A boa solução de Hamurabi
Acerca da crise sistémica disparada pela actual pandemia
Transcrição de observações emitidas na
1st
ASECU
Teleconference 'Systematic Crises Triggered the Current Pandemic & Progressive
Way-Outs, 08/Maio/2020
por Michael Hudson
Bem, penso que foi correcto organizar esta conferência a fim de destacar
que a crise pandémica de hoje acelera e intensifica as
contradições internas que se têm acumulado. A culpa de
muitas destas contradições está simplesmente a ser
atribuída ao vírus. Mas há um problema subjacente que o
vírus está a revelar e a transformar numa crise. O problema
subjacente é o das dívidas que se acumularam durante as
últimas décadas.
Estamos numa situação semelhante à de uma guerra.
Há vencedores e há perdedores numa guerra. Neste caso o vencedor
é o agressor o sector financeiro. Suas exigências de
pagamento estabeleceram o cenário para a ruptura económica de
hoje. Tem sido este o processo ao longo da história. A finança
sempre foi o grande factor desestabilizador. Exactamente agora, há
negócios lojas de retalho, restaurantes, hotéis, linhas
aéreas e outros que estão a ser encerrados ou estão
a operar só com pequena capacidade muito abaixo dos níveis de
equilíbrio
(break-even).
Estes negócios não são capazes de pagar suas rendas
estipuladas ou o serviço de dívida hipotecário. Seus
proprietários não são capazes de pagar seus bancos.
Trabalhadores têm sido dispensados
(laid off)
e são incapazes de pagar seus senhorios ou credores. Assim, eles
estão a cair mais profundamente em dívidas. Estados inteiros e
cidades, como New York State e New York City, estão a ser espremidos.
Além de terem de pagar o seguro de desemprego local, eles têm de
manter infraestrutura básica e serviços sociais. Mas as suas
receitas fiscais estão a afundar em consequência da
redução de impostos sobre vendas e sobre rendimentos. Assim, a
pandemia está a criar uma crise orçamental como parte da crise
geral da dívida e do imobiliário.
A pergunta é: como é que saímos disto? O que está a
acontecer é o que contratos legais chamam um caso de força maior
(Act of God).
O que fazer quando a actividade económica é interrompida e o
fluxo de pagamentos que as pessoas têm todos os meses seu
serviço de dívida, suas rendas ou sua hipoteca, ou seus
cartões de crédito e outros despesas básicas permanentes?
O que fazer quando elas não podem ser pagas? Penso que esta crise
está a por o problema a nu. Trata-se de um problema que se verificou na
civilização ocidental durante os últimos 2000 ano. Mas o
que é impressionante é como antigas civilizações
manusearam este problema muito mais habilmente. Elas assim o fizeram de um modo
completamente diferente da maneira como outras civilizações
manusearam as coisas.
Já escrevi muito acerca da arqueologia da Era do Bronze no antigo
Médio Oriente. Foi onde teve origem a estipulação do
"Acto de Deus". Ela apareceu na Leis de Hamurabi, cerca de 1750 AC. O
problema que os babilónios tinham de enfrentar era o que fazer quando
há uma inundação, uma seca, guerra ou pandemia. Quais
deveriam ser as regras quando, subitamente e do nada, os agricultores e o
conjunto dos cidadãos sobre a terra são tornados incapazes de
plantar e colher, a partir do que tinham de pagar as dívidas que haviam
incidido durante o anos e que estão vencidas. Eles também deviam
impostos, a arrendatários ou outra rendas que não podiam ser
pagas.
Hamurabi foi bastante específico acerca de como manusear esta
situação. O Parágrafo 48 das suas Leis dizia que haveria
uma dívida e uma amnistia fiscal quando o deus do tempo, Adad, criasse
uma inundação ou impedisse de outra forma o pagamento de
dívidas e outras obrigações. Se o deus da tempestade
inundasse as terras, as dívidas e as rendas não tinham de ser
pagas. Um recomeço sobre novas bases era feito em
condições de equilíbrio na estação de
colheitas seguinte.
O problema básico era semelhante ao de hoje. Como é que uma
sociedade restaura a continuidade e salva-se a si própria da ruptura
criando uma perda permanente e a distorção dos relacionamentos de
riqueza e de rendimento existentes? O que Hamurabi e todos os outros
governantes babilónios, sumérios e os demais do Médio
Oriente fizeram entre cerca de 2500 AC e o primeiro século AC foi
proclamar amnistias em tais circunstâncias. Se não o tivessem
feito, os agricultores não teriam sido capazes de pagar aos seus
credores e teriam caído na servidão
(bondage).
Ficariam a dever seu trabalho e suas colheitas aos seus credores.
