Jasenovac, a Auschwitz croata
O 75º aniversário do fim de Auschwitz marca uma profunda
reflexão por toda a Europa acerca dos males do seu passado genocida.
Trata-se portanto de um momento apropriado para recordar também outro
campo de extermínio, o de Jasenovac, operado pela Croácia, de que
poucos ouviram falar.
A Europa está a reflectir sobre os males de seu passado genocida no
momento em que o mundo assinala o 75º aniversário da
libertação de Auschwitz, um evento sombrio que está
gravado para sempre na memória colectiva do Ocidente. Os Aliados juraram
que nunca deixariam ninguém esquecer os crimes contra a humanidade
cometidos naquele campo de extermínio nazi. Por esta razão
continuam a assinalar a sua libertação todos os anos, com visitas
de alto nível, discursos e forte cobertura dos media. Portanto, toda a
gente está ciente das políticas racistas dos nazistas e da
campanha de assassinato que os acompanhou. Contudo, as forças
hitlerianas não foram as únicas na Segunda Guerra Mundial a
cometerem tais crimes. Poucos fora dos Balcãs ouviram falar de
Jasenovac, o campo de extermínio operado pela Croácia, onde cerca
de um milhão de pessoas
pelo menos 800 mil deles sérvios
foram brutalmente assassinadas pelo regime Ustashe do chamado
"Estado Independente" da Croácia" (conhecido pela sua
sigla como NDH). E menos pessoas ainda se atrevem a falar disso.
Todas as vidas são iguais e não deveria haver nenhuma hierarquia
de vitimização, mas o sofrimento dos sérvios foi
lamentavelmente esquecido por quase todos, excepto pelos próprios
sérvios (e até alguns deles parecem não se importar
muito). A campanha genocida dos nazis de conquista da Europa afectou todo o
continente, ao passo que a igualmente genocida campanha croata foi
"apenas" realizada em parte dos Balcãs. Por isso desperta
menos interesse o que fizeram os croatas. Isso é lamentável,
porque a compreensão de todos sobre a Segunda Guerra Mundial seria
enriquecida ao se aprender sobre o que aconteceu então. Os croatas
declararam "independência" logo após a invasão
fascista na Jugoslávia, liderada pelos nazis, literalmente esfaqueando
pelas costas seus irmãos eslavos do sul por solidariedade com seus
aliados alemães. O NDH era tão raivosamente racista que
estabeleceu Jasenovac a fim de contribuir para a chamada
"Solução Final" de Hitler, não só contra
judeus mas também contra os eslavos, um facto que hoje em dia
também é frequentemente omitido da história.
Embora os croatas sejam eles próprios eslavos, o regime de Ustashe
alegou que de alguma forma estavam ligados à auto-declarada
"raça dos mestres", ao contrário dos seus companheiros
sérvios que eles insistiam serem inferiores e portanto
"merecedores" apenas da morte mais dolorosa possível. Os nazis
obviamente apoiaram as acções dos seus aliados regionais, mas
não precisaram ajudá-los, pois esta organização
fascista, separatista e terrorista estava mais do que disposta a matar sozinha.
Isso torna Jasenovac diferente de Auschwitz, o qual foi construído e
operado por um exército de ocupação estrangeiro, pois era
um centro de matança totalmente de base que incorporava tudo o que os
Ustashe representavam. Portanto, unicamente os croatas devem ser
responsabilizados por todas as atrocidades que ocorreram em Jasenovac e
quaisquer esforços para transferir a sua culpa colectiva para os nazis
são desvios insinceros destinados a fugir à sua total
responsabilidade. Jasenovac era um mal único, mesmo para os
padrões da Segunda Guerra Mundial, mas é quase considerado tabu
falar acerca disso fora dos Balcãs (e mesmo dentro, na maior parte).
De modo chocante,
os Ustashe também foram aliados do Vaticano
e hoje em dia a Croácia é um membro orgulhoso da UE e da NATO,
depois de ter recebido previamente o seu apoio durante as Guerras Jugoslavas da
década de 1990. A Croácia é considerada um "exemplo
brilhante" de "integração euro-atlântica" e
o modelo que o Ocidente deseja que a Sérvia siga. Criticar o país
assemelha-se a criticar o projecto de "integração
euro-atlântica" como um todo e a revelar um dos muitos esqueletos
ainda escondidos nos armários do Vaticano. Hoje em dia também
está na moda atribuir convenientemente a culpa de todos os horrores da
Segunda Guerra Mundial apenas aos nazis, assim como nos últimos tempos
está na moda fazer o mesmo aos sérvios por tudo o que aconteceu
após a dissolução da Jugoslávia. Esta atitude
é tacitamente revisionista, pois implica fortemente que os
sérvios são genocidas quando na realidade eles foram
vítimas de vários genocídios na sua história. Esta
pode ser descrita colectivamente como um servocídio, sendo o mais
recente tentado nos anos 90 e parcialmente executadas pelos croatas (mais uma
vez). Estes são factos históricos, mas muitas vezes são
caluniados como "teorias da conspiração" ou,
ainda pior, "mentiras que incitam ao genocídio" sempre
que são trazidos à tona.
Os europeus devem ao povo sérvio relembrar adequadamente o
servocídio,
tal como o fazem com o Holocausto. Contudo, ninguém deveria ter
esperanças realistas de que isso venha a acontecer em breve pelas
razões já explicadas. Assim, o melhor que os sérvios podem
fazer é recordar a toda a gente sobre Jasenovac todo o ano em que o
mundo se lembra da libertação de Auschwitz. Só recorrendo
a campanhas nas redes sociais poderá aumentar a
consciencialização acerca dos crimes contra a humanidade que os
Ustashe croatas cometeram contra eles por sua própria vontade sem que os
nazis tivessem de ordená-los a que o fizessem. Os males da Segunda
Guerra Mundial são muitos, mas todas as suas vítimas são
iguais. Assim, a justiça histórica não pode ser cumprida
nos Balcãs até que toda a gente no mundo pense em Jasenovac
sempre que ouvir as palavras Segunda Guerra Mundial, Auschwitz, campos de
concentração e genocídio. Isto é reconhecidamente
um objectivo ambicioso, mas que deveria sempre permanecer na mente dos
sérvios e perseguido com a maior paixão porque todos podem
literalmente fazer uma diferença positiva do seu próprio modo ao
informar tantas pessoas quanto possível.
27/Janeiro/2020
Acerca de Auschwitz ver também:
Last days of hell: 75 years on, death camp survivors recall the Red Army liberation of Auschwitz
'People want to know the truth': Red Army veteran speaks out on liberation of Auschwitz & distortions of history
'Embarrassing mistake' or revising history? German paper says AMERICANS liberated Auschwitz and it's not the only one
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De torturar para los nazis a espiar para la CIA: el caso de 'Brígida la Sanguinaria'
Fascismo y monopolismo, Auschwitz e IG Farben (lo que no cuentan los que hablan del 'auge de la ultraderecha')
[*]
Analista político, americano.
O original encontra-se em
oneworld.press/?module=articles&action=view&id=1279
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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