Criptomoedas: do fetichismo do ouro ao hayekgold
por Paulo Nakatani
[*]
e Gustavo Moura de Cavalcanti Mello
[**]
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Ouro! Ouro vermelho, fulgurante, precioso!
Uma porção dele faz do preto, branco; do feio, bonito;
Do ruim, bom, do velho, jovem, do covarde, valente, do vilão, nobre.
... Ó deuses! Por que isso? Por que isso deuses;
Ah, isso vos afasta o sacerdote e do altar;
E arranca o travesseiro do que nele repousa;
Sim, esse escravo vermelho ata e desata;
Vínculos sagrados; abençoa o amaldiçoado;
Faz a lepra adorável; honra o ladrão,
Dá-lhe títulos, genuflexões e influência,
No conselho dos senadores;
Traz à viúva carregada de anos pretendentes;
... Metal maldito,
És da humanidade a comum prostituta.
(SHAKESPEARE, Timão de Atenas apud MARX, 1985, p.252)
O ouro é coisa maravilhosa! Quem o possui é senhor de tudo o que
deseja. Com o ouro pode-se até fazer entrar almas no paraiso.
(Colombo, em carta da Jamaica, 1503 apud MARX, 1985, p. 112)
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Resumo
As vertiginosas flutuações na cotação do
bitcoin
e de outras criptomoedas, sobretudo a partir da segunda metade de 2016,
estimularam amplos debates acadêmicos e midiáticos em torno de sua
natureza e de suas perspectivas num futuro próximo: trata-se
rigorosamente de moedas? Possuem potencial de suplantar as moedas nacionais ou
mesmo de usurpar do dólar o estatuto de dinheiro mundial? Seria um ativo
meramente especulativo? Neste artigo, tais questões serão
consideradas à luz da crítica marxiana da economia
política, em particular da análise marxiana sobre o dinheiro e
suas distintas determinações. Além de lançar luz
sobre a atual configuração do dinheiro e sobre algumas salientes
características do capitalismo contemporâneo, que em meio
às sucessivas crises de sobreacumulação catapulta a sua
dimensão financeira, pretende-se retomar a crítica de Marx ao
fetichismo do dinheiro como chave para compreender a existência e a
dinâmica de produção das criptomoedas.
Palavras-chave: criptomoedas; fetichismo, capitalismo contemporâneo,
Marx.
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Abstract
The dizzying fluctuations in the price of bitcoin and other cryptocurrencies,
especially since the second half of 2016, have stimulated broad academic and
media debates about their nature and prospects in the near future: are they
strictly currencies? Do they have the potential to supplant national currencies
or even to usurp the world money statute from the dollar? Was it a merely
speculative asset? In this article, such questions will be considered in the
light of the Marxian critique of political economy, in particular the Marxian
analysis of money and its various determinations. In addition to shedding light
on the current configuration of money and on some salient features of
contemporary capitalism, which amidst successive crises of overaccumulation it
catapult its financial dimension, it is intended to retake Marx's critique of
money fetishism as a key to understand the existence and dynamics of
cryptocurrencies production.
Keywords: cryptocurrencies; fetishism, contemporary capitalism, Marx.
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1. Introdução
2. As criptomoedas
3. A criação e circulação do bitcoin
4. O bitcoin pode substituir as funções do dinheiro no capitalismo?
a) Medida dos valores
b) Meio de circulação
c) Dinheiro, propriamente dito
d) O dinheiro como capital
5. As criptomoedas, suas manhas teológicas e seu substrato ideológico
6. Considerações finais
7. Referências bibliográficas
1. Introdução
No primeiro livro de
O Capital,
Marx ilustra claramente o fetichismo do dinheiro ao tratar do entesouramento,
como uma das consequências do desenvolvimento do mundo das mercadorias.
Demonstra ele aí que "a circulação torna-se a grande
retorta social, na qual lança-se tudo, para que volte como cristal
monetário. E não escapam dessa alquimia nem mesmo os ossos dos
santos nem a
res sacrosanctae, extra commercium hominum
[1]
" (MARX, 1985, p. 112).
O dinheiro torna-se cada vez mais fetichizado a partir do desenvolvimento do
modo de produção capitalista e, sob o domínio do capital,
torna-se a principal forma de expressão da riqueza como um
fetiche
, inclusive disfarçando o capital. Em suas diversas formas de
existência
[2]
, e desde os seus primórdios, a riqueza autonomizada como dinheiro
assumiu as mais variadas formas de moedas e mercadorias cuja
materialização máxima ocorreu sob a forma de moedas de
ouro, desde a antiguidade.
Entretanto, a diversidade de moedas e de padrões monetários,
assim como a contradição fundamental entre o seu conteúdo
nominal (seu nome) e o seu conteúdo real (a quantidade de ouro) abriu o
caminho para a sua substituição por representantes, signos de
valor. A história das moedas é extremamente rica na
descrição dessas contradições e nos problemas
criados por elas. A desvalorização decorrente do desgaste natural
das moedas e de falsificações no processo de sua cunhagem foi
discutida e criticada desde Nicole Oresme (2004), em 1355, até os dias
atuais, junto com os problemas de controles e determinações sobre
o "valor das moedas" nacionais. Em 1526, Nicolau Copérnico
(2004) escrevia "Sobre a moeda", um pequeno texto que trata de uma
proposta de "reforma monetária", onde destaca a variedade de
nomes e padrões monetários, cujos problemas eram decorrentes
não só da desvalorização e das
falsificações, como também da enorme confusão que
se originava dessa coexistência.
De modo a se reduzir os custos de circulação e a se incrementar
sua segurança, com a intensificação das
transações mercantis foram desenvolvidos locais para a guarda do
ouro. Contra esses depósitos, os ourives, e posteriormente os
comerciantes de dinheiro e os bancos, passaram a emitir certificados
[3]
, um dos precursores do papel moeda conversível e, posteriormente, do
papel moeda de curso forçado. Mas, desde o princípio, a
possibilidade de emitir mais certificados do que a quantidade de ouro guardada
foi sendo exercida pelos guardiões dos metais preciosos, constituindo-se
assim um capital usurário que multiplicava escrituralmente a quantidade
de ouro em depósito. Esses certificados adicionais eram emprestados com
a cobrança de juros
[4]
.
A história dos bancos também é rica em
descrições das crises monetárias que se manifestavam nas
corridas bancárias, na medida em que passaram a emitir ou criar
papel-moeda ou Notas de Banco além de suas possibilidades, com ou sem
reservas metálicas. Ou seja, as crises bancárias evidenciavam a
contradição entre a quantidade de ouro em depósito e a
quantidade de Certificados ou de Notas de Banco emitidas.
Essa enorme confusão criada pelos diferentes sistemas, com crises
recorrentes, colapsos e bancarrotas bancárias, fez com que alguns
bancos, em função de seu poder econômico e político
em seus respectivos países, passassem a exercer funções
que atualmente são de atribuição dos Bancos Centrais
[5]
. Essas funções eram atribuídas pelos diferentes governos
aos bancos privados que foram sendo sucessivamente estatizados ao longo da
história, a maioria entre o final do século XIX e início
do XX. Uma das exceções até os dias de hoje é o
Federal Reserve System
(FED), que permanece privado.
