Notas sobre como o sector financeiro realmente funciona

por Paul Cockshott

Eu classificaria o sector financeiro como improdutivo. Num certo sentido isto parece bastante óbvio uma vez que ele não produz qualquer coisa fisicamente. Mas, podem dizer os apologistas dos bancos, esta distinção de Smith é enganosa, pois o critério real de se os bancos são ou não produtivos deve ser encontrado nos seus balanços. Esta distinção era, diriam eles, um arcaico preconceito calvinista de Adam Smith que ligava a produtividade à produção física. Esta crítica de Smith é feita tanto por conservadores como Rothbard como por alguns autores marxistas. Estes últimos argumentam que a questão crucial não é se os bancos produzem qualquer coisa física mas sim se eles produzem valor excedente.

Será que eles produzem valor excedente?

Bem, eles sem dúvida apresentam um lucro na maioria dos anos. Assim, se alguém se contentasse em olhar apenas para a forma das coisas, então eles pareceriam ser produtivos. Mas se olharmos com maior pormenor para as contas nacionais descobriremos que o quadro não é tão simples. Os bancos fazem uma variedade de coisas, algumas das quais podem ser retratadas como simples serviços, vendidos como uma mercadoria, outros são mais difíceis de retratar deste modo. Nas suas contas eles mostram uma entrada por rendimento devido ao fornecimento de serviços. Um exemplo disto seria cobrar para compensar cheques ou para fazer pagamentos a outras contas. Contudo, o que se vê quando se olha o sector bancário do Reino Unido é que tais cobranças por serviços bancários são insuficientes até mesmo para cobrir as despesas salariais dos bancos. Para o público geral, esta é a principal utilização dos bancos, mas não é a sua principal fonte de receita. Esta vem, ao invés, de lucros sobre contratos financeiros. A primeira e mais antiga fonte de tais lucros é a cobrança de juros sobre o seu próprio capital o qual eles emprestam e o dinheiro dos seus depositantes que também emprestam. Ao longo do tempo os bancos e outras instituições financeiras tem vindo a fazer uma parte das suas receitas comerciando em contratos financeiros de complexidade e abstracção cada vez maior. Pode qualquer coisas destas ser encarada como produtiva?

Sejam elas produtivas ou não, como explicar a muito maior proeminência do sector financeiro na vida económica?

A não produtividade da moderna concessão de empréstimos

Suponha termos uma companhia pública, vamos chamá-la Redmond Autos, a qual inicialmente é possuída a 100 por cento por accionistas. A receita dos carros que ela produz será então dividida por três vias: alguma para os seus fornecedores, alguma para os seus empregados e o valor residual para os accionistas. Que esta seja agora comprada por uma companhia privada de participações, Rising Phoenix Holdings, a qual financia a sua compra por meio de empréstimos bancários deixando a firma com grandes dívidas. Uma grande fracção do que anteriormente saía como dividendos para accionistas é agora transferida para os bancos como juros. É claro que nenhum valor adicional é criado com tal mudança e que, em consequência, os pagamentos de juros são apenas uma outra forma contratual que pode ser assumida pelas receitas de lucros.

Suponha ao contrário que a companhia está a expandir-se e que financia a sua expansão com crédito do banco. Aqui, pode-se argumentar, o banco está a desempenhar um papel produtivo indirecto. Ele não produz qualquer coisa por si próprio, mas ao canalizar depósitos ociosos para investidores industriais permite a estes últimos expandirem a produção. Um crescimento líquido dos depósito por membros do público corresponde a rendimento que foi ganho mas não foi gasto, se o banco canalizar isto para investimentos produtivos permite que uma porção do rendimento nacional seja materializada em novo equipamento de capital.

Figura 1. Mas o empréstimo produtivo agora é uma fracção relativamente pequena do que fazem os grandes centros financeiros, como Londres e Nova York. Olhe a . Verá que as corporações não financeiras são as que emprestam em termos líquidos, não tomadoras líquidas de empréstimos dos bancos. A concessão e a tomada líquida de empréstimos no sistema devem equilibrar-se de modo que o sistema bancário realmente funciona principalmente para canalizar lucro da indústria e de companhias além-mar para dentro dos dois sectores que são tomadores líquidos de empréstimos: o Estado e as famílias privadas. Algumas das despesas do Estado serão com activos produtivos de propriedade publica – novas rodovias, escolas, etc, mas a maior parte irá para custos correntes ou ítens não produtivos como novos caças de ataque e submarinos. O dinheiro emprestado ao sector pessoal, mais uma vez financiará parcialmente novos activos fixos: novas casas, mas mais uma vez uma grande parte irá para o crédito ao consumo.

