O pior castigo para o FMI
por Alejandro Nadal
Três problemas mancharam a reunião anual do Fundo Monetário
Internacional neste último fim de semana em Washington. O primeiro
relaciona-se com a sua incapacidade para detectar a amenizar a crise do mercado
de crédito hipotecário nos Estados Unidos. Esta crise estalou no
centro do mundo desenvolvido, pondo em evidência que a instabilidade
continua a ser um traço dominante do sistema financeiro mundial. A
crise obrigou o FMI a reajustar o seu prognóstico do crescimento da
economia mundial, rebaixando-o de 5,2 para 4,8 por cento, um pano de fundo nada
agradável para a reunião.
O segundo problema é que a magnitude dos fluxos de capital e a
assimetrias da economia mundial converteram o FMI num brinquedinho que nada tem
a fazer no campo dos grandes. O cúmulo é que hoje muitos
países estão a libertar-se da carga de ter que lidar com o Fundo:
desde a Venezuela e o Equador até a Argentina e o Brasil. A mensagem
que enviam aponta para a irrelevância do organismo. Isto é
importante no contexto actual, porque nestes últimos dois anos os
países subdesenvolvidos foram o motor do crescimento, e as suas economia
foram aquelas que tiveram de compensar o colapso na procura agregada mundial.
A terceira mancha é que o avanço no plano de reformas do FMI
é insatisfatório. O temor de que o Fundo se enfraqueça
empurrou os Estados Unidos e a Inglaterra a promoverem algumas reformas. Mas
ao invés de fortalecer a legitimidade do organismo e promover maior
equidade, o pacote de reformas propõe ampliar a
representação só para os países subdesenvolvidos de
crescimento mais rápido. O G-24 já declarou: essas reformas
são pouca coisa e chegam demasiado tarde.
Muito analistas consideram que tanto os países em vias de
desenvolvimento como os industrializados têm um claro interesse em
efectuar reformas mais significativas nos próximos meses. Deste ponto
de vista, o novo director gerente, Dominique Strauss-Kahn, teria uma boa
oportunidade para começar o seu mandato introduzindo as mudanças
exigidas há décadas pelos países pobres.
Mas há nuvens de tempestade no horizonte. Uma é o crescimento
lento da economia mundial, que fortalecerá a reticências dos
países europeus em relação à reforma do status quo.
Outro obstáculo é que em fins de 2007 será divulgada a
informação sobre a contabilização do PIB do
países membros utilizando o critério da paridade do poder de
compra. Isso vai aumentar o tamanho do PIB das duas maiores economias
asiáticas, com sérias implicações quanto à
distribuição de quotas e de votos no seio do Fundo. É
provável que os Estados Unidos e a Europa resistam a um plano de
reformas substantivas sob estas condições.
O que aguarda o Fundo? Foi dito que deveria continuar a ser o prestamista de
última instância, um papel semelhante ao de qualquer banco
central, mas aplicado à economia mundial. Mas ainda que esse organismo
desempenhe algumas funções semelhantes às de prestamista
de última instância, há grandes diferenças com as
funções de um banco central. Por exemplo: o FMI não pode
aumentar a oferta monetária e portanto não é o agente que
permitira avançar no caso de uma crise de liquidez sistémica. No
seu tempo, os Direitos Especiais de Saque foram uma resposta limitada à
falta de liquidez, mas o seu alcance foi limitado. O volume de recursos de que
hoje em dia dispõe o FMI é pequeno: os seus fundos
utilizáveis ascendem a 252 mil milhões de dólares,
quantidade realmente reduzida (para comparar, as reservas brutas da
Índia montam a 220 mil milhões de dólares). Em todo o
caso, hoje a fonte de liquidez provem dos fundos de investimento e até
de economias como a da China, que empresta à esquerda e à direita.
Em última instância, a ameaça mortal que pesa sobre o FMI
é o resultado da sua tendência a impor um pacote de
política macroeconómica em todos os países que pôde
dominar nos últimos 20 anos. Impor o modelo neoliberal não era a
missão do FMI (certamente não está considerada no
convénio constitutivo do organismo) e é o que está a minar
as bases do organismo. O modelo neoliberal é intrinsecamente
instável e os programas de ajuste estrutural do Fundo deixaram uma
economia mundial em profundo desacerto. Dessa perspectiva, é
possível argumentar que o FMI foi o seu próprio pior inimigo.
Quase ninguém imaginou que chegaria o dia em que a agência
qualificadora Standard and Poors repreenderia o FMI pelo mau manejo das
finanças. Mas em Setembro aquela agência revelou que o Fundo
havia perdido 110 milhões de dólares no último
exercício fiscal porque os seus rendimentos dos juros despenharam-se
(consequência da presença de outras fontes de crédito).
Mas essa não é a única humilhação para o
Fundo no crepúsculo dos seus dias. O pior que lhe vai acontecer
é que se vai converter em algo irrelevante antes de desaparecer.
24/Outubro/2007
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2007/10/24/index.php?section=opinion&article=028a1eco
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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