Abolir um FMI moribundo e culpado
por Damien Millet , Éric Toussaint
[*]
No dia 1 de Novembro Dominique Strauss-Kahn tomo posse da
direcção do FMI após um longo processo sabiamente
orquestrado: escolha da sua candidatura por Nicolas Sarkozy a fim de
enfraquecer ainda mais a oposição política em
França; acordo muito rápido sobre o seu nome da parte dos 27
países da União Europeia a fim de travar as críticas
à regra tácita que sistematicamente atribui a presidência
do FMI a um europeu (em troca da direcção do Banco Mundial a um
estado-unidense); campanha em dezenas de países, efectuada por uma
custosa agência de comunicação, sobre o tema da
"reforma" do FMI e do seu apoio aos países pobres;
aparição surpresa de um outro candidato (o tcheco Josef Tosovsky)
que não tinha qualquer possibilidade de ser nomeado mas deu a
aparência de um processo democrático e, por fim,
designação por unanimidade de Dominique Strauss-Kahn.
Estas voltas de prestidigitação mediática tinham por fim
dissimular a realidade do FMI em severa crise de legitimidade. Os
países do Sul não querem mais procurá-lo para não
ter a seguir de sofrer o seu domínio brutal. Um certo número
dentre eles (Brasil, Argentina, Indonésia, etc) até mesmo
reembolsaram antecipadamente o que lhes deviam para se desembaraçarem da
sua tutela incómoda. Apesar de actualmente o FMI não conseguir
mais cobrir as suas despesas de funcionamento e de a sua própria
existência estar ameaçada. Daí a necessária
"reforma", não para insuflar uma mudança
democrática que leve em conta o interesse das populações
mais pobres, mas para assegurar nada menos que a sua sobrevivência e para
enfrentar uma forte contestação por todo o planeta.
Não há dúvida que se impõe um balanço
exaustivo do FMI. É uma instituição que, há mais
de 60 anos, exige com a maior violência que os dirigentes dos
países ditos "em desenvolvimento" apliquem medidas
económicas servindo o interesse dos credores ricos e das grandes
empresas. Com este fim, durante as últimas décadas, o FMI deu um
apoio essencial a numerosos regimes ditatoriais e corrompidos, de Pincohet no
Chile a Suharto na Indonésia, de Mobuto no Zaire a Videla na Argentina,
e actualmente ainda a Sassou Nguesso no Congo-Brazzaville, a Déby no
Tchad e a tantos outros. Desde a crise da dívida no começo dos
anos 1980, o FMI impõe a fórcepes programas de ajustamento
estrutural com consequências dramáticas para os povos do Sul:
redução drástica dos orçamentos sociais e das
subvenções aos produtos de primeira necessidade, abertura dos
mercados e colocação em concorrência desleal dos pequenos
produtores com as multinacionais, produção voltada para a
exportação e abandono do princípio da soberania alimentar,
privatizações maciças, fiscalidade agravando as
desigualdades...
Chegou o tempo de o FMI prestar contas. Nenhuma instituição pode
colocar-se acima dos textos e tratados internacionais e contudo o FMI
concede-se, pelos seus estatutos, uma imunidade jurídica total.
Qualquer reforma do FMI não poderá ser feita sem o aval dos
Estados Unidos que detêm uma minora de bloqueio absolutamente
inaceitável. Todo projecto de reforma modificando as
relações de forças internacionais será portanto
bloqueado pelos representantes dos grandes credores. Estes elementos tornam
impossível qualquer mudança aceitável a partir de dentro
do FMI.
Daí impor-se a conclusão: uma vez que o FMI já fez uma
prova ampla do seu fracasso em termos de desenvolvimento humano e que é
impossível dele exigir que preste contas por suas acções
desde há 60 anos, é preciso exigir a sua abolição e
substituição por uma instituição transparente e
democrática, cuja missão será finalmente centrada na
garantia dos direitos fundamentais.
31/Outubro/2007
[*]
Do Comité pour l'annulation de la dette du Tiers Monde (CADTM)
O original encontra-se em
http://www.cadtm.org/spip.php?article2901
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
.
|