Por conseguinte, a história das moedas é longa, heterogênea
e extremamente atribulada. Sua natureza é privada, ao contrário
do que se imagina ou se defende correntemente, pois é fruto da
expressão do valor das mercadorias em uma mercadoria especial (MARX,
1985, p.212). As contradições próprias a essa mercadoria,
levaram-na a ser substituída por signos fictícios (MARX, 1985,
p.249), sem relação com reservas metálicas, além
daquela parte que aparece como papel impresso, mais aquela parte que, mais
recentemente, aparece como sinais magnéticos nas contabilidades das
empresas ou dos bancos. Além disso, de uma propriedade pessoal e
privada, elas foram sendo todas substituídas por títulos de
dívida especiais, que não rendem juros e nem têm data de
vencimento, o papel moeda estatal (um desdobramento da forma dinheiro de
crédito - MARX, 1985-6, p.69). Esses títulos receberam os nomes
das respectivas moedas nacionais e são criados através de
créditos pelo sistema bancário comercial privado ou
público. Trata-se de
dinheiro fictício
[6]
, que se generaliza com o fim da conversibilidade (de fato e de direito) do
dólar em ouro, em meio ao colapso do Sistema de Bretton Woods.
Mais precisamente, a forte onda de internacionalização produtiva,
sob bases "fordistas", e financeira, com destaque para a
emergência dos euromercados, deu azo a uma sobreacumulação
de capital que se manifestou na forma das "crises de
estagflação", e que acirrou o ímpeto de
autonomização do capital, cuja reprodução passa a
depender cada vez mais de promessas de futura valorização do
valor, na forma de capital portador de juros e de capital fictício. Com
isso, reforçou-se o caráter desmedido do capital, que se exprime
no pulular de crises econômicas que caracteriza o capitalismo
contemporâneo.
2. As criptomoedas
Por conseguinte, é nesse contexto, onde as crises do capital
explicitaram as contradições próprias às moedas,
que surgem as criptomoedas ou moedas virtuais que também
deveríamos chamar de dinheiro fictício, caracterizadas por uma
extrema instabilidade e volatilidade das taxas de câmbio que
aguçaram enormemente os riscos cambiais.
A primeira delas, chamada de bitcoin, foi criada e lançada em 2009 por
um indivíduo fictício, chamado de Satoshi Nakamoto, cuja
identidade ou identidades, pois pode ser um grupo, permanece desconhecida
até o momento, segundo se divulga nas redes de informação.
Uma das expectativas é que o bitcoin se torne uma moeda mundial à
medida que aumenta aceleradamente o número de pessoas e empresas que o
aceitam como moeda. Mas, para tanto, deveria cumprir as condições
para funcionar como medida do valor, padrão de preços, meio de
circulação, meio de pagamento e de capital-dinheiro, submetida
às determinações fundamentais da produção,
circulação, realização do capital e
apropriação da mais-valia produzida.
Após o exitoso lançamento do bitcoin, foram lançadas
centenas de outras moedas virtuais em uma rede descentralizada criada a partir
de uma tecnologia chamada de
blockchain.
Em 17/12/2017, encontramos uma lista de mais de 1.360 criptomoedas
[7]
no site
Cryptocurrency Market Capitalizations.
[8]
às quais juntam-se outras quase que diariamente, cuja
capitalização total de mercado somava quase US$600 mil
milhões. Além do bitcoin, responsável por mais da metade
dessa capitalização, destacava-se também a
ethereum
(totalizando cerca de US$ 70mil milhões) e a
bitcoin cash
(com pouco mais de US$31 mil milhões). A maior parte delas foi
lançada como uma espécie de meio de circulação ou
de meio de pagamento, entre as diferentes moedas nacionais. Sua especificidade
é que permite o contato direto entre um credor e um devedor, escapando
dos mecanismos centralizados do sistema bancário mundial e, mais
importante, escapando dos diferentes sistemas tributários nacionais.
Mais recentemente, em 2015, foi lançado o
hayekgold,
que se propõe conversível em ouro, mas não se encontra
cotada nesse mercado de criptomoedas. O que mostra que os novos fetiches
não conseguem escapar do fetiche áureo
[9]
.
3. A criação e circulação do bitcoin
Em primeiro lugar, deve-se tentar explicitar a natureza dessas moedas virtuais,
tendo como fundamento a questão da natureza do dinheiro. Dessa forma,
todas as moedas virtuais possuem uma natureza privada, e pela forma como
são colocadas em circulação, permanecem como dinheiro de
crédito criado ficticiamente, mesmo que sua produção
implique em custos.
A criação do
bitcoin
tem como base um processo extremamente sofisticado e complexo de processamento
de dados em rede, em escala mundial, chamado, não por acaso, de
"mineração"
[10]
. Aqui encontramos uma analogia com o antigo fundamento das moedas
metálicas, a mineração de ouro e de prata. Mas, ao
invés de buscar a riqueza material na própria natureza,
através do trabalho, esse processo é realizado através da
solução de complicadíssimos algoritmos matemáticos
que exige máquinas mais ou menos sofisticadas para resolvê-los.
Segundo o artigo assinado por Nakamoto (2008), em que se expôs a ideia do
bitcoin
alguns meses antes de seu lançamento, o desafio foi estabelecer um meio
de circulação e de pagamentos que não dependesse da
regulação e da fidúcia de uma autoridade central
[11]
. Além da aceitação voluntária, seria
necessário garantir mecanismos descentralizados de emissão da
moeda e de vigilância do sistema, de modo a evitar fraudes e,
particularmente, o "duplo gasto", ou seja, o uso, por parte de um
indivíduo mal-intencionado, de uma mesma moeda virtual em mais de uma
transação.
Sem entrar em minúcias técnicas, a solução foi a
criação de uma rede
peer-to-peer
("ponto-a-ponto"), em que cada "ponto" ou cada computador
que a constitui é ao mesmo tempo cliente e servidor, tal qual a rede
torrent
, por exemplo, que serve para o compartilhamento de músicas, filmes etc.
Tal rede é conectada em torno de um
software
de código-aberto e cada membro recebe duas chaves, uma
"pública", conhecida por toda a rede, e outra privada,
sigilosa. Ao transferir bitcoins, cria-se um registro criptografado composto
pela chave pública do receptor e a chave privada daquele que os cede, o
que legitima a transação - tornada "pública" -,
sem, entretanto, ligá-la a quem a realizou. O sigilo das identidades
é assim preservado, o que torna as operações com bitcoins
propícias à prática de lavagem de dinheiro e pagamentos de
atos ilícitos
[12]
.
Cada transação deve ser verificada pela rede e registrada em um
"bloco"
[13]
; de modo a atestar sua autenticidade, o usuário ("minerador")
precisa resolver um complexo problema criptográfico (a "prova de
esforço"), e o primeiro que obtém êxito nessa
operação recebe como recompensa novos bitcoins (hoje são
25 por prova), bem como uma taxa sobre as transações. Resolve-se
assim, dois problemas de uma só vez: o da emissão da criptomoeda
e o zelo descentralizado pela manutenção do sistema, supostamente
por meio da "livre concorrência". Depois desse processo, o
bloco verificado se insere no
blockchain
em uma ordem definida cronologicamente, recebendo um código
(hash)
único e criptografado, e a introdução de um novo bloco
pressupõe a verificação desse código. Assim, o
blockchain
seria um imenso registro de todas as transações realizadas em
criptomoedas, mantido não por uma instituição, mas por
cada membro da rede
[14]
.
