Taxas de juro negativas ou reservas de 100%: a alquimia versus a química
A estreita conexão da reserva fraccionária bancária com a
alquimia foi recentemente enfatizada por Mervyn King, ex-governador do Banco da
Inglaterra, no próprio título do seu livro recente,
O fim da alquimia: Moeda, banca e o fracasso da economia global
(
The End of Alchemy: Money, Banking, and the Failure of the Global Economy
).
Para o mais completo desenvolvimento desta conexão ele remete ao
brilhante estudo do economista ecológico suíço H. C.
Binswanger,
Money and Magic.
Dada esta conexão à alquimia, é mais do que
coincidência que a crítica mais antiga e mais completa da reserva
fraccionária bancária tenha vindo não de um alquimista mas
sim de um químico real, o laureado com o Prémio Nobel Frederick
Soddy (Ver H. Daly, "The Economic Thought of Frederick Soddy",
History of Political Economy,
1980, 12:4). A
advocacia de Soddy da reserva bancária plena
foi posteriormente retomada por Irving Fisher, Frank Knight e outros da Escola
de Chicago. Mervy King não chega a advogar a reserva bancária
plena, mas ele está claramente descontente com o sistema de reserva
fraccionária.
Contudo, a maior parte dos Bancos Centrais parece favorecer a alquimia das
reservas fraccionárias como parte essencial do seu hiper-keynesianismo:
o objectivo de estimular o crescimento real pelo aumento do crescimento
monetário, primeiro por taxas de juro baixas, a seguir por zero e agora
por negativas. Por que isto não funcionou? Porque hoje o crescimento
real é constrangido pela escassez de recursos reais, ao passo que na
década de 1930 a tradicional suposição keynesiana dos
recursos ociosos era razoável. Ainda há certamente trabalho
desempregado, mas não recursos naturais ociosos, os quais se tornaram o
factor limitante no mundo de hoje. Como o crescimento atrai maior
porção da natureza para dentro da economia, vemos que estes
recursos naturais recentemente apropriados não estavam desempregados de
todo, mas estavam a proporcionar serviços ecológicos que muitas
vezes eram mais valiosos do que a produção extra resultante da
sua anexação
(enclosure)
à economia. O crescimento agregado tornou-se anti-económico
(uneconomic)
uma condição não reconhecida por economistas
há muito apegados ao crescimento como panaceia mas o qual
ironicamente está logicamente implícito na sua absurda nova
política de uma taxa de juro negativa!
(
steadystate.org/the-negative-natural-interest-rate-and-uneconomic- growth/
)
Tomar empréstimo a uma taxa de juro negativa torna lucrativo investir em
projectos com uma taxa de retorno ligeiramente menos negativa. Investir em
projectos anti-económicos promove crescimento anti-económico.
Nós já temos crescimento anti-económico ao nível
macro devido às más medições embutidas no interior
do nosso
Sistema Nacional de Contabilidade
(
steadystate.org/wealth-illth-and-net-welfare/
). Com taxas de juro negativas induziremos além disso crescimento
anti-económico ao nível micro, agravando o idiotismo colectivo.
Os poupadores em algum momento preferirão o cash a pagar aos bancos uma
remuneração
(fee)
para manter ali o seu dinheiro e isso
levará os bancos e seus políticos a pressionarem pela
eliminação do cash em favor de depósitos
electrónicos que os bancos possam controlar, fortalecendo dessa forma o
abraço mortal da finança centralizada sobre a economia real.
Melhor do que uma política hiper-keynesiana de taxas de juro negativas
é a política de 100% de reservas sobre depósitos à
vista, advogado pela primeira vez pelo Prémio Nobel da química e
economista não reconhecido
(underground)
Frederick Soddy, e a seguir pelos principais economistas americanos da
década de 1920, Irving Fisher e Frank Knight, entre outros. Isto deixou
de ser discutido com a Grande Depressão e a terapia de crescimento
keynesiana, porque foi correctamente considerado um constrangimento ao
crescimento. A tradicional terapia de crescimento keynesiana trabalhava no
mundo vazio de recursos naturais desempregados assim como de trabalho
desempregado, mas no mundo de hoje pleno de crescimento [do uso de recursos]
tornou-se anti-económica e precisa ser constrangida. Assim,
é tempo de reconsiderar reservas de 100%.
