por Paul Nicholson
[*]
entrevistado por Tania Molina Ramírez
Paul Nicholson, da Via Campesina, talvez a mais importante rede de
organizações camponesas, fala nesta entrevista sobre a
proliferação de lutas locais contra a globalização
empresarial e sobre como não são nem os partidos nem os
sindicatos tradicionais que as encabeçam; e sobre a OMC, que "tem o
mandato de liberalizar ainda mais todas as áreas da economia
pública e dos recursos naturais": "é
incompreensível que haja ONG que busquem um acordo positivo" na
OMC. "O único acordo bom possível é o seu
descarrilamento (porque) os direitos não se devem negociar num quadro
comercial"
O agricultor basco Paul Nicholson conhece a fundo o mundo das
organizações camponesas e as
diversas resistências à globalização empresarial.
É responsável pelas relações internacionais do
sindicato agrário basco EHNE e representante europeu da Via Campesina,
talvez a rede mais importante de organizações camponesas no mundo
e uma das mais firmes opositoras à Organização Mundial de
Comércio (OMC).
Participou em numerosas lutas por todo o mundo, desde contra a OMC até
às lutas na Palestina.
Nicholson percebe um incremento das resistências locais às
privatizações nos últimos anos. E insiste na necessidade
de unir forças para conseguir o descarrilamento da OMC, que "tem o
mandato de liberalizar ainda mais todas as áreas da economia
pública e dos recursos naturais". "O que ali se decide tem um
impacto tremendo e é incompreensível que haja ONG que procurem um
acordo positivo. Não é possível... O único acordo
bom possível é o seu descarrilamento (porque) os direitos
não se devem negociar num quadro comercial ".
O OUTRO EFEITO
TSUNAMI
A crise do mundo rural se está a agravar "de maneira
dramática", explica Nicholson.
Um dos rostos desta crise é a fome. "A FAO diz que, a cada ano,
mais 20 milhões de pessoas passam fome, e estão principalmente no
mundo rural e são mulheres".
O outro rosto, diz, é a migração provocada tanto por
políticas de privatização e livre comércio, como
por políticas oficiais, como na China, "onde se quer deslocar 200
milhões de pessoas para os pólos industriais".
No mundo urbano, está em curso uma crescente precarização,
a tal ponto que, por exemplo, na União Europeia se procura fazer aprovar
a directiva Bolkestein, que permitiria que empresas em países
industrializados contratassem imigrantes nas condicões laborais do seu
país de origem.
O
tsunami
ilustrou como actuam hoje em dia as transnacionais e os governos , acrescenta
Nicholson.
Afectou uma zona na qual Via Campesina "tem uma forte
implantação". "Desde o segundo dia, 27 de Dezembro,
já tínhamos 200 activistas no terreno".
Além de fazer trabalho de base, esta rede deu seguimento às
políticas de reconstrução e observou que apesar de
não haver escassez de alimentos, os governos "importaram
maciçamente arroz transgénico e milho", o que deu origem a
que os produtos locais perdessem valor e "os mercados locais se
esvaziassem". "Está-se a gerar uma dependência total da
ajuda alimentar".
Além disso, modificaram-se os modos de produção. Antes
praticava-se a pesca artesanal, "sustentável, ligada às
comunidades". Agora, fomenta-se "um modelo de pesca industrial, de
arrasto, com grandes barcos, que acaba com os recursos pesqueiros e
destrói a relação com a comunidade".
Neste sentido, a população piscatória está a ser
obrigada a deslocar-se para a montanha, porque se perderem os registos de
propriedade das terras e o governo está-as distribuindo para uso em
sectores ecologicamente destrutivos, como é o do turismo.
Em resumo, "tenta-se impor modelos de consumo, económicos e
produtivos; acompanhados de um modelo de desindustrialização nos
países mais fracos, (para fomentar) uma economia de
serviços".
A RESISTÊNCIA
Perante esta situação, cresce a resistência, assegura
Nicholson.
O recente
não
da França à Constituição europeia, representou,
por exemplo, "uma derrota das políticas neoliberais".
