Diplomacia TikTok: Uma doutrina de contenção digital
A venda forçada da TikTok pela Administração Trump
faz parte de um esforço mais amplo para impedir a
independência econômica chinesa no setor de tecnologia.
Com as recentes polêmicas a respeito do TikTok, Donald Trump está
exercendo a sua "art of the deal" de praxe, a coerção
do Departamento de Estado estadunidense. Depois de meses fingindo
preocupação de que o aplicativo viral TikTok
representaria
um "cavalo de Troia" para o Partido Comunista da China acessar os
dados dos consumidores dos EUA, a administração Trump emitiu um
ultimato à empresa chinesa:
vender
o aplicativo a um comprador americano ou ter a certeza de que seria terminado.
Microsoft se apresentou como um comprador em potencial ao TikTok, um clone do
aplicativo de vídeo chinês "Douyin" feito sob medida
para o público ocidental. O aplicativo
possui
cerca de 100 milhões de usuários nos EUA e sua empresa
controladora, ByteDance, foi avaliada em US$100 mil milhões.
Os avanços da Microsoft, juntamente com a
estipulação
de Trump de que a empresa controladora do TikTok pague "uma quantidade
substancial de dinheiro" ao Tesouro dos EUA para facilitar a
transação, deixa claro que não se trata de proteger os
dados do consumidor. Certamente, nem o Vale do Silício, nem Washington,
têm preocupações legítimas sobre questões de
segurança, dadas as
colaborações
de longa data e bem documentadas entre os gigantes da tecnologia como o
Facebook, a Amazon, a Microsoft e outros com NSA (National Security Agency),
CIA (Central Inteligence Agency), FBI (Federal Bureau of Investigation) e ICE
(Immigration and Customs Enforcement). Mas a proteção ao
consumidor é uma história de cobertura conveniente para o que
realmente está acontecendo: a venda forçada do TikTok, sob
coação política nada mais é do que um roubo do Vale
do Silício em conivência com o Departamento de Estado
estadunidense.
A saga TikTok é parte de uma estratégia geopolítica maior
para obstruir, isolar e descarrilar a crescente indústria de tecnologia
chinesa. A China alcançou a inovação tecnológica,
por meio de sua iniciativa inovadora "Made in China 2025" (MIC 25),
como a pedra angular de seus esforços mais amplos para escalar a cadeia
de valor da manufatura e abandonar seu papel de "fábrica
mundial" para entrar no domínio da inovação e da alta
fabricação de tecnologia. Esta extremidade superior da cadeia de
valor tem sido historicamente domínio exclusivo dos EUA, Europa e
aliados estratégicos como Japão e Coreia do Sul.
Os EUA revelaram uma nova doutrina de contenção digital projetada
para manter a China em seu lugar histórico como um centro de manufatura
semiperiférico.
Agora está mais claro do que nunca que os EUA não estão
dispostos a ceder essa supremacia tecnológica sem luta. Da venda
forçada do TikTok às sanções à gigante
chinesa das telecomunicações Huawei, os EUA revelaram uma nova
doutrina de contenção digital projetada para manter a China em
seu lugar histórico, um centro de mão de obra barata e manufatura
de semiperiféricos.
A modernização industrial tem sido a chave para a
construção socialista chinesa desde a era Mao. Durante
décadas, o PCC identificou a "produção social
atrasada" e as crescentes necessidades materiais do povo como a principal
contradição que a sociedade chinesa enfrenta. Desde as
aspirações de Mao de aumentar a indústria e reduzir a
dependência externa, transformando a China em um exportador
líquido de aço, tornar a China tecnologicamente competitiva no
cenário mundial tem sido de suma importância para a
construção socialista chinesa.
Planos ambiciosos como o MIC 2025 mostram o quão longe a China
avançou desde a época de Mao, com fornos de aço de
fundo-de-quintal. A iniciativa econômica, apresentada pela primeira vez
pelo Conselho de Estado em 2015, visa transformar a China em um líder
global nas áreas de inteligência artificial, robótica,
telecomunicações e tecnologia da informação por
meio de subsídios, indústria estatal e transferência de
tecnologia em larga escala.
Autoridades chinesas conceberam a iniciativa como uma forma de superar a
manufatura de baixo valor e contornar a chamada "armadilha da renda
média". Esta visão de soberania econômica de alta
tecnologia opõe-se ao papel econômico predeterminado pelas
potências ocidentais que mediaram a entrada da China no mercado
capitalista global nas últimas quatro décadas. Como a
'fábrica mundial', a China fabrica
mais de 90 por cento
dos smartphones do mundo, mas até recentemente, as
marcas chinesas representavam uma parcela insignificante das vendas. O papel da
China como um centro de manufatura de baixo valor uma fonte de
mão de obra barata para as "Apples" e "IBMs" do
mundo foi algo extremamente lucrativo para os capitalistas ocidentais.