Isto teria causado um grave problema fiscal para os governantes. Se as
vítimas de uma falha de colheita ou de outra interrupção
económica tivessem de pagar aos seus credores com o seu trabalho e
excedentes de colheita, o imposto sobre este trabalho e esta colheita
não ficariam disponíveis para pagar ao palácio os seus
direitos normais de impostos e deveres de trabalho da corvéia para
construir infraestruturas ou mesmo servir no exército. O
equilíbrio social e a continuidade teriam sido destruídos
a partir de dentro. Assim, quando Hamurabi e todos os governantes da sua
dinastia proclamaram uma folha limpa
(clean slate)
cancelando as dívidas e as rendas em atraso que se haviam acumulado sem
pagamento, ao proclamar um retorno à situação normal
impedia-se a emergência de uma oligarquia credora à procura do seu
próprio interesse, diferente daquele do palácio.
Tudo isto mudou nos tempos romanos. A antiguidade clássica protegeu as
elites financeiras e rentistas. Cícero e os outros líderes
romanos disseram que todas as dívidas tinham de ser pagas, mesmo (ou na
verdade, precisamente porque!) isto levava à escravização
dos romanos e gregos mais pobres. A oligarquia credora de Roma utilizou toda
crise como uma oportunidade para arrebatar a terra dos pequenos
proprietários, para forçar a população à
servidão e para obter controle da sua terra.
Estamos a ver a mesma dinâmica básica ocorrer por todo o mundo
ocidental pós romano. Credores estão agora a planear comprar o
imobiliário em dificuldades a senhorios incumpridores quando as suas
rendas não são pagas. Vai ser uma enorme venda em bancarrota.
Grandes fundos de capital privado já anunciaram a sua
intenção de começar a comprar as lojas de retalho que
foram à falência, juntamente com os seus bens imobiliários.
Dizem a indivíduos que são incapazes de pagar suas
dívidas, trabalhadores que foram dispensados, para contrair
empréstimos junto aos seus fundos de pensão ou às suas
contas da segurança social. Isto significa que eles não
estarão a receber o rendimento da pensão que precisam para viver.
Da mesma forma, os estados e as cidades que Jeffrey Sachs mencionou
também estão a enfrentar uma crise de dívida para com os
seus detentores de obrigações. Mitch McConnell, o chefe
republicano do Senado, disse que estados democratas como Nova York, Nova Jersey
e Califórnia deveria cobrir seu défice pela tomada dos fundos de
pensão que estabeleceram para funcionários públicos. A
intenção do sector financeiro é utilizar esta crise para
liquidar os fundos de pensão e transferir as poupanças dos que
vivem de salários para pagar os detentores de títulos e outros
credores. As promessas de pensões que governos estaduais e locais
fizeram em troca da não reivindicação de salários
mais altos estão para ser liquidadas.
As dívidas que foram acumuladas estão a ser utilizadas como uma
táctica de guerra financeira. É mais eficiente do que uma guerra
militar. A dívida tem sido utilizada para remover os activos das pessoas
da classe média, de proprietários de casas, de empregados de
fundos de pensão, para sugar as suas poupanças e propriedades
para o topo da pirâmide económica. A crise da pandemia criou um
campo de batalha. Suas regras têm sido escritas pelo sector financeiros e
seus lobistas como uma oportunidade para a maior captura de propriedade e
financeira desde a Grande Depressão.
O resultado será que grande parte das economias americanas e europeias
estão em vias de se parecer como a economia da Grécia cinco anos
atrás, quando o país foi incapaz de pagar suas dívidas em
euros. Pode-se encarar a Grécia como o futuro dos Estados Unidos,
catalisado pela pandemia do coronavírus.
OS GRANDES VENCEDORES
Obrigado, muito obrigado, Michael. É a sua vez, mas permita-me
interromper porque há uma pergunta extra dirigida a si e aos outros:
quem são os grandes vencedores, em termos económicos, após
os desenvolvimentos correntes?
Falarei acerca das perguntas em ordem inversa, principiando pela ideia de que
possa haver uma inflação para ajudar a liquidar as dívidas.
É exactamente o oposto: O que estamos a enfrentar agora é uma era
de deflação da dívida. É a pior
deflação de dívida desde a Grande Depressão.
Já descrevi como vai haver grandes incumprimentos no imobiliário,
especialmente para o imobiliário comercial, para lojas e todos os outros
negócios que estão a ficar sem rendimento enquanto as suas rendas
têm-se acumulado. Se vamos ter uma cessão de
operações durante pelo menos mais três meses, sem
rendimento para lojas, entretenimento, salas de cinema e museus, pagar
três meses de rendas atrasadas não é viável.
Não há qualquer modo de lojas, ou muitos assalariados, possam
ganhar o suficiente para pagar a renda a partir do trabalho normal e do
negócio. Assim, vão ficar sem negócio.
Vai haver uma onda de falências, a que se seguirá a venda de bens
imobiliários a preços de liquidação. O desemprego
vai levar a níveis salariais mais baixos e haverá também
cortes na despesa pública com serviços sociais, transportes e
outros programas normais. Privatizações a preços vis
ocorrerão, tal como as de Margaret Thatcher na Inglaterra. Isto vai
agora ser imposto à Europa. É possível que a Zona Euro se
desfaça se não mudar as suas regras para permitir que a
Itália e a Espanha sobrevivam. Mas actualmente as regras da Zona Euro
são que todo o dinheiro, todo o crédito que é
necessário para o crescimento europeu