Os partidos e os sindicatos tradicionais defenderam o
sim;
pelo contrário, "os movimentos cidadãos, especialmente
camponeses, constituíram 3 mil comités a favor do
não
Tal como em França, no resto do mundo são os movimentos civis que
estão na vanguarda da resistência à
globalização empresarial, e a cidadania vai perdendo interesse
nos partidos.
Uma das figuras políticas mais populares francesas é o agricultor
e lutador social apartidário José Bové.
Os partidos políticos (incluídos os de esquerda), sindicatos
tradicionais e movimentos camponeses históricos "têm enorme
dificuldade para entender a situação", diz Nicholson. Os
sindicatos, por exemplo, "não sabem como abordar a
precarização das condições laborais e
económicas, e romper o conceito corporativista".
"Os que vimos de uma história mais recente (se refere à
EHNE), temos tido maior capacidade para abordar esta problemática por
sermos novos e não estarmos organizados da mesma forma vertical que as
organizações sindicais históricas".
E acentua ainda o seguinte: "Não nos servem as estruturas
verticais. Agora a organização é muito mais horizontal,
mais aberta e mais complexa. (Trabalhamos com) novos conceitos
democráticos absolutamente ineficazes. É muito complicado, mas
é a única maneira. Por exemplo, nos Fóruns Sociais
Mundiais é tremendamente difícil articular estratégias
concretas, mas não há dúvida que esse é o caminho.
A construção de consensos não se pode fazer com o desprezo
das minorias".
Outra tendência que Nicholson descreve é que "as grandes
mobilizações de há dois anos, de milhões de
pessoas, hoje não se verificam. Ocorrem, sim, uma multidão de
lutas mais concretas e locais", que não são tão
visíveis.
Estas lutas têm como eixo, de maneira destacada, a água, os
organismos geneticamente modificados (OGM) e a terra.
No caso dos OGM, Nicholson destaca, em França, o "colectivo de
desobediência civil, os Arrancadores (Collectif des Faucheurs
Volontaires), com uns 8 mil agricultores e não agricultores que;
às claras, destroem campos de milho transgénico". Tiveram
tal êxito que "praticamente já não se cultiva".
A justiça francesa reconheceu o direito à desobediência
civil e, se numa acção participaram mil pessoas e a policia
deteve duas mais conhecidas, se apresentam no Tribunal as outras 998 e o juiz
aceita.
Por seu lado, a questão da água ganha relevância, tanto
pela sua escassez, como pelo processo de privatização:
"Pretende-se impor um modelo de uso e gestão que não
só é insustentável, como exclui do seu acesso grande parte
da população mundial".
Também aumenta o inconformismo noutras paragens, como na Bolívia,
na Índia ou na Tailândia.
Na Índia, a população opõe-se à Coca-Cola em
várias localidades com o argumento de que a empresa desperdiça e
contamina as reservas de água do subsolo. (Em consequência da
pressão de um grande movimento social com apoio internacional e das
autoridades locais, o governo estatal de Kerala anunciou no passado dia 21 de
Julho que processará a Coca-Cola perante o Supremo Tribunal de
Justiça por abuso da água do subsolo.)
Por outro lado, também ressurgiu o debate sobre a reforma
agrária, assegura Nicholson, e destaca o caso de The Landless People's
Movement (LPM, Movimento dos Sem Terra), na África do Sul.
Nos 12 aos de governo do Congresso Nacional Africano, "não houve
uma transformação da sociedade, nem da estrutura política,
nem das políticas económicas; unicamente mudou a cor da pele dos
governantes". "Hoje, os negros africanos não têm acesso
à terra, que continua nas mãos de enormes proprietários:
uns quantos brancos e muito poucos negros". O LPM enfrentou uma forte
repressão, prossegue Nicholson. Recentemente, foram encarcerados 70 dos
seus membros.
A soberania alimentar é reconhecida cada vez mais como uma
reivindicação fundamental pelos movimentos sociais não
camponeses, assinala Nicholson. Aumenta a percepção de que se
trata de um assunto que diz respeito a todos, e não só aos
agricultores, e se reconhece "como um direito o acesso e a
produção de alimentos culturalmente limpos".