Claro, como resultado desse processo histórico, também permitiu
que a China capturasse alguma fração desses lucros, a
serviço da construção da capacidade produtiva da
nação, a serviço da construção socialista e
do investimento na promoção de indústrias
domésticas competitivas que vemos hoje florescerem.
Para a China, dominar o mercado global dos eletrônicos de consumo de
marca é perturbar o sistema mundial econômico predeterminado pelo
Ocidente. Portanto, não é surpresa que a revelação
do MIC 2025 correspondeu a um aumento do antagonismo econômico ocidental
em relação à República Popular da China. Invocando
a linguagem imperialista do livre comércio, os conselheiros
econômicos da UE e dos EUA
protestaram contra
o plano de "minar as regras do comércio internacional" e
"inclinar o jogo em favor dos jogadores chineses". Na linguagem
hipócrita do livre comércio e das aberturas de mercado que
definiram a hierarquia econômica neocolonial da era
"pós-colonial", a indústria estatal da China, os
subsídios e a priorização duma
"inovação autoctone" equivalem ao que o Ocidente
demoniza
como "discriminação" contra empresas estrangeiras.
(Não importa que muitas dessas mesmas políticas econômicas
definam a abordagem dos chamados "tigres asiáticos", a maioria
dos quais são elogiados por sua fidelidade à agenda
geopolítica dos EUA.)
Nessa visão de mundo, a China é apenas uma fábrica enorme
e estúpida, uma imitadora e ladrão de comércio, na melhor
das hipóteses, incapaz do tipo de inovação e criatividade
necessária para ser um líder mundial em tecnologia de consumo. O
êxito da Huawei, TikTok e outros inovadores chineses prova que a visão
racista do mundo está errada.
Junto a essas alegações está um sentimento paternalista de
que a China deve 'saber o seu lugar'. Um relatório sobre o MIC 2025 para
a Câmara de Comércio da União Europeia
advertiu
: "A China tem sido a fábrica do mundo e agora quer mais." As
descrições das aspirações de desenvolvimento da
China como "arrogantes", até mesmo agressivas, revela a
mentalidade chauvinista ocidental quanto ao lugar "adequado" da China
na cadeia de abastecimento global. Nessa visão de mundo, a China
é apenas uma fábrica enorme e estúpida, uma imitadora e
ladrão de comércio, na melhor das hipóteses, incapaz do
tipo de inovação e criatividade necessária para ser um
líder mundial em tecnologia de consumo. O sucesso da Huawei, TikTok e
outros inovadores chineses prova que a visão de mundo racista
está errada.
Apesar do aparente foco da guerra comercial nas compras e tarifas
agrícolas, muitos identificaram o MIC 2025 como o antagonista silencioso
por trás das ansiedades dos EUA sobre a agenda econômica da China.
Por exemplo, Lorand Laskai, do Conselho de Relações Exteriores,
descreveu
o projeto Made in China 2025 como "o vilão central, a verdadeira
ameaça existencial à liderança tecnológica dos
EUA". Na verdade, as tarifas impostas pelos EUA identificaram
explicitamente os subsídios chineses, o envolvimento do estado e o
protecionismo como seu alvo central. Em depoimento perante o Senado em 2019,
Bonnie Glaser, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais,
observou que as autoridades chinesas "abandonaram as referências ao
MIC 2025 em documentos oficiais e na mídia oficial" em resposta ao
escrutínio e pressão dos EUA. O uso agressivo de tarifas e
ameaças contra a virada tecnológica, na construção
socialista da China, deixa claro que a chamada "guerra comercial"
é parte de uma agenda imperialista mais ampla, para impedir a
ascensão da China na cadeia de valor global.
No entanto, as negociações da "guerra comercial
sino-americana", que Mike Pompeo
declarou
recentemente um "fracasso", deram lugar a uma postura linha-dura. Em
uma atualização digital da doutrina de contenção da
Guerra Fria, os EUA estão tentando bloquear a indústria de
tecnologia da China dos principais mercados e cadeias de abastecimento que
ainda lhe sobram inexplorados.
A ameaça de proibição do TikTok nos EUA
já proibido na Índia
, e sob escrutínio, na Austrália, UE e Japão
é apenas a última tentativa de desenhar uma nova cortina de ferro
digital em torno das principais marcas de tecnologia da chinesas. Durante anos,
os EUA argumentaram que a Huawei (que acabou de
eclipsar
a Apple como a marca de smartphone mais popular para os consumidores chineses)
é uma representação das supostas ambições
globais do PCCh. O Departamento de Estado tem se esforçado para
pressionar aliados, e estados clientes, a proibir a Huawei de construir as
infraestrutura de 5G, ameaçando cortar aliados da inteligência dos
EUA, se eles forem "comprometidos" pela infraestrutura da Huawei.