Quais são suas vantagens?
1. O sistema de banca privada já não pode mais viver o sonho
alquimista de criar moeda fiduciária a partir do nada, embolsando o
[direito de]
seigniorage
e emprestando a juros a moeda assim criada. Estes enormes privilégios
seriam
transferidos para o tesouro público. A moeda seria um serviço de
utilidade pública
(public utility)
um meio de troca, uma unidade de conta, uma armazenagem de valor. A
ideia é nacionalizar a moeda, não os bancos.
http://steadystate.org/nationalize-money-not-banks/
2. Todo dólar emprestado seria um dólar poupado e
indisponível para o poupador durante a vida do empréstimo. Isto
restaura a disciplina clássica de equilibrar investimento e
poupança, um tanto análoga à lei da química da
conservação da matéria-energia. Poupadores e Investidores
não podem ambos reclamar o mesmo dólar ao mesmo tempo. Os bancos
são intermediários, cobrando juros aos tomadores de
empréstimos e pagando juros aos poupadores. A taxa de juro existe como
um preço equacionando poupanças e investimento, mas não
como um preço pago aos bancos pelo seu desnecessário e
dispendiosos "serviço" de criar moeda como dívida
privada portadora de juros. Que o serviço de utilidade pública da
moeda
devesse ser o sub-produto da actividade privada de conceder e contrair
empréstimos não é melhor do que quando era o sub-produto
da actividade privada de mineração de ouro.
3. Na ausência de reservas fraccionárias não haveria
possibilidade de bancos falirem devido a uma corrida por parte dos
depositantes e, portanto, nenhuma necessidade de seguro de depósito e
seu consequente risco moral
(moral hazard).
Toda a pirâmide deixaria de entrar em colapso com a
falência de alguns grandes bancos, com isso deitando abaixo o sistema
básico de pagamentos.
4. Não haveria mais oferta monetária a expandir-se durante um
boom e a contrair-se durante uma recessão
(slump),
reforçando a tendência cíclica da economia. E o
rácio da reserva poderia ser elevado gradualmente.
5. A moeda seria emitida pelo Tesouro e gasta na existência de bens e
serviços públicos.
O montante de moeda emitida seria limitado pelo montante de moeda que o povo
estivesse voluntariamente desejoso de manter ao invés de
trocá-la por riqueza real.
Se o Tesouro emitisse mais do que aquele montante, o povo o gastaria em bens
reais, conduzindo em alta o nível de preços. Isso seria o sinal
para o Tesouro imprimir menos moeda e/ou elevar impostos. O alvo
político do Tesouro é um índice de preço constante,
não a taxa de juro, a qual é deixada às forças de
mercado e portanto nunca seria negativa.
O valor interno da divisa é determinado pela manutenção de
um índice de preço constante e, portanto, o dólar deixa de
ser um "parâmetro elástico" do valor. O valor externo da
divisa seria determinado por taxas de câmbio a flutuarem livremente.
Isto é uma questão política demasiado grande para decidir
em 1000 palavras. Mas espero pelo menos levantar a suspeita em mentes
razoáveis de que uma exigência de reserva de 100% faz muito mais
sentido do que uma política de taxas de juro negativas.
Do mesmo autor em resistir.info:
De uma economia de crescimento fracassado a uma economia de estado estacionário
A ciência económica num mundo repleto
O que é o factor limitativo?
Marx e Malthus no Nordeste brasileiro
[*]
Professor da Universidade de Maryland, EUA,
hdaly@umd.edu
O original encontra-se em
real-world economics review,
nº 76, 30/Setembro/2016, pp. 2-4,
www.paecon.net/PAEReview/issue76/Daly76.pdf
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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