Chihuahuas começam a ladrar

por Andrei Martyanov [*]

Chihuahuas. Para quem continua a exercitar a boa, velha e estafada ilusão de que uma vez que os Estados Unidos abandonem (se o fizerem) a Europa, a Rússia e a Europa encontrarão imediatamente uma linguagem comum; ou, que de alguma forma as relações russo-europeias são reféns do aventureirismo geopolítico americano, tenho algumas sugestões – acordem. Permitam-me recordar-vos que foi a Alemanha quem desempenhou um papel muito grave no desmembramento da Jugoslávia e que no estado da Ucrânia a chegada ao poder de forças radicalmente russofóbicas teve muito a ver com a Alemanha e a UE em geral. A França, entretanto, é uma "criminosa declarada" após o inferno desencadeado na Líbia. Só para recordar.

Agora isto:

O presidente russo Vladimir Putin disse aos seus homólogos alemão e francês, Angela Merkel e Emmanuel Macron, que qualquer tentativa de intervenção de forças externas na crise política na Bielorússia seria contraproducente.   Em telefonemas separados na terça-feira, iniciados por Berlim e Paris, Putin enfatizou que aplicar pressão externa sobre a liderança em Minsk é inaceitável.  A Rússia e a Bielorússia têm alianças militares e políticas formais, através da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO, na sigla em inglês), da União Económica Euro-asiática (EEU) e de um acordo de "união de estados".   Segundo o lado alemão, a chanceler Merkel disse a Putin que o governo de Alexander Lukashenko deve cessar de utilizar violência contra manifestantes pacíficos, entrar em diálogo com a oposição e libertar imediatamente prisioneiros políticos.   Os comentários da chanceler foram feitos em meio a várias discussões entre membros da União Europeia acerca de como tratar a situação na Bielorússia.   Ministros da UE concordaram sexta-feira passada em formular uma lista de objectivos para uma nova rodada de sanções e políticos na Polónia e Lituânia, além de outros estados, pressionaram por intervenções, em vários graus.

Bem, ficam com a ideia. É sempre a mesma velha ladainha. A França actuou no mesmo tom.

Uma reportagem da Reuters, segunda-feira, intitulada "Líderes da UE apoiam manifestantes na Bielorússia e dizem à Rússia para permanecer de fora", levantou sobrancelhas em Moscovo. Tal como o fizeram comentários de Macron apelando à UE para "continuar a mobilizar" ao lado dos manifestantes anti-governo na Bielorússia. A posição do presidente francês provocou uma dura repreensão de Moscovo, com a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, a perguntar "quando é que ele apelará a que a União Europeia seja mobilizada em apoio às centenas de milhares de manifestantes franceses com Coletes Amarelos".

Como continuo a enfatizar desde há anos, não há pior transformação do que quando uma chihuahua decide que é um mastim. Nem a França, muito menos a Alemanha, são mastins. Salvo algum arsenal nuclear limitado, a França é um anão geopolítico com dores fantasmagóricas e ambições mediterrânicas, ao passo que a Alemanha se aproxima da irrelevância económica com notícias como esta:

A produção económica da Alemanha – o motor da Europa – no primeiro trimestre deste ano contraiu-se em 10,1% em comparação com o período homólogo do ano passado. Esta queda de dois dígitos é a mais drástica já experimentada desde que o Gabinete de Estatística Federal começou a registar dados económicos trimestrais a meio século atrás. "É um número espantoso – menos 10,1%", escreve Henrik Böhme, analista económico da rádio estatal Deutsche Welle. "Nunca antes, na história alemã do pós guerra, a economia do país afundou tão abruptamente como no segundo trimestre de 2020".

Na verdade, a economia da Alemanha continua a contrair-se há 20 meses seguidos. Uma vez que se começa a considerar geralmente suicidas e radicalmente anti-científicas as políticas energéticas da UE, acrescentando-se aqui o facto de que para a exportação de hidrocarbonetos da Rússia a UE estar a perder o seu estatuto de prioridade, torna-se não só justificado como irresistível fazer uma pergunta:   quem é que estes desgraçados perdedores pensam que são? Isto também mostra que os destinos geopolíticos da Rússia e da Europa estão a divergir e, como digo constantemente, o abismo cultural entre europeus e russos continua a crescer. A Alemanha e a França podem continuar a telefonar para o Kremlin, mas é evidente que cada vez mais lhes será dito para tratarem da sua vida e manterem seus narizes fora dos negócios da Rússia, pois tanto a França como a Alemanha são meramente actores geopolíticos secundários e com economias reais em contracção. A UE para a Rússia é apenas um mercado, nada mais. O facto de Putin ser um germanófilo (ele é) não deveria ser motivo para confundi-lo com um mastim preocupado com o ladrar de chihuahuas.

18/Agosto/2020

[*] Analista militar, autor de A supremacia militar perdida dos EUA e de A revolução (real) nos assuntos militares

O original encontra-se em
smoothiex12.blogspot.com/2020/08/chihuahuas-start-barking.html#disqus_thread


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19/Ago/20