Dessa forma, o 5G produzido pela Huawei está efetivamente banido dos
EUA, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Enquanto isso, sob
pressão governamental dos EUA, o Google removeu a funcionalidade da
Google Play Store dos dispositivos Huawei, bloqueando efetivamente os
usuários da Huawei de aplicativos onipresentes, como Gmail, YouTube e a
própria Google Play Store.
A ameaça de proibição do TikTok nos Estados Unidos
já proibida na Índia e sob escrutínio na Austrália,
UE e Japão é apenas a mais recente tentativa de desenhar
uma cortina de ferro digital em torno das principais marcas de tecnologia da
China.
Ainda mais, em maio os EUA tomaram medidas para
cortar
o acesso da Huawei a chips semicondutores construídos com tecnologia
estadunidense um componente crítico para a
fabricação de smartphones, que fizeram a China perder parte de
sua capacidade de produção doméstica. Incapazes de vencer
a Huawei na corrida para o 5G, os EUA recorreram à força bruta
diplomática para remover a marca chinesa de áreas que
começava a ocupar no mercado global.
Os EUA tratam a ascensão tecnológica da China em termos
abertamente racializados e politizados, classificando Huawei, TikTok e outras
corporações chinesas como "tentáculos do Partido
Comunista Chinês", nas
palavras
de Mike Pompeo. Pedindo um "despertar" do chamado "mundo
livre" para o perigo iminente da China, Pompeo advertiu que "fazer
negócios com uma empresa apoiada pelo PCCh não é o mesmo
que fazer negócios com, digamos, uma empresa canadense". Peter
Navarro colocou a ameaça de invasão chinesa em termos ainda mais
íntimos,
condenando
o "fato" de que "as mães da "América"
precisam se preocupar se o Partido Comunista Chinês sabe onde
estão seus filhos".
Sob a Nova Guerra Fria na China, empresas, produtos chineses e até
estudantes estrangeiros são todos agentes em potencial, para a
infiltração do Partido Comunista na "segurança
nacional" e na própria "família americana".
As apostas dos esforços liderados pelos EUA para impedir a
autossuficiência tecnológica chinesa são claras. Mesmo
além dos próprios programas de desenvolvimento econômico da
China, o avanço tecnológico chinês tem historicamente
proporcionado benefícios reais a outros aliados do Sul Global igualmente
rejeitados e sancionados sob o regime dos EUA. A própria Huawei foi
posta sob fogo, por ajudar a
construir a infraestrutura sem fio da República Popular coreana
, que anteriormente lutava para encontrar patrocinadores internacionais, a
empresa chinesa também desempenhou um papel semelhante na
atualização da infraestrutura de telecomunicações de Cuba
. Enquanto isso, as inovações chinesas em criptomoeda podem ter
um significado histórico para quebrar a hegemonia da "diplomacia do
dólar estadunidense" e ajudar as nações sancionadas a
evitar o uso do dólar em transações internacionais para
acessar os mercados financeiros internacionais. O fato frequentemente esquecido
da prisão da CEO da Huawei, Meng Wanzhou no Canadá, foi
motivada
por alegadas violações das sanções dos EUA ao
Irã, é mais um exemplo de como a ascensão
tecnológica chinesa é contrária à
aplicação da hegemonia imperial dos EUA.
Apesar da imagem popular de cintilantes horizontes chineses e de passos sem
precedentes na história humana para erradicar a pobreza, a China
continua a ser, em muitos aspectos, um país em desenvolvimento, com um
PIB per capita mais próximo do México e da Tailândia do que
dos EUA ou Alemanha. A inovação tecnológica desempenha um
papel crucial nas ambições da China de crescer e se tornar uma
nação de alta renda, resolver a desigualdade urbano-rural e
atender às crescentes necessidades materiais de seu povo. A era dos
fornos siderúrgicos de fundo de quintal, deu lugar à era dos
semicondutores, mas o avanço dos meios de produção
industrial da China continua sendo a pedra angular do avanço
econômico e social sob o PCCh.
A venda forçada do TikTok pela administração Trump
é apenas a última de uma longa agenda para impedir a
modernização da China. Sob a doutrina de contenção
digital, o suposto aplicador mundial do livre comércio e da justa
concorrência se revelou como um guardião beligerante, excluindo o
acesso ao mercado da China onde e como puder.
[*]
@qiaocollective, coletivo de escritores, artistas
e ativistas da diáspora chinesa determinados a se opôrem às
agressões contra a China e o Sul Global. Inspirado pelas vivências
dos comunistas terceiro-mundistas e do socialismo e internacionalismo chineses,
buscamos proporcionar fontes críticas para equipar a esquerda contra a
desinformação e a propaganta que abastecem a Nova Guerra Fria
contra a China. Visite nosso site
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(eng.) para mais informações