Conforme a sua configuração inicial, cada bloco deveria ser
publicado a cada 10 minutos; ocorre que, quanto mais extensa a rede, maior sua
capacidade de processamento, e nesse sentido o algoritmo do
bitcoin
foi projetado para progressivamente incrementar a complexidade da "prova
de esforço". Ou seja, para tornar cada vez mais difícil a
"mineração", simulando assim a mineração
real e o esgotamento das jazidas. Dessa forma, podemos, por analogia, associar
a criação do
bitcoin
à antiga produção das mercadorias metálicas, ouro
e prata, que ao entrarem na circulação das mercadorias e ao mesmo
tempo do capital, passam a funcionar como dinheiro e como moeda em suas formas
particulares de existência. Da mesma forma atenderia a um dos principais
requisitos da antiga teoria quantitativa da moeda.
A criação de
bitcoins
implica em um custo de produção decorrente dos desgastes de
equipamentos e consumo de energia além do tempo de trabalho de cada
"minerador". Essa moeda tem como padrão de preços, o
mesmo padrão utilizado atualmente por todas as moedas nacionais, o
sistema numérico decimal, que substituiu a medida de peso do metal, ouro
ou prata, contido em cada moeda. O mecanismo para colocá-la em
circulação, sem a qual não adquire um
status
existencial, é o mesmo de qualquer outra moeda, seja através da
compra de mercadorias ou serviços, de empréstimos ou de pagamento
de dívidas. Como todas estas coisas são cotadas ou denominadas em
seus respectivos padrões monetários nacionais, como o
dólar, deve-se estabelecer uma determinada taxa de câmbio entre o
bitcoin
e as respectivas moedas nacionais.
Em seu ponto de partida, o custo de produção de cada
bitcoin
era bastante baixo, elevando-se à medida que maiores quantidades foram
sendo mineradas
[15]
. À medida que a sua procura foi aumentando, essa diferença foi
elevando-se igualmente. O aumento da procura especulativa aumentou essa
diferença a níveis estratosféricos. De acordo com o site
da
Blockchain
(
blockchain.info/charts
), desde sua criação, em 2009, até o início de 2011
o
bitcoin
valia centavos de dólar
[16]
. A partir desse momento até o início de 2013 sua
cotação se eleva a poucas dezenas de dólar, sofrendo
então uma apreciação significativa, passando a valer umas
poucas centenas de dólares. Finalmente, a partir da segunda metade de
2016 tem início uma forte elevação; para se ter uma ideia,
de U$995,00 no dia 04/01/2017, cada
bitcoin
passa a valer U$19.499,00 no dia 15/12/2017, vinte vezes mais, portanto (!!!),
tendo uma oferta total de 16.476.025 unidades (atualmente o teto para sua
emissão é de 21 milhões de unidades, que, estima-se, seja
atingido por volta de 2140). Como resultado desta ascensão, e
reforçando essa trajetória, no dia 10/12/2017 as bitcoins
passaram a ser comercializadas no mercado de futuros, nas poderosas Chicago
Board Options Exchange (CBOE) e o Chicago Mercantile Exchange (CME), o que
repercutiu expressivamente sobre a cotação corrente dessa
criptomoeda. Não obstante, em 29/12/2017 a cotação do
bitcoin
caiu para US$13.216, e sua capitalização total reduziu-se a
US$221,6 mil milhões, e no dia 06/02/2018 a cotação ficou
abaixo dos US$6 mil, o que corresponde a uma queda de mais de 70% em
relação ao pico de 2017. De todo modo, é gritante a
discrepância entre o preço das
bitcoins,
em dólares, e o volume de transações que elas
intermedeiam.
A diferença entre o custo de produção e a
cotação, em dólares, atingida pelo
bitcoin
, assemelha-se aqui à antiga senhoriagem no processo de cunhagem das
moedas metálicas ou a impressão das notas de papel-moeda
[17]
. Essa diferença pode ser uma das explicações para o
estímulo à mineração de
bitcoins
, em função do frenético desenvolvimento de seu mercado.
Como mencionado, a
hayekgold,
lançada em 2015, originalmente denominada de
hayekcoin
, diferencia-se das demais criptomoedas. A rigor, a despeito de se basear na
tecnologia do blockchain, a
hayekgold
não pode ser considerada uma moeda virtual; é antes um
derivativo do ouro: um título cotado em ouro, onde cada hayekgold
é equivalente à um grama de ouro, garantido pelas reservas de uma
empresa especializada no comércio de ouro, a
Anthem Vault
[18]
. Assim, funciona como um ativo, cujo preço está vinculado ao
mercado de ouro, valorizando-se ou se desvalorizando segundo o preço do
ouro. Mas poderia ser, supostamente, um retorno às moedas
conversíveis em mercadoria, como propugnam alguns nostálgicos
[19]
. Tem-se aqui o retorno explícito ao fetiche ouro.
4. O bitcoin pode substituir as funções do dinheiro no
capitalismo?
a) Medida dos valores
A primeira função do dinheiro, como medida do valor e
padrão de preços, já se encontra plenamente resolvida e
desenvolvida em suas contradições próprias pelas moedas
nacionais. Pois todas as mercadorias, dívidas e contratos já se
encontram denominados nessas moedas. Atualmente a moeda mundial é o
dólar americano que, mesmo com todas as contestações e
suas próprias contradições, ainda continua exercendo o
papel de dinheiro mundial. Por isso, considerando a existência de uma
taxa de câmbio entre o
bitcoin
e cada moeda, nas quais todas as transações econômicas
passassem a ser denominadas em
bitcoin
, cujo padrão de medida é também decimal, nesse mesmo
processo as moedas nacionais poderiam ser substituídas pelo
bitcoin
(da mesma maneira em que o euro substituiu todas as moedas nacionais
existentes na área). Como o padrão de medida é o mesmo, a
troca ocorreria com a mudança de nome e o valor seria convertido pela
taxa respectiva de câmbio. A maior dificuldade decorre das
determinações dessa taxa de conversão, devido ao
espetacular crescimento da taxa de câmbio ou do preço de mercado
do
bitcoin
, assim como de sua volatilidade e instabilidade, próprias de um mercado
essencialmente especulativo.
Assim, mesmo que essas mercadorias especiais, virtuais, as criptomoedas
pudessem, então, assumir e substituir o papel que o dinheiro cumpre como
medida do valor e padrão de preços a volatilidade e instabilidade
na determinação de seus preços, ou taxas de câmbio,
seriam transferidas para os preços cotidianos dos bens e serviços
em geral. Ocorreria uma enorme balbúrdia e confusão generalizada,
ao invés de refletirem a variação relativa na
produtividade dos diferentes produtos, internos e internacionais, pois traria
junto a especulação no mercado de moedas virtuais
fictícias. Nestes poucos anos de sua existência, em que o
preço de um
bitcoin
passou de alguns centavos de dólar para mais de dezenove mil
dólares, todos os preços de mercadorias e serviços,
cotados em dólares, teriam sofrido uma brutal deflação. Da
mesma forma, todos os produtos anteriormente cotados em dólares, assim
como o faturamento das empresas, a massa de lucros e a
arrecadação do Estado sofreriam as mesmas quedas.
b) Meio de circulação
As informações disponíveis indicam que o
bitcoin
vem sendo utilizado, com frequência cada vez maior e em escala mundial
[20]
como meio de circulação e meio de pagamento, ou seja, participa
da metamorfose final do capital, da mercadoria em dinheiro virtual. Mas, como
meio de circulação, o mundo das mercadorias exige a
existência de uma determinada quantidade de moeda
[21]
decorrente dos
preços das mercadorias a serem transacionadas. Como a
criação de
bitcoins
simula a mineração do ouro, sua quantidade já está
com um limite previamente determinado e o seu uso, até o momento, muito
limitado. O desenvolvimento do capital, no período do
padrão-ouro, acelerou o surgimento de novas formas de crédito em
substituição aos limites impostos pela produção do
dinheiro ouro ou prata. Este teria que ser o caminho: a criação
de
bitcoins
como dinheiro de crédito virtual (fictício).