A soberania alimentar, explica o agricultor basco, deve incluir aspectos como
"o direito do consumidor a decidir o que come, como se produz, quem
produz, se é transgénico, o acesso aos recursos (terra e
sementes)", e não só "o direito de defesa da economia e
a alimentação nacional".
No México, este tema não desperta ainda o mesmo interesse que
noutros países. Por exemplo, diz Nicholson, o México
"deveria ter a capacidade política de proteger a sua fronteira das
importações maciças a baixo preço".
Também a população poderia realizar mais
acções como revistar o conteúdo dos camiões que
entram no país (para tentar evitar a entrada de milho
transgénico). "Este tipo de acções são
frequentes em centenas de portos em todo o mundo".
No entanto, no México, "a sensibilidade da população
que vive nas grandes cidades é muito baixa", explica.
"NÓS, OS POVOS"
Os que se opõem à globalização empresarial deviam
reunir forças para descarrilar a OMC, opina Nicholson.
Os negociadores na OMC aprenderam com o seu fracasso em Seattle e Cancún
(provocado em boa medida pela Vía Campesina), e "já
não querem encenar una macro-assembleia", a qual poderia ser alvo
de manifestações dos opositores.
Agora, os Estados Unidos, a União Europeia, Austrália, Brasil e
Índia negociam "de forma 'clandestina', não
transparente". Buscam chegar a acordos para "depois chantagear e
obrigar os demais a negociar em bloco".
Querem "acordar o conjunto da liberalização do
comércio alimentar, dos serviços (ou seja, toda a área da
economia e serviços públicos) e dos produtos industriais".
Os negociadores planeavam fazer "aprovar tudo" para Julho, mas
não conseguiram avançar. Procuraram faze-lo em Outubro, no
conselho que antecede a conferência ministerial da OMC, que terá
lugar em Hong Kong de 10 a 13 de Dezembro.
Os opositores planearam, para o próximo 10 de Setembro, uma
mobilização mundial para assinalar o aniversário da morte
do sul-coreano Lee Kyung Hae em Cancún. Em Outubro, realizarão
outra mobilização.
QUAIS AS PERSPECTIVAS?
"É uma barbaridade tão grande (o que pretende a OMC), que
custa a crer que os países não se vão a rebelar".
Implicaria, diz, "por nas mãos das multinacionais toda a economia
pública".
A OMC é a "única instituição internacional com
poder sancionador. O que (aí) se decide tem um impacto tremendo e
é incompreensível que haja ONGs que procurem obter um acordo
positivo. Não é possível haver um acordo positivo.
Não é possível".
As ONG a que se refere Nicholson são, entre outras, Oxfam e Action Aid,
que "defendem um quadro de livre comércio como motor das
economias". Para o representante da Via Campesina, isso é
"puro cinismo": "Está mais que demonstrado que a abertura
de mercados é o argumento principal das multinacionais para poderem
movimentar-se à vontade no seio de todas as economias".
"A ilação que podemos tirar é que o livre
comércio está destruindo as economias locais e nacionais, e como
a OMC tem o mandato de liberalizar ainda mais todas as áreas da economia
pública e dos recursos naturais, o único acordo bom
possível dentro de a OMC é o seu descarrilamento".
O argumento que usam estas ONG é que pode haver "elementos
instrumentais piores (que a OMC), mas isto é como falar do
arsénico" e perguntar-se "qual é a dose que mata".
"É veneno! A OMC, no nosso caso, como dizia Lee, mata camponeses;
mas (no geral) está matando os direitos de cidadania em todo o
mundo".
"Os direitos estão à venda", e "não podemos
(deixar que sejam) negociados num quadro comercial". O espaço para
falar deles "deveriam ser as Nações Unidas".
Nicholson não é ingénuo: "Os países poderosos
não querem umas Nações Unidas nem democráticas nem
vigorosas". Mas, afirma, há que partir da ideia de que o mandato
deste organismo começa com "nós, os povos", e a partir
daí, "construir outro quadro (que) assegure os direitos sociais,
económicos, políticos e civis à escala mundial".
[*]
Representante europeu da Via Campesina, associação que reune 50
milhões de camponeses no mundo todo.
O original encontra-se em
La jornada
, edição de 31/Julho/2005.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.