O homem invisível: o novo consultor de segurança nacional de Trump

por Martin Sieff [*]

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Um táxi com nenhuma pessoa chegou à Casa Branca e Robert O'Brien, o mais recente conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, saiu.

A decisão do presidente Donald Trump de nomear O'Brien como seu quarto consultor de segurança nacional para substituir John Bolton, desprezível, desacreditado e prostrado, completamente desafortunado, já gerou infindáveis megabytes de debate confuso.

O'Brien, disseram-nos, é um linha-dura. Não: ele é um pragmático de bom carácter. É um negociador. Irá suavizar e melhorar as relações com a Rússia e o Irão. Mas ele publicou um livro totalmente esquecível que era violentamente hostil aos líderes da Rússia e do Irão.

O'Brien, disseram-nos, quer concentrar-se em se opor à ascensão da China. Mas ele, descuidadamente, também gera hostilidade em relação à maior parte das outras grandes nações. Ele é um advogado. Mas a sua carreira primária foi como oficial do Exército dos EUA.

O'Brien é descrito como um republicano convencional. Mas ele foi ascendido e favorecido pelo próprio John Bolton durante seu mandato menos que excelente – nunca confirmado pelo Senado dos Estados Unidos – como embaixador do presidente George W. Bush nas Nações Unidas.

Na realidade, toda esta confusão está apenas na imaginação dos sabichões americanos: A história dos impérios em declínio, especialmente daqueles à beira do colapso e as leis implacáveis da incompetência burocrática e da mediocridade – delineadas de maneira memorável pelo falecido C. Northcote Parkinson, no seu texto clássico "Parkinson's Law" – facilita muito o entendimento de O'Brien, resolve suas aparentes – mas ilusórias – "contradições" e prevê a catástrofe terminal a que ele conduzirá os assuntos do seu país.

Primeiro, O'Brien é genuinamente uma figura descolorida. Ele já esteve em muitas situações importantes e permaneceu invisível em todas elas. Nunca foi o homem de substância e sabedoria por trás das cenas. Os homens mais famosos que o consultaram, como os candidatos republicanos à presidência Mitt Romney em 2012 e Scott Walker em 2015, perderam pateticamente.

O'Brien nunca mostrou qualquer carácter forte. Sempre exibiu toda a força de personalidade de uma esponja húmida. Aceitou passivamente a visão prevalecente na América militar neoconservadora, arrogante e militarista, durante toda a sua vida. Nunca demonstrou a menor inclinação para questionar qualquer das ideias ou estratégias dominantes do seu tempo. Nem tão pouco é um administrador competente ou experimentado. Ele tem ainda menos experiência em liderar qualquer departamento ou administrar um pequeno gabinete do que o malfadado Bolton. E também está demasiado velho para começar a aprender agora.

O Exército dos EUA produz dezenas de milhares de oficiais inúteis, mas aparentemente inofensivos, como O'Brien. Eles tendem a vir principalmente do Centro-Oeste, onde o prazer superficial e a capacidade de resistir a décadas intermináveis de tédio em clubes masculinos como os Kiwanis, os Toastmasters e os Shriners é condição sine qua non de avanço profissional e social. Alexis de Tocqueville já observou isso há quase dois séculos.

Frequentemente, essa facilidade social superficial e falsa é ainda mais lubrificada e sobrecarregada por uma ampla tendência para a ambição cega, as punhaladas pelas costas burocráticas e a astúcia animal.

A decisão de O'Brien, de abandonar a tropa para se formar em direito também se encaixa neste padrão de moagem sem talento, mas diligente e ambicioso, sem intelecto, aprendizado, carácter ou visão reais. Obter diplomas legais concede a essas pessoas um verniz de profundidade e seriedade intelectual de que, na realidade, são absolutamente destituídas.

Se tudo isto parece demasiado duro e crítico, recomendo aos leitores que façam a devida diligência e leiam o livro de 2016 de O'Brien: While America Slept: Restoring American Leadership to a World in Crisis (Enquanto a América dormia: restaurando a liderança americana para um mundo em crise).

Nesta arenga irracional, complacente mas inconscientemente reveladora, O'Brien exprimiu não só hostilidade em relação à Rússia e ao presidente Vladimir Putin como também desrepeito, descrevendo-o como um "déspota". Ele também dá apoio entusiástico ao violento golpe do Maidan que em 2014 derrubou o governo democraticamente eleito da Ucrânia. Além disso louvou os grupos ucranianos que têm fortes laços com os neonazis e opôs-se ao acordo nuclear de 2015 com o Irão. O seu retrato é de um extremista simplório do qual John Bolton estava merecidamente orgulhoso.

O'Brien é totalmente ignorante do mundo. Sua reputação espúria como negociador de reféns resume-se a uma combinação de argumentações legais e capacidade de oferecer pequenas concessões atraentes, de qualquer modo aprovadas previamente por outros. Actualmente, ele atende primariamente as ordens do secretário de Estado Mike Pompeo, cuja dominância total na formulação da política estado-unidense está agora confirmada.

Longe de ser uma melhoria bem-vinda em relação ao inefável Bolton, O'Brien – por mais inconcebível que possa ser – provavelmente será ainda pior.

Isso acontece porque, tal como os personagens principais dos romances clássicos de Sinclair Lewis e John Updike, no meio-oeste americano, a única coisa que O'Brien pode plausivelmente fazer é relacionar-se superficialmente com pessoas que tenham limitações pelo menos tão vastas quanto às suas.

Isso significa que terá uma influência muito maior sobre o presidente Trump do que o arrogante Bolton alguma vez poderia ter tido. Bolton era um génio só em tornar-se repulsivo, mesmo para muitos dos seus admiradores e benfeitores.

Isso não quer dizer que ele dirija ou defenda políticas boas, corajosas ou necessárias, ou reconheça quaisquer políticas perigosas.

Mas se Trump reconheceu bastante rapidamente a arrogância pessoal, as promessas absurdas e a inaptidão de Bolton, é muito mais provável que seja enganado por O'Brien durante muito mais tempo, uma nulidade envolta em dignidade e "poder de reflexão" totalmente fraudulento.

O'Brien, em suma, é um exemplo clássico da mediocridade que ascende ao topo precisamente por ser uma mediocridade e não agitar plumagens pelo caminho. Há 140 anos, os génios dos musicais cómicos britânicos Gilbert e Sullivan previram O'Brien em The First Lord's Song em HMS Pinafore :

"Sempre votei quando convocado pelo meu partido
"Nunca pensei em pensar por mim mesmo
"Pensei tão pouco, eles me recompensaram
"Fazendo de mim o governante da Armada da Rainha."
"I always voted at my party's call
"And I never thought of thinking for myself at all
"I thought so little, they rewarded me
"By making me the Ruler of the Queen's Navy."

E foi assim que Robert O'Brien chegou a ser Consultor de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Os tempos perigosos para o mundo não acabaram: Estão mesmo prestes a agravar-se.

22/Setembro/2019

[*] Foi correspondente estrangeiro de The Washington Times e da UPI durante 24 anos, trabalhou em mais de 70 países e cobriu 12 guerras. Especializou-se em questões económicas dos EUA e globais.

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...


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