O dinheiro de crédito, como criação privada entre bancos e
empresas, sancionadas pelo dinheiro de crédito estatal, é
fundamental e determinante no mundo capitalista atual. Esse dinheiro de
crédito é uma criação imaginária,
fictícia, para expressar os valores das mercadorias em um padrão
de medida decimal. Sua existência é efêmera, determinada
pelos prazos dos contratos nos quais têm sua origem e é cancelado
assim que o prazo termina. Na circulação do capital, ou seja, em
sua contínua metamorfose, toda a gigantesca massa de riqueza em
circulação é representada através de registros de
débito e crédito, nas empresas e bancos. "O dinheiro serve
aqui como dinheiro de conta para expressar os valores das mercadorias em seus
preços, mas não se confronta materialmente com as próprias
mercadorias." (MARX, 1985, p. 132). Dessa forma, o dinheiro fetiche, tenha
o nome de ouro, de dólar, de libra esterlina ou de
bitcoin
, como crédito, torna-se uma representação puramente ideal
e idealizada da riqueza, dinheiro de conta ou dinheiro fictício. Ou
seja, da denominação dos valores à
circulação dos mesmos, há a necessidade de
criação de crédito, seja em
bitcoin
ou qualquer outra ou todas as criptomoedas, totalmente livre de qualquer
restrição ou de regulação, como ocorre atualmente.
Suas taxas de câmbio deveriam ser determinadas em mercados virtuais com
milhares de moedas.
c) Dinheiro, propriamente dito
O dinheiro, como dinheiro, tem como funções a de entesouramento
[22]
, a de servir como meio de pagamento e a de dinheiro mundial. Desta maneira,
todos os possuidores de
bitcoins
, sejam mineradores ou compradores, podem manter sua riqueza sob esta forma
particular, de um ativo negociável em um mercado virtual bastante
desenvolvido através das redes mundiais informatizadas, que permite a
negociação ponto a ponto, ou seja, de um possuidor a outro, sem
nenhuma intermediação e fora dos sistemas tributários
nacionais. Mas o entesouramento de
bitcoins
tem implicações: como ele só pode ser obtido
através da mineração ou da compra de outros possuidores,
significa que um minerador só pode realizar sua riqueza através
de sua metamorfose, ou seja, através da compra de mercadorias, ou
através da sua conversão em uma moeda convencional,
dólares, euros, libras ou yens. Não há outra forma de
realização e usufruto dessa riqueza criada ficticiamente a
não ser a superação do
bitcoin
como uma forma de entesouramento. Nesse momento, a diferença entre o
custo de produção e o preço de mercado constitui uma forma
de transferência da riqueza acumulada em quaisquer das moedas para os
bitcoins.
Nos primórdios do modo de produção capitalista, assim como
nos modos de produção anteriores, o entesouramento exercia um
papel importante na acumulação de riqueza. Com o desenvolvimento
do capital e, em particular, em sua forma autônoma de capital portador de
juros, o entesouramento passou a ser substituído pela nova
determinação que o dinheiro adquiriu, a de se tornar capital,
capital-dinheiro. Assim, desenvolveu-se, igualmente, um sistema bancário
e de crédito que passou a reunir toda a riqueza excedente e acumulada
sob a forma dinheiro, principalmente a parcela ociosa, sob a forma de capital
portador de juros. Ademais, como se viu, o sistema de crédito passou a
produzir, criar dinheiro de crédito de forma autônoma, uma forma
fictícia de riqueza. Decorre daí a atual
exacerbação da alienação decorrente do fetiche no
qual todo o dinheiro adquire uma propriedade misteriosa de gerar mais dinheiro
[23]
, como é a aparência das cotações do
bitcoin
. Isso, atualmente, ocorre cotidianamente, além do sistema
bancário, nos mercados de moedas e títulos de dívida ou de
propriedade, desenvolvidos e acelerados pela própria
acumulação de capital, não importando qual forma
específica de moeda nacional. Neste processo o
bitcoin
e todas as demais criptomoedas surgem e se desenvolvem como outras formas
alternativas para a acumulação de riqueza fictícia.
Um minerador que cria
bitcoins
e os acumula sob essa forma sem nunca os converter em mercadorias ou capital,
fica fora da circulação e reprodução global do
capital. Pode tornar-se em um bilionário fictício e jamais
usufruir das melhores coisas que o capitalismo já produziu, como
mercadorias especiais produzidas para as camadas mais privilegiadas da
burguesia internacional, como propriedades espetaculares, iates e jatos e
aviões particulares. A única forma é superar o fetiche do
entesouramento e colocá-los na circulação global do
capital.
As outras funções, como meio de pagamento e dinheiro mundial
poderiam ser exercidas pelo
bitcoin
, ou qualquer outra moeda virtual, no caso de suas taxas de câmbio com
todas as demais moedas mantivessem alguma estabilidade para não
ocasionar flutuações excessivas e acelerar os riscos cambiais.
Neste caso, o sistema tenderia a substituí-lo por moedas cuja
cotação no mercado tendessem a uma maior estabilidade.
d) O dinheiro como capital
No processo dinâmico, contínuo e global, da
reprodução do capital em geral, o dinheiro funciona apenas como
dinheiro em dois momentos da metamorfose do capital, o primeiro da
conversão de dinheiro em mercadorias e o final na reconversão das
novas mercadorias em dinheiro. À medida que se processa e avança
a acumulação, o capital se autonomiza em suas formas de capital
dinheiro, capital produtivo e capital mercadoria. Na acumulação,
sob a forma autonomizada de capital dinheiro, ele adquire uma nova propriedade,
ou seja, converte-se em dinheiro-capital. Uma nova mercadoria especial na qual
o seu valor de uso é de ser capital e o seu valor é determinado
pela sua expressão de valor quantitativa em termos de tempo de trabalho
socialmente necessário. Mas, em sua forma mais desenvolvida, o capital
portador de juros, seu valor será determinado através da
capitalização de seu rendimento, da parcela de mais-valia que ele
se apropria na forma de juros capitalizada à uma taxa corrente ou
média de juros. Essa forma de capital não é dinheiro,
mesmo que apareça como se o fosse. O capital portador de juros
acumula-se, fundamentalmente, e em maior quantidade como dinheiro de
crédito, em suas mais variadas formas de registros e de títulos
de crédito (dívida).
A questão principal e fundamental é como as moedas virtuais
substituiriam as atuais moedas correntes, entre as quais o dólar
funcionando ainda como dinheiro mundial, na dinâmica da
circulação. A resposta é que o
bitcoin
, assim como qualquer das criptomoedas, poderia substituir as moedas nacionais
e também o dinheiro mundial. A condição necessária
é que qualquer uma das criptomoedas que venha a assumir esse papel, ou
as funções de padrão de valor, passem a exercê-las
cotidianamente como meio de circulação, capital dinheiro e
dinheiro mundial, no lugar das moedas que já exercem essas
funções no sistema capitalista mundial contemporâneo. Seria
um processo semelhante às reformas monetárias em países
que substituíram o padrão monetário, inclusive o nome da
moeda nacional, como ocorreu com a criação do euro. A
condição suficiente seria a aceitação e a
incorporação da criptomoeda no próprio imaginário
social, como o novo fetiche.
