As contradições de Christine Lagarde
O clima da economia mundial é inquietante. As tormentas são
sempre precedidas por um período de calmaria e nuvens negras
vislumbram-se no horizonte. O mais grave é que não se percebe um
novo motor que permita reactivar a economia mundial. A guerra é uma
realidade, o investimento na economia real continua letárgico e a
ameaça de uma nova recessão continua em vigor.
Neste contexto, o que significa a passagem de Christine Lagarde do Fundo
Monetário Internacional (FM) para o Banco Central Europeu (BCE)? Para
apreciar esta pergunta é importante observar as
contradições de Lagarde frente às políticas de
austeridade que o FMI tanto promoveu no passado.
Durante décadas o FMI aplicou uma desapiedada política de
austeridade orçamental nos países subdesenvolvidos. O objectivo
foi sempre gerar um superávite primário nas finanças
públicas para assegurar o pagamento da dívida externa, ainda que
isso significasse condenar economias inteiras ao estancamento, ao desemprego e
à pobreza. Em países como o México os programas centrados
na redução da pobreza foram o paliativo, outra fórmula
preferida do FMI. Os resultados estão à vista: desigualdade
desenfreada e pobreza para 60 por cento da população.
A ajuda do FMI sempre teve o efeito de prolongar a agonia económica para
assegurar a servidão financeira de países inteiros. Mas na crise
financeira de 2008 tudo mudou. O FMI descobriu os benefícios da
política fiscal quando se trata de resgatar bancos e grandes
corporações; e também acabou por aceitar que os bancos
centrais injectassem quantidades astronómicas de dinheiro de alto poder
no sistema bancário e financeiro.
A gestão de Christine Lagarde à frente do FMI foi marcada desde o
começo pelos efeitos dessa crise. A princípio, o FMI viu com boa
vontade os pacotes fiscais de resgate e de estímulo activados por
Paulson (secretário do Tesouro sob George W. Bush) e Geithner (sob
Obama). Mas as vozes contra a ampliação do défice fiscal
travaram-na.
Depois a Reserva Federal percebeu que tinha de colmatar o vazio deixado pela
retirada dos apoios fiscais. E o Fed inaugurou sua política de
flexibilidade quantitativa, que acabou por injectar mais de 4 milhões de
milhões de dólares no sistema financeiro estado-unidense
[NT]
. Novamente o FMI aprovou este enfoque de política monetária que
ia contra os dogmas que o organismo exaltara durante décadas.
Estes movimentos na política macroeconómica tiveram sua
réplica na Europa, com os resgates operados por vários
países quando o contágio levou à crise da UE. E quando
Mario Draghi anunciou que o BCE faria tudo o que fosse necessário para
manter o valor e a integridade do euro, o FMI mais uma vez esteve de acordo.
Dez anos depois do desastre financeiro, tanto o Fed como o BCE continuam
atolados nesta postura de generosidade extrema com o mundo financeiro e fria
indiferença com a economia real. Assim, anunciaram a
manutenção de taxas de juro baixas para o futuro
previsível. Enquanto isso, a bolha mais espectacular de todos os tempos
continua em crescendo na Bolsa de Valores de Nova York.
O fundo de tudo isto é que tanto os bancos centrais dos países
desenvolvidos como dos subdesenvolvidos não têm o controle da
política monetária. Que Lagarde ou Draghi sejam directores do BCE
não muda as coisas. Os bancos comerciais privados na Europa, tal como em
todo o mundo, são os que controlam a oferta monetária. O papel do
banco central é proporcionar a base monetária de acordo com o
funcionamento dos bancos comerciais privados. Se estes se excedem na
criação de dinheiro (através das suas
operações de crédito), ao banco central não resta
outro remédio senão acomodar-se à procura de reservas
proveniente dos bancos privados. O BCE sabe que quando o sistema
bancário necessita reservas, ao banco central não resta outro
remédio senão emprestá-las (fixando a taxa de juro de
curto prazo sobre essas reservas). O mecanismo não é suficiente
para manter o controle sobre a oferta monetária. E a crise do euro
é a melhor prova.
A designação de Lagarde para dirigir o BCE coincide com a
vitória eleitoral da Nova Democracia na Grécia. Este partido
representa os interesses da oligarquia corrupta e rentista nesse país e
este resultado eleitoral é a consequência directa da
política de austeridade imposta pela troika a partir do estourar da
crise. O FMI desempenhou um pouco menos terrível do que a
Comissão Europeia em Bruxela e o BCE. Para a senhora Lagarde era
relativamente fácil aconselhar um pouco mais de comedimento ao tratar da
economia grega porque sabia que, no final das contas, Bruxelas e Frankfurt
tinha mais peso na decisão. A partir do seu novo posto, para Christine
Lagarde será difícil aplicar uma política monetária
menos hostil aos povos da eurozona que ainda sofrem os efeitos da crise que
estourou há 10 anos.
10/Julho/2019
[NT] Note-se que injectar no sistema financeiro não é o mesmo que
injectar na circulação corrente (o que teria provocado uma
hiper-inflação). A injecção foi sobretudo para
sanar os balanços dos bancos.
[*]
Economista, Twitter: @anadaloficial
O original encontra-se em
www.jornada.com.mx/2019/07/10/opinion/023a1eco
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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