucleares para enfrentar a
ameaça potencial. Durante o regime Obama, a ameaça à
Rússia deve ter-lhe parecido muito real, pois a
demonização da Rússia e do seu presidente inteiramente
baseada em mentiras óbvias e atingiu níveis de
provocação raramente vistos na história sem conduzir
à guerra.
Se eu tivesse sido conselheiro de Trump, teria insistido em que a primeira
coisa que Trump diria a Putin é que "as sanções
são história [passada] e peço desculpa pelo insulto
baseado nas mentiras fabricadas do meu antecessor".
Isto é o que era necessário. Uma vez restaurada a
confiança, então a questão da redução de
armas nucleares pode ser levantada sem tornar o governo russo preocupado em que
os americanos dúplices estejam a preparar-se para o ataque.
Se você fosse russo, se fosse membro do governo russo, se fosse
presidente da Rússia, se tivesse experimentado um golpe americano que
derrubou o governo eleito da Ucrânia, uma província que fez parte
da Rússia durante 300 anos, se tivesse experimentado um ataque inspirado
por americanos a residentes russos e a forças de
manutenção da paz russas na Ossécia do Sul, há
muito uma província da Rússia, que provocou a
intervenção das forças armadas russas, uma
intervenção denunciada pelo governo dos EUA como
"agressão russa", confiaria nos Estados Unidos? Só se
você fosse um idiota rematado.
Trump precisa de conselheiros suficientemente instruídos para contar-lhe
acerca da situação que ele se comprometeu a melhorar.
Quem são estes conselheiros?
Considere-se agora a "proibição muçulmana". Os
refugiados muçulmanos são um problema para os EUA e a Europa
porque os EUA e seus fantoches da NATO bombardearam um grande número de
países muçulmanos inteiramente na base de mentiras. Alguém
pode ter pensado que com toda a sua experiência de guerra os
países ocidentais estariam conscientes de que guerras produzem
refugiados. Mas aparentemente não estão.
O caminho mais fácil e mais certo para tratar do problema de refugiados
muçulmanos é parar os bombardeamentos que produzem refugiados.
Aparentemente, esta solução está para além do
alcance da administração Trump. De acordo com o noticiário
e considerando o status presstituído das
organizações de notícias nunca se sabe a nova
administração Trump autorizou um ataque SEAL [tropas especiais]
no Iémen que assassinou uma garota de oito anos bem como um certo
número de mulheres e crianças. Tanto quanto posso averiguar,
nenhuma das mulheres que marchou em oposição à pela
administração Trump opôs-se à
continuação da política do regime Bush/Obama de assassinar
muçulmanos em nome de uma falsa "guerra ao terror".
O calcanhar de Aquiles de Trump é sua crença na
"ameaça muçulmana", uma ameaça orquestrada e
cozinhada pelos neoconservadores. Se Trump quiser derrotar o ISIS, tudo o que
ele precisa fazer é impedir o governo dos EUA e a CIA de financiarem o
ISIS. O ISIS é uma criação de Washington, utilizada para
derrubar a Líbia e enviada à Síria para derrubar Assad
até os russos intervirem.
Alguém precisa ter suficiente conhecimento geopolítico para
contar a Trump que ele não pode simultaneamente reparar as
relações com a Rússia e ressuscitar o conflito com o
Irão e ameaçar a China.
Como eu temia, Trump não tem nenhuma ideia de quem nomear a fim de
alcançar a sua agenda.
Agora vamos voltar aos críticos de Trump: a Política de
Identidade, isto é, a explicação da história
ocidental como vitimização de toda a gente por machos
heterossexuais brancos. Falta legitimidade aos ataques a Trump e toda a gente
vê isso excepto aqueles mergulhados na política da
vitimização. As mesmas pessoas que marcham contra Trump e
condenam sua proibição muçulmana não marcham contra
as guerras que produzem os refugiados e imigrantes muçulmanos. Os
oponentes de Trump estão na posição ilógica de
apoiar a "guerra ao terror" e a narrativa do 11/Set em que se baseia
mas objectar à proibição à entrada de
"muçulmanos terroristas" nos EUA. Se muçulmanos
são terroristas, como afirma a narrativa de Bush/Obama, é
totalmente irresponsável admitir dentro dos EUA muçulmanos
prejudicados pelos ataques de Washington aos seus países e que podem tem
ideias de vingança.
Os liberais/progressistas/esquerda abandonaram a classe trabalhadora há
muito tempo. A consequência das suas queixas ilegítimas
será agregar todos os dissidentes dentro da sua categoria
ilegítima. Assim os que dizem a verdade juntamente com os contadores de
ficções serão bloqueados. O público não
será capaz de diferenciar entre os ataques orquestrados a Trump e o que
dizem a verdade.
Minha conclusão é que a estupidez da Política de
Identidade, ao desacreditar a dissidência, fortalecerá os piores
elementos da extrema-direita. Se a Goldman Sachs também estiver a operar
contra nós, como acredita Nomi Prins, então os EUA passaram
à história.
31/Janeiro/2017
O original encontra-se em
www.paulcraigroberts.org/2017/01/31/can-trump-deliver-paul-craig-roberts/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|