Para tanto, seria necessário que a maior parte das unidades particulares
de capital e os Estados nacionais substituíssem suas moedas, seja como
dinheiro de conta, seja como dinheiro de crédito ou como meio de
pagamento, no interior dos Estados Nações, assim como entre elas,
e fossem sancionadas e aceitas enquanto tal. Associado a isso, as redes que
produzem, circulam e controlam essas moedas virtuais, no sistema conhecido como
blockchain
, teriam que substituir o sistema de crédito atual, com a
superação dos bancos centrais, a interligação dos
mercados de crédito e, inclusive do sistema bancário, desde que
este sistema não entrasse em uma partilha dentro do processo global de
circulação do capital.
Entretanto, além das dificuldades já apontadas, tais
desenvolvimentos esbarrariam em dificuldades econômicas e
geopolíticas decorrentes do interesse dos Estados Unidos em preservar o
dólar como dinheiro mundial, e de outros países que eventualmente
almejem, de alguma forma, a esse posto. Ademais, conforme exposto, a
fragmentação e a multiplicidade das criptomoedas conflitam com a
exigência de unificação e de padronização
monetária, posta pela dinâmica concorrencial capitalista, bem como
com a crescente mobilização do Estado no sentido de catapultar os
mercados financeiros e de impedir o colapso da produção de
capital fictício
[24]
. Aliás, a tendência à concentração e
à centralização inerente à forma capital
também se verifica nos mercados de criptomoedas. Assim, atualmente
China, Geórgia, Suécia e EUA, nessa ordem, abrigam os mais
importantes "mineradores", totalizando cerca de 80% da
produção mundial. Os três mais importantes
"pools
de mineração", todos de origem chinesa, são o
BTC.com, o AntPool e o BTC.TOP, que detém 20,2%, 16,5% e 15,2% do
mercado de bitcoin
[25]
.
Um dos mecanismos para catapultar essa centralização, que ademais
abre brechas para toda sorte de fraudes, é o chamado
cloud mining
, que consiste na terceirização do serviço de
geração de bitcoins. Ao invés de investir diretamente em
equipamentos e insumos necessários, firma-se um contrato, junto a um
fornecedor, definindo a mobilização de certa capacidade
computacional por certo período de tempo. Em tese, mediante o pagamento
de uma taxa, o fornecedor empregaria os meios correspondentes à
capacidade contratada, e o investidor receberia os bitcoins gerados. Por fim,
estão disponíveis serviços de carteira
online
por parte de empresas que pagam juros por depósitos realizados em
criptomoedas, de sorte que ocorre aí a transferência de posse e
controle desses ativos.
Logo, a despeito dos anelos piedosos dos ultraliberais, e como já havia
constatado o jovem Engels (1981, p.69), é próprio à
concorrência capitalista a monopolização, que por sua vez
tende a intensificar a concorrência, entre capitais cada vez mais
monumentais. Tal dinâmica tende, por conseguinte, a minar um dos pilares
das moedas virtuais, a produção e controle descentralizados, que
pretensamente lhes garantiria a vantagem em relação às
moedas nacionais.
Como se sabe, articularam-se em torno das criptomoedas visões muito
distintas, desde utopistas que enxergavam nas tecnologias envolvidas um
instrumento de construção de relações
igualitárias até vorazes especuladores. À medida que as
transações com as criptomoedas se intensificam, que seus
preços incham, e que pessoas se tornam milionárias da noite para
o dia, a suposta harmonia cai por terra, e a verdadeira natureza desses
mercados se manifesta,
sans phrase.
A lógica tecnocrática de considerar a produção de
dinheiro uma questão meramente técnica, concebida em termos
estritamente matemáticos, cai por terra, diante da verdade
iniludível
[26]
: o dinheiro é uma forma social
[27]
, um momento da forma capital, eivado de contradições e
tributário da turbulenta dinâmica de acumulação de
capital.
5. As criptomoedas, suas manhas teológicas e seu substrato
ideológico
Como mencionado, a
hayekgold,
lançada em 2015, originalmente denominada de
hayekcoin
, diferencia-se das demais criptomoedas. A rigor, a despeito de se basear na
tecnologia do blockchain, a
hayekgold
não pode ser considerada uma moeda virtual; é antes um
derivativo do ouro: um título cotado em ouro, onde cada hayekgold
é equivalente à um grama de ouro, garantido pelas reservas de uma
empresa especializada no comércio de ouro, a
Anthem Vault
[28]
. Assim, funciona como um ativo, cujo preço está vinculado ao
mercado de ouro, valorizando-se ou se desvalorizando segundo o preço do
ouro. Mas poderia ser, supostamente, um retorno às moedas
conversíveis em mercadoria, como propugnam alguns nostálgicos
[29]
. Tem-se aqui o retorno explícito ao fetiche do ouro, conduzindo ao
paroxismo o misticismo e o irracionalismo inerente ao credo ultraliberal que
move os apologetas das criptomoedas, como transparece nesta
"homenagem" a Friedrich August von Hayek, principal figura da
"escola astríaca" junto com Ludwig von Mises. Num contexto em
que o dinheiro se autonomiza de sua substância, torna-se fictício,
e em grande medida virtual, pretende-se reestabelecer uma espécie de
lastro-ouro, no caso do hayekgold, ou mimetizar (virtualmente) a
produção de metais preciosos, uma quimera, por certo,
porém bastante significativa. Subjacente a ela, encontra-se certa
intuição de que a autonomização do dinheiro em
relação à mercadoria equivalente-geral compromete uma
determinação elementar do dinheiro, a de medida de valor. E se a
dita autonomização coaduna-se à proeminência
assumida pelos mercados financeiros e pelas formas fictícias de capital
nas últimas décadas, sendo ao mesmo tempo produto e alimento
dessa tendência, ela mitiga o caráter regulador do valor, e
potencializa o caráter desmedido da atual dinâmica mundial de
acumulação de capital, cada vez mais turbulenta e explosiva
(PRADO, 2013).
Longe de apreender as raízes dessa dinâmica, o que
pressupõe penetrar no âmago das formações sociais
capitalistas e encarar sua natureza bárbara, por meio de uma mirada
crítica e historicamente fundamentada, muitos dos ideólogos das
criptomoedas reagem propalando os dogmas vulgares que dimanam de uma
visão estetizada da superfície dos fenômenos
econômicos, da esfera da circulação do capital. Assim,
compreendem o dinheiro sobretudo como meio de circulação,
mediador de um metabolismo econômico que não vai muito além
do que uma economia de escambo sofisticada, e atribuem as
contradições próprias à forma-dinheiro às
perniciosas intervenções estatais, que obstaculizariam a
operação dos mecanismos de autorregulação do
mercado. Numa palavra, a sociedade aparece como mera soma das
ações de indivíduos levadas a cabo de acordo com sua
suposta natureza imutável, a de "maximizadores de bem-estar"
ou "de utilidade", cuja iniciativa em um ambiente livremente
concorrencial seria o meio por excelência de garantir aquilo que poderia
se aproximar do "bem comum". Em sociedades complexas, os nexos que
estabelecem seriam basicamente nexos mercantis, e a forma de comunicar aos
demais e de adquirir as informações necessárias ao seu
agir racional, de acordo com suas vontades e suas "estruturas de
preferência", seria o sistema de preços que emerge a partir
dessas reiteradas trocas. Como o consumo é tido como a finalidade
última de toda a ação econômica, como os
indivíduos são tomados como "agentes econômicos"
equânimes (mônadas atomizadas), remunerados de acordo com aquilo
que dedicaram à produção, e como o dinheiro é mero
instrumento de trocas ou, como querem os austríacos, um sinalizador das
"preferências temporais" por meio das taxas de juros,
supõem-se um "equilíbrio metafísico" entre
oferta e demanda, conforme denunciava Marx (1969, p.493) em sua crítica
à "lei de Say". As notas dissonantes nesse quadro
idílico quase sempre são atribuídas ao Estado, que em sua
natureza arrivista e autocrática exorbita suas funções e
manipula a emissão monetária, não apenas mudando o
nível geral de preços, mas desestruturando o sistema de
preços relativos e comprometendo a harmonia mercantil. Contra os males
do arbítrio estatal, reforça-se o culto à tecnocracia, a
veleidade de se criar de mecanismos e regras técnicas, pautadas por
critérios estritos de eficiência e eficácia, purgado de
qualquer influência de ordem política ou ideológica.
