"A Europa de Sarkozy é anti-democrática"
por Anne-Marie Le Pourhiet
[*]
entrevistada por Silvia Cattori
A constitucionalista francesa Anne-Marie Le Pourhiet reage ao desejo do
presidente Sarkozy de ratificar o Tratado de Lisboa pela via parlamentar.
Este tratado, espécie de Constituição europeia
"light", foi assinado a 13 de Dezembro último pelos 27
países membros da União Europeia. Em França, o presidente
Nicolas Sarkozy está determinado a fazer ratificar o texto por via
parlamentar. A vontade dos franceses, que se opuseram ao projecto
constitucional em 2005, seria pisoteada, denuncia a professora de Direito
Público da Universidade de Rennes. Ela é um dos primeiros
constitucionalistas franceses a atacar frontalmente o que qualifica de
"negação democrática". A entrevista:
Qualificou de "alta traição", de "golpe de
Estado" o facto de Nicolas Sarkozy querer ratificar o tratado por via
parlamentar. Por que?
Trata-se de um acto muito grave a provar que as referências incessantes
dos tratados europeus aos valores democráticos são um tartufismo.
A Europa é anti-democrática, no sentido que se nos quer impor de
boa vontade ou à força, contra a vontade do povo. A vontade dos
franceses não será a primeira a ter sido atropelada: os
irlandeses e os dinamarqueses também foram e serão constrangidos
a tornar a votar até que digam "sim". Mas, no nosso
país, o cinismo é bem pior uma vez que se nos recusa mesmo o
direito de tornar a votar e impõem-nos uma ratificação
parlamentar. Todo democrata, quer seja soberanista ou federalista, deveria
insurgir-se contra um tal abuso.
A 29 de Maio de 2005 o povo francês havia rejeitado o projecto de
Constituição europeia. O que foi modificado no texto?
Apenas foram removidos os termos "Constituição" e
"Lei" bem como os símbolos, hino, bandeira, etc. Isto
não é anódino pois prova que os eurocratas compreenderam a
motivação anti-federalista dos cidadãos franceses, mas
todo o resto do tratado constitucional encontra-se no novo texto. O
procedimento consiste em não integrar a Carta dos direitos fundamentais
no próprio tratado e sim em lhe conferir um valor obrigatório ou
ainda a substituição da referência expressa ao primado do
direito europeu por uma menção da jurisprudência do
Tribunal que coloca este primado, constituem outras tantas trapaças
destinadas a enganar os cidadãos e desprezá-los.
Quais são as disposições impostas aos franceses contra a
vontade que eles haviam expresso?
Neste tratado, tudo é muito importante. O presidente da União
Europeia designado por dois anos, assim como a política estrangeira e
seu ministro doravante disfarçado como "alto representante", a
Carta dos direitos fundamentais, tão afastada do espírito da
Declaração dos direitos do homem e do cidadão de 1789, e
sobretudo a extensão sem precedentes da regra da maioria qualificada
acompanhando a supressão dos "pilares". A transferência
de soberania é colossal, e tudo isto não é submetido
à decisão popular.
Não é verdade que o parlamento veria os seus poderes
reforçados?
É uma vantagem muito escassa num sistema em que uma comissão
independente dos governos, e portanto dos parlamentos diante dos quais estes
governos são responsáveis, monopoliza a iniciativa legislativa.
O Conselho constitucional francês não se enganou ao afirmar que o
parlamento de Estrasburgo não é "a emanação da
soberania nacional".
Como explicar que esta maioria de franceses que votou "não" ao
projecto de Constituição em 2005 tenha votado "sim"
à eleição do sr. Sarkozy, mesmo sabendo que ele não
levaria em conta o "não" daqueles que haviam rejeitado o
projecto?
Por um lado, o sr. Sarkozy havia simplesmente anunciado um
"mini-tratado" que se restringiria a "permitir à
União que funcionasse", de modo que se podia imaginar uma simples
melhoria das regras de voto no Conselho. Por outro lado, não se pode
confundir a resposta a uma questão referendária e a escolha de um
candidato a uma eleição.
Ségolène Royal e François Bayrou teriam merecido mais
confiança sobre este tema?
Como se pode pretender que um eleitor possa votar por Ségolène
Royal simplesmente porque ela promete na ponta dos lábios um novo
referendo e ao mesmo tempo enaltecer o "sim" à
Constituição europeia? Os socialistas franceses há muito
que fizeram da Europa seu fundo de comércio, e o menos que se possa
dizer é que nem Ségolène Royal nem François Bayrou
não podiam constituir uma alternativa crível quanto a este ponto.
O voto por Nicolas Sarkozy foi para muitos um voto por defeito.
O sr. Sarkozy está determinado a fazer ratificar por via parlamentar
antes do fim de Fevereiro. O que é que ainda poderia evitar este,
segundo disse, "golpe de Estado"?
Nenhum recurso jurídico é possível pois a
Constituição francesa não proíbe, como a
Constituição da Califórnia, modificar uma lei
referendária por uma lei parlamentar. O Conselho constitucional
francês não adoptou a jurisprudência da Corte constitucional
italiana, que impõe um novo referendo para contornar a vontade popular.
O Conselho constitucional poderia eventualmente "constatar" que os
dois tratados são quase idênticos e "lamentar" o
desconhecimento da vontade popular, mas ele não pode sancioná-lo.
Não resta portanto senão contar quer com a
mobilização popular quer com uma rejeição
parlamentar da revisão constitucional prévia à
ratificação. O projecto de revisão deve, com efeito, ser
adoptado pela maioria dos três quintos dos sufrágios expressos no
Congresso, ou seja, na reunião da Assembleia Nacional e do Senado em
Versalhes.
Se a revisão constitucional for aprovada pelos três quintos dos
sufrágios expressos, nada mais poderá ser oposto à
execução deste tratado?
Sessenta deputados ou sessenta senadores poderão ainda deferir ao
Conselho constitucional a lei que autoriza a ratificação do
tratado, mas não há nenhuma possibilidade de que passe o recurso.
20/Dezembro/2007
[*]
Professora de Direito Público na Universidade de Rennes
O original encontra-se em
http://www.lecourrier.ch/index.php?name=NewsPaper&file=article&sid=438304
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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