No cômputo geral, portanto, o sistema financeiro está a actuar para financiar actividades não produtivas.

A não produtividade de negociar em contratos

O sistema financeiro comercia uma enorme variedade de outros contratos: acções, títulos, contratos futuros, etc. A primeira vista, negociar em tais contratos pareceria ser um jogo de soma zero. Como os traders compram e vendem acções entre si, a perda de uma pessoa será o ganho de outra e vice-versa. Mas isto já não é o caso num mercado em alta (bull market). Se o preço geral dos activos financeiros elevar-se ao longo de um período de anos, pelo menos em termos de papel todos os traders podem apresentar um lucro monetário. O que então cria mercados em alta prolongados?

Figura 2. Olhe a figura 2. Num mundo capitalista ideal o estado teria um orçamento equilibrado, o país não dependeria da tomada de empréstimos estrangeiros e o sistema financeiro canalizaria poupanças das famílias para a indústria. Mas na realidade a taxa de lucro industrial é demasiado baixa, o número de novas acções sendo emitidas para financiar o investimento industrial não é suficiente para absorver as poupanças. Este desequilíbrio torna-se ainda pior a partir do momento em que o sector industrial cessa de ser um investidor líquido e torna-se um poupador líquido como se mostra na figura 2. Esta escassez de novas emissões faz com que o preço das acções existentes seja "puxado" para absorver os fundos.

Mas aqui está um paradoxo: uma elevação no preço de activos financeiros não pode por si mesma absorver poupanças líquidas. Se o administrador do fundo A utiliza fundos recebidos para comprar acções do administrador do fundo B, então A pode equilibrar as suas contas: seus novos depósitos são agora compatibilizados pelos novos activos. Mas B agora tem o dinheiro das acções. O que é que ele faz?

Tenta comprar outras acções, puxando o preço de todas as acções para cima neste processo. O dinheiro permanece no sistema financeiro. Este processo inflacionário pareceria continuar indefinidamente a menos que houvesse algum escoamento de fundos a equilibrá-lo. É aqui que os bónus e os lucros dos bancos desempenham um papel. Como os preços dos activos estão a valorizar-se na generalidade, as firmas financeiras apresentam grandes lucros com a comercialização os quais elas distribuem como dividendos e bónus para os seus traders. [rodapé: Quando escrevia isto a Goldman Sachs anunciou que está a distribuir US$4 mil milhões em bónus para os seus traders só pelo último trimestre, o que dá uma média de meio milhão de dólares por indivíduo.]

Durante a fase do mercado em alta o sistema financeiro como um todo actua como um vasto esquema ponzi. Quaisquer excessos de depósitos dos poupadores para além das necessidades correntes da indústria e do Estado são traduzidos em lucros e bónus. As poupanças são convertidas em receitas de consumo corrente da comunidade bancária.

O mercado em alta sustentava a ilusão de que a poupança é possível muito embora a acumulação de capital real estivesse a pouco mais do que os níveis de substituição. À medida que o tempo passava a ilusão tornava-se cada vez mais instável. Os bancos, tendo distribuído demasiados dividendos e bónus nos bons dias, ficaram subcapitalizados. Quando chegou o esmagamento eles fracassaram e o contribuinte teve de assumir os seus passivos.

O fracasso do bancos enfatiza que o crescimento exponencial de valores de capital real só pode ocorrer quando apoiado por um crescimento exponencial de alguma coisa real – em última análise, um crescimento exponencial da fonte de valor: o trabalho. Quando a população estabiliza, um crescimento exponencial real do capital real torna-se impossível. O investimento então torna-se uma questão apenas de substituir o velho stock de capital com equipamento mais actualizado, sem nenhum crescimento líquido em valor.

O sistema financeiro agora assume o papel da aristocracia feudal e da classe sacerdotal. Eles gastam o produto excedente do país no consumo extravagante. Ao invés de indulgências papais a prometerem uma melhor vida futura, eles vendem notas promissórias que supostamente garantem uma feliz aposentadoria. As promessas são quase tão chocantes quanto aquelas contra as quais protestou Lutero. As poupanças de hoje continuam a ir para bónus de banqueiros, jactos da força aérea e salários de soldados. A verdade é que o consumo real dos aposentados deve sempre ser fornecido pelo trabalho dos seus contemporâneos mais jovens. O enorme, dispendioso e improdutivo sistema financeiro consome as poupanças de hoje apesar de ser incapaz de fazer aparecer trabalho novo para suportar futuros aposentados. Seria muito melhor se o dinheiro actualmente esbanjado pelo sistema financeiro fosse canalizado através do sistema fiscal directamente para os pensionistas de hoje.

O original encontra-se em http://politicalaffairs.net/article/articleview/8804/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
25/Jul/09