Na defesa das criptomoedas, por conseguinte, comumente ressoam algumas
famigeradas teses econômicas que ganharam força na esteira das
crises de estagflação da década de 1970 e da consequente
crise do keynesianismo. Para citar apenas duas, cabe recordar o panfleto de
Hayek sobre a "desnacionalização do dinheiro", em que
propunha a extinção das autoridades monetárias estatais e
a privatização plena do dinheiro (HAYEK, 1976), ou as
"regras monetárias" de Friedman, que em obras como
Capitalismo e liberdade
(FRIEDMAN, 1985) chega a propor um incremento constante da base
monetária, a uma taxa fixa, e mais tardiamente propugna a
substituição do Fed por um algoritmo computacional (FRIEDMAN,
1994). Não surpreende que foi tão aclamada pelos ultraliberais
(cf. ULRICH, 2016) a proposta de uma moeda produzida e "gerida" de
modo pretensamente descentralizado e imune ao arbítrio de uma
"autoridade monetária", que garantiria a privacidade
individual, e que seria produzido e comercializado por meio de estritas regras
técnicas, supostamente pautadas pela concorrência desenfreada e
pela racionalidade econômica (teleológica), e que inclusive
determinaria um limite máximo de emissão, dirimindo assim as
tendências inflacionárias e perturbadoras do sistema de
preços relativos tão temidas por monetaristas e
"austríacos".
Logo, no idílio ultraliberal tudo aparece de modo invertido e
simplório: uma dinâmica produtiva anárquica e inerentemente
desequilibrada, que reiteradamente produz crises desastrosas (que são o
próprio negativo do capital, acompanhando cada passo do conceito,
conforme Grespan, 2008) é analisada sob o esquadro do equilíbrio
e a ela são atribuídos místicos poderes autorreguladores;
o Estado, que é a forma política do capital, e que portanto
reproduz seu caráter arrivista, desmedido, violento e
autoritário, é entendido como a fonte de todos os males, e
analisado de modo dualista, como um arcabouço institucional e normativo
clivado da economia; esta, cuja fundamento, motor e finalidade é a
valorização tautológica do valor, aparece como sendo
estruturada em torno da satisfação das veleidades e necessidades
individuais; o indivíduo, coisificado, aviltado, heterônomo,
aparece como o demiurgo do real, em sua pulsão maximizadora, e assim por
diante.
Nesse diapasão, um ativo financeiro altamente especulativo, que garante
aos programadores e aos produtores pioneiros um poder e uma vantagem
exorbitante; cuja produção e gestão são fortemente
concentradas e oligopolizadas; que é atravessado por uma
concepção fortemente ideológica; que é altamente
dispendioso em termos energéticos etc., é apresentado pelos
apologetas ao mesmo tempo como uma mera moeda e como um prodígio da
tecnologia, política e ideologicamente "neutro", um baluarte
da racionalidade econômica e da livre concorrência, e por
conseguinte um instrumento da liberdade individual, fundamento de toda a
liberdade (VAROUFAKIS, 2014, DODD, 2017).
6. Considerações finais
Pelo que vimos, qualquer criptomoeda pode tornar-se uma nova moeda nacional e
até mesmo substituir o dólar e outras moedas como dinheiro
mundial. Entretanto, o papel desempenhado pelo dólar como o principal
dinheiro mundial decorre do poderio da economia estadunidense. Mas, não
mais como dinheiro, mas como dinheiro-capital. A rigor, não há
impedimentos para a substituição das moedas nacionais e do
dinheiro mundial por qualquer moeda privada virtual na dinâmica de
reprodução e expansão do capital desde que atendam aos
requisitos das leis gerais da circulação monetária sob as
determinações do capital e às leis gerais da
acumulação capitalista.
Mas, a conclusão final que não pode ser eludida, é que a
plena e total dominação do fetichismo sobre a
produção, circulação e apropriação da
riqueza capitalista atingiu limites inimagináveis. O capitalismo
contemporâneo está resolvendo os sonhos mais loucos dos
alquimistas, de produzir riqueza, mesmo que fictícia e ao mesmo tempo
real, através da gigantesca retorta social que permite
criar dinheiro do ar
e de
transformar papel em ouro
. Estes são os grandes fetiches de nossa época, muito além
do bezerro de ouro.
Ocorre que, ao criticar o fetichismo do dinheiro, Marx também logrou
apreender aí elementos que indicam, negativamente, a possibilidade de
construção de relações sociais não
coisificadas e não aviltadas pelo rolo compressor do capital, que tudo
busca submeter ao seu movimento tautológico de reprodução
ampliada. Em suas palavras,
o ouro e a prata não possuem apenas o caráter negativo de objetos
supérfluos, sem utilidade prática; suas qualidades
estéticas fazem deles a matéria natural do luxo, do adorno, da
suntuosidade, da roupa domingueira, em resumo, a forma positiva da
superabundância e da riqueza. Aos nossos olhos, eles aparecem como a luz
virginal arrancada às entranhas da terra: a prata refletindo todos os
raios luminosos em sua mistura original, o ouro refletindo apenas a mais
elevada potência da cor, o vermelho. Ora, o sentido das cores é a
forma mais popular do sentido estético em geral.
A conexão etimológica dos nomes dos metais preciosos com os nomes
das cores, nas
diferentes línguas indo-germânicas, foi demonstrada por Jacob
Grimm. (Ver a sua
Historia da Língua Alemã
) (MARX, 1982, p.111, tradução modificada com base em ROMANO,
2004, p.16)
[30]
Nem mesmo isso pode ser dito do fetichismo próprio às
criptomoedas, que repõe o fetichismo do ouro como mero simulacro. Seus
eventuais méritos tecnológicos e técnicos são
forçosamente subsumidos à febre especulativa, particularmente
aguda em contextos como o atual, marcado por imensas massas de capital
sobreacumulado e por uma reprodução ampliada claudicante, em
escala mundial. Longe de ser uma saída para as
contradições do capitalismo contemporâneo, as criptomoedas
são, a um tempo, seu produto e alimento. Mais temível do que a
Esfinge, não basta decifrar o enigma dessas formas sociais tresloucadas;
enquanto não se superar os seus fundamentos, seguiremos sendo devorados
[31]
.
7. Referências bibliográficas
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Notas
[1] "Coisas sacrossantas excluídas do comércio humano."
