Tocar a lira em Washington
por Angel Guerra Cabrera
[*]
Os Estados Unidos já não são a avassaladora
superpotência unipolar que pareciam ser quando caiu a União
Soviética. Não o são no plano económico, pois sua
outrora incomparável máquina produtiva foi muito abalada e suas
finanças quebradas. Com uma dívida externa
estratosférica, um consumo muito acima das suas possibilidades, um
desequilíbrio comercial crescente e um dólar fictício que
é sustentado pelo mundo inteiro, sua economia não pode manter-se
a flutuar por muito tempo. No plano político, sua influência
internacional, não falemos da sua credibilidade, diminuiu sensivelmente
a opinião pública interna e internacional recusa cada vez mais a
actuação do governo em casa e no mundo.
Isto deve-se não só à sua conduta prepotente e genocida
mediante as guerras de agressão, a prática do saqueio a custa da
fome dos países do sul e do desprezo pelo meio ambiente. Obedece
também ao facto de que abandonou à sua sorte os pobres e os
negros durante a passagem do Katrina, à vergonhosa
desatenção aos veteranos do Iraque, à cascata de
escândalos de corrupção entre o governo e as
corporações, à legalização e prática
indiscriminada da tortura, à abolição do direito de habeas
corpus, factos que não senão a ponta do iceberg numa paisagem
social profundamente desigual, discriminatóra e anti-democrática,
prova de uma grave crise moral do sistema.
Até no terreno militar sua hegemonia está em questão.
Detém sem dúvida um poder destrutivo sem precedentes, capaz de
eliminar várias vezes a humanidade da face da Terra e é
indiscutível sua ampla superioridade em refinados sistemas de armas e
quanto à quantidade de forças e meios de guerras terrestres,
navais e aéreas instaladas em todo o planeta. Contudo, sua
impotência e a de seus aliados perante a resistência armada no
Iraque, Afeganistão e Líbano veio recordar-nos o que está
historicamente comprovado muitas vezes e é ocultado pela cultura
dominante: não existe poderio bélico capaz de esmagar a luta
popular. É incalculável a contribuição dos povos
árabes e islâmicos, incluído o da Palestina, para o
desmascaramento da natureza agressiva, colonial e expansionista do imperialismo
estado-unidense e da sua imagem estereotipada de grande democracia amistosa e
respeitosa dos direitos humanos.
Apesar de ainda não existir uma acção concertada dessas
resistências com as dos povos e estados progressistas da América
Latina, as do movimento internacional contra a globalização
neoliberal e contra a guerra e as de governos que, como os da Rússia,
China e Irão, procuram maior margem de independência, todos eles
são unidos pela oposição às pretensões de
Washington de escravizar o género humano, incluindo os próprios
estado-unidenses.
Só neste contexto de degradação generalizada do
império é possível explicar um imbecil como Bush II
à testa do Estado; mas, muito grave, a descomunal influência na
Casa Branca da camarilha dos neocon (nc), o verdadeiro poder por trás do
trono através de Richard Cheney. Este perigosíssimo grupo
é o autor do
Projecto para um novo século americano,
uma espécie de
Mein Kampf
actualizado, sustentação filosófica da actual Doutrina de
Segurança Nacional dos EUA. Os nc, que não são imbecis,
ainda que os cegue a arrogância e o divórcio da realidade social,
chegaram há anos à conclusão de que para perpetuar-se como
única super-potência e manter seu modelo económico
parasitário os Estados Unidos devia recorrer principalmente ao seu pode
militar, pisoteando descaradamente o direito internacional num saqueio inaudito
dos recursos do planeta, os energéticos em primeiro lugar.
Mescla de messianismo, racismo, misoginia e irracionalidade, o pensamento nc
vê com profundo desprezo o comum das pessoas e, inspirado em Leo Strauss,
defende o uso da mentira e da manipulação do rebanho como
ética da elite governante. Sionistas consumados, os nc consideram os
Estados Unidos e Israel como os estados predestinados a impor em escala global
a democracia e o livre mercado estado-unidenses.
Com o seu exército atolado no Iraque, planeiam alcançar a
obsessiva "mudança de regime" no Irão, arrasando a
nação persa a partir do ar. Se se consumar, não há
palavras para qualificar o seu imprevisível e apocalíptico custo
em vidas e sofrimentos humanos. Tal como Nero, Bush tocará a lira a
contemplar o incêndio, canto do cisne do imperialismo ianque.
[*]
aguerra_123@yahoo.com.mx
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2007/04/05/index.php?section=opinion&article=021a1mun
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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