[2] Consideramos, segundo Marx, o dinheiro como uma categoria abstrata e as
moedas como formas de existência do dinheiro que surgem historicamente em
diferentes reinos e territórios e são posteriormente
centralizados pelos reinos, governantes e Estados nacionais. "Da
função do dinheiro como meio circulante surge sua figura de
moeda. [...]. Assim como a fixação do padrão dos
preços, a cunhagem é uma incumbência do Estado. Nos
diversos uniformes nacionais vestidos pelo ouro e a prata enquanto moedas e dos
quais são desvestidos no mercado mundial..." (MARX, 1985, p. 107).
[3] Esses certificados eram títulos de dívida que passaram a
funcionar como meio de circulação e meio de pagamento, como se
fossem dinheiro. Sempre que os certificados eram resgatados pelo ouro em
depósito, inicialmente com ourives e/ou comerciantes de dinheiro, eles
eram cancelados.
[4] Aqui está também a origem do que Marx chamou de capital
bancário fictício. Atualmente, pode-se fazer uma analogia entre
os depósitos de ouro e os depósitos à vista nos bancos.
"Na medida em que o Banco emite notas, que não são cobertas
pela reserva metálica guardada em seus cofres, ele cria signos de valor
que constituem para ele não apenas meios de circulação,
mas também capital adicional,
ainda que fictício
, no valor nominal dessas notas sem cobertura. E esse capital adicional
proporciona-lhe lucro adicional." (MARX, 1985-1986, p. 69. Grifo nosso).
[5] O Riksbank, da Suécia, fundando em 1668, e o Banco de Londres,
fundado em 1694, são considerados os primeiros Bancos Centrais. Este
último, cuja origem é privada, gradativamente passou a exercer,
através de leis reguladoras, as funções de financiador do
governo, de emissor monetário e guardião das reservas, e
posteriormente de redesconto e de emprestador de última instância.
Em 1946 ele foi estatizado. A maior parte dos países capitalistas
criaram seus Bancos Centrais na primeira metade do século XX (FREITAS,
2000).
[6] Trata-se, segundo Prado (2013, p.139), de "uma forma de valor que
'não' possui valor, pois apenas o representa"; ao apresentar tal
categoria, o autor estabelece uma analogia com o conceito de capital
fictício, "uma representação nominal de capital
inexistente", pois "mesmo não sendo efetivamente real, o
capital fictício é negociável como se o fosse, ou seja,
ele 'circula normalmente como valor-capital'" (
Ibid
, p.148).
[7] A enorme dificuldade, e até a impossibilidade, até o momento,
de falsificação do
bitcoin
, ensejou, em um mercado livre, a criação de outras moedas
virtuais, num processo semelhante ao ocorrido nos EUA, no período
referido na nota seguinte, onde, da falsificação dos
dólares existentes, os falsificadores passaram a criar seus
próprios dólares em nome de empresas fantasmas. Atualmente,
qualquer pessoa com os devidos equipamentos e conhecimentos sobre o
desenvolvimento de softwares complexos pode criar sua própria
criptomoeda, e multiplicá-los através de
"mineração" ou de outros mecanismos.
[8]
coinmarketcap.com/all/views/all/
. Essa disseminação acelerada de criptomoedas parece
assemelhar-se à criação descontrolada de dólares
nos EUA no século XIX, onde cada banco podia imprimir e emitir suas
próprias notas de dólares, além de grandes empresas como
as ferroviárias e mineradoras. Ver:
www.mdig.com.br/?itemid=10519
.
[9] Costuma-se apontar Nick Szabo como, o precursor das criptomoedas, tendo
lançado a ideia do "bit gold", buscando "mimetizar no
ciberespaço, o mais fielmente possível, a segurança e a
confiança características do ouro, e sobretudo o fato dele
não depender da confiança em uma autoridade central".(Szabo
apud
Pech, 2012). Orlieb (2017) também tem como referência a
crítica marxiana à economia política, e analisa as
criptomoedas à luz do fetichismo da mercadoria e do dinheiro, guardando
diversas semelhanças com o presente texto.
[10] "A mineração de bitcoin é bastante parecida com
uma gigante loteria em que você compete, por meio de seu hardware de
mineração, com todo mundo na rede, visando ganhar bitcoins. Um
hardware de mineração mais rápido é capaz de
realizar mais tentativas por segundo para ganhar essa loteria, enquanto a rede
bitcoin se ajusta ela própria a cada duas semanas, aproximadamente, para
manter a taxa de descoberta de um hash de um bloco vencedor a cada dez minutos
BitcoinBitcoin" (Estevão, 2017). Mas, nem todas criptomoedas
são passíveis de serem mineradas, ou seja, devem ser criadas e
colocadas em circulação por algum agente particular.
[11] Tratava-se de criar "um sistema de pagamento eletrônico baseado
em provas criptográficas ao invés da confiança, permitindo
que duas partes interessadas quaisquer pudessem transacionar diretamente entre
si sem a necessidade da sanção de uma terceira parte"
(Nakamoto, 2008).
[12] "O público pode ver que alguém está enviando um
montante [de bitcoins] para outra pessoa, mas sem a informação
ligando essa transação a alguém" (Nakamoto, 2008).
[13] Que foi projetado para ter um tamanho máximo de 1 megabyte, o que
equivale a cerca de 7 transações por segundo. Essa
limitação serviria para evitar a proliferação de
transações falsas (spams) e para permitir a sua
verificação por computadores domésticos, de modo a
preservar a descentralização do sistema.
[14] A despeito da sofisticação do sistema, ele está longe
de ser inexpugnável. Ao contrário, já foram relatadas uma
série de fraudes; só para citar algumas: a) desaparecimento de
US$ 31 milhões da carteira da Tether, a empresa que gere a moeda virtual
USDT, em 21/11/2017; b) roubo de mais de R$ 15 milhões em criptomoedas
da Youbit, empresa sul-coreana de compra e venda de criptomoedas, em abril de
2017, e de 17% de suas divisas digitais, em dezembro de 2017, o que resultou em
sua falência, e repercutiu sobre as cotações de outras
criptomoedas nos mercados asiáticos (o bitcoin, por exemplo, caiu 15%;
ver:
brasil.elpais.com/brasil/2017/12/20/internacional/1513760990_056377.html
; c) roubo de US$ 60 milhões da plataforma de mineração
NiceHash, em 06/12/2017; d) em julho de 2017 US$ 32 milhões foram
roubados da empresa Parity, em ethereum; e) roubo de 120 mil bitcoins
(equivalente a US$ 72 milhões) da casa de câmbio Bitfinex, em
agosto de 2016; f) roubo de 19 mil bitcoins da carteira da Bitstamp, uma
espécie de bolsa de criptomoedas, que correspondia a US$ 5,1
milhões, em janeiro de 2015; g) roubo de US$ 473 milhões em
bitcoins, da MtGox, que à epoca, março de 2014, concentrava mais
de 70% das transações em bitcoins de todo o mundo; h) ainda em
seus primórdios, em agosto de 2010, o desenvolvedor do Bitcoin Core,
Jeff Garzik, percebeu que um hacker realizou uma transação de 184
bilhões de bitcoins em apenas um bloco. Cabe destacar o roubo de US$ 101
milhões em ethereum, em junho de 2016, que fez com que o criador e CEO
da Ethereum, Vitalik Buterin (que tinha apenas 19 anos quando criou a
criptomoeda, em 2015), reiniciasse o sistema, retrocedendo no tempo para o
momento antes do roubo. Com essa alteração na própria
blockchain, tida como definitiva e inexpugnável, abalou-se a
noção de que as criptomoedas são imunes aos
desígnios de qualquer tipo de autoridade monetária. Para esses e
outros roubos, ver, por exemplo,
portaldobitcoin.com/os-maiores-roubos-de-criptomoedas/
.
[15] Diga-se de passagem, uma das alegadas vantagens das criptomoedas, um
suposto barateamento dos custos de transações, graças ao
seu caráter descentralizado, parece não se sustentar, ao menos no
curto prazo. De acordo com estimativas de Malmo (2015), em 2015 uma
transação com bitcoins gastava cinco mil vezes mais energia
elétrica do que uma transação com cartão de
crédito, e o equivalente da eletricidade gasta diariamente, em
média, por uma e meia família norte-americana. Ou ainda, segundo
Roberts (2017), a "mineração de bitcoins já
está consumindo mais energia computacional do que o consumo anual [de
eletricidade] da Irlanda". E sob o atual padrão tecnológico
esse gasto tenderia a aumentar fortemente com o passar do tempo. Ademais, da
maneira como está constituído, o sistema da bitcoin pode realizar
no máximo o irrisório número de sete
transações por segundo, enquanto que o sistema do cartão
de crédito Visa pode chegar hoje a 56 mil transações por
segundo.
[16] A primeira negociação envolvendo o bitcoin ocorreu na segunda
metade de 2009, a uma taxa de 1 BTC = 0,0007 US$, que seria o seu custo
estimado da produção, considerando a capacidade computacional e a
energia então exigidas para tanto.
[17] Por exemplo, se o custo de impressão de uma nota de US$ 100,00 fosse
de US$ 1,00, a senhoriagem seria de US$ 99,00, pois o agente emissor poderia
comprar mercadorias e serviços ou pagar dívidas e
empréstimos no valor nominal da nota impressa. Atualmente, a senhoriagem
é estimada através de uma taxa média de juros que incide
sobre os títulos da dívida pública, pois a
criação de dinheiro em todo o mundo é efetuada
através dos registros de operações contábeis entre
o sistema bancário e o resto da economia.
[18] Após a
hayekgold
, outra empresa lançou a
bitgold
. Ver:
www.anthemvault.com/
;
bitcoinmagazine.com/...
;
www.bitcoinmining.com/bitgold-goldmoney-review/
.
[19] Recentemente, a China anunciou que seus pagamentos na conta de
petróleo seriam em renminbi conversíveis em ouro, em uma complexa
engenharia financeira. Ver:
resistir.info/eua/roberts_18out17.html
.
[20] A lista das pessoas e empresas que o aceitam como meio de
circulação ou meio de pagamento pode ser consultada em:
coinmap.org/#/world/29.53522956/-19.33593750/2
. Por exemplo,
recentemente uma construtora brasileira, a Valor Real (!!!) Empreendimentos
Imobiliários passou a aceitar pagamento em criptomoedas em
imóveis do Programa "Minha Casa, Minha Vida". Ver:
www.infomoney.com.br/...
[21] O moderno sistema de crédito foi capaz de ultrapassar todas essas
exigências do processo de circulação das
mercadorias-capital.
[22] O entesouramento sob a forma de dinheiro metálico ou mesmo de notas
bancárias, além de servir como uma forma de
acumulação de riqueza, também exercia um papel importante
na regulação da quantidade necessária de dinheiro para a
realização do valor das mercadorias no processo de
circulação do capital. Cada vez que o compartimento de
circulação de mercadorias exigia mais dinheiro, uma parte do
dinheiro entesourado era desentesourado entrando no processo de metamorfose da
riqueza. Todo o dinheiro excedente, desnecessário à
circulação, voltava aos tesouros particulares dos possuidores de
riqueza, bancos ou empresas ou famílias.
[23] "O dinheiro como tal já é potencialmente valor que se
valoriza, e como tal é emprestado, o que constitui a forma de venda
dessa mercadoria peculiar. Torna-se assim propriedade do dinheiro criar valor,
proporcionar juros, assim como a de uma pereira é dar peras. E como tal
coisa portadora de juros, o prestamista de dinheiro vende seu dinheiro. Mas
isso não é tudo. O capital realmente funcionante se apresenta,
conforme se viu, de tal modo que proporciona o juro não como capital
funcionante, mas como capital em si, como capital monetário" (MARX,
1986, p.294).
[24] Conferir Paulo Nakatani (2017).
[25] Cabe mencionar ainda que até o início de janeiro de 2017,
quase a totalidade das compras de bitcoins (mais de 90%) eram realizadas com o
renminbi chinês; a partir do final do mês esse quadro se altera
drasticamente, e o yen japonês passa a ser dominar as
aquisições de bitcoins, seguido pelo dólar norte-americano
e o won koreano (o renminbi desaparece desse quadro) (ver
blockchain.info/charts
).
[26] A esse respeito, cabe recordar Hebert Marcuse (1998, p.132): "O
conceito de razão técnica é talvez em si mesmo ideologia.
Não só a sua aplicação, mas já a
própria técnica é dominação
metódica, científica, calculada e calculante (sobre a natureza e
sobre o homem). Determinados fins e interesses da dominação
não são outorgados à técnica apenas
'posteriormente' e a partir de fora inserem-se já na
própria construção do aparelho técnico".
[27] Conferir, Bem Gliniecki (2014).
[28] Após a
hayekgold
, outra empresa lançou a
bitgold
. Ver:
www.anthemvault.com/
;
bitcoinmagazine.com/...
;
www.bitcoinmining.com/bitgold-goldmoney-review/
.
[29] Recentemente, a China anunciou que seus pagamentos na conta de
petróleo seriam em renminbi conversíveis em ouro, em uma complexa
engenharia financeira. Ver:
resistir.info/eua/roberts_18out17.html
.
[30] Ao que comenta Romano (2004, p.16): "sob o mecanismo e o intelecto
impiedoso, existem corpos vivos, almas que sentem e vibram com o belo e o
verdadeiro. Corpos que, se pudessem, envergariam cosméticos com muito
luxo, enfeites, suntuosas roupas domingueiras. Almas que se desdobrariam no
devaneio dos sonhos despertados pelos cinco sentidos, em todas as artes. Mas o
capitalismo impede a festa somática e anímica. Ele produz o seu
oposto".
[31] Como se disse alhures (Nakatani e Mello, 2017), "a
deificação do ouro, que conduziu ao extermínio e à
escravidão e ao suplício de milhões ao longo da
história do capitalismo, e que nalguns lugares continua catalizando
conflitos militares, genocídios, e submetendo multidões a
condições aviltantes de trabalho; tal deificação,
dizíamos, ressurge aqui como farsa, uma pseudo-nostalgia, uma ode ao
fetichismo, que assume as formas mais tresloucadas de
manifestação".
[*]
Professor Titular do Departamento de Economia da UFES e do Programa de
Pós-Graduação em Política Social da UFES.
[**] Professor Adjunto do Departamento de Economia da UFES e do Programa de
Pós-Graduação em Política Social da UFES.
O presente ensaio fará parte integrante do livro
Mello, G.M.C.; Sabadini, M.S. (eds) Financial Speculation and Fictitious
Profits: A Marxist Analysis. Palgrave Macmillan, 2019. (Series Title: Marx,
Engels, and Marxisms) a ser publicado dentro em breve.
A primeira versão foi publicada na revista
Crítica Marxista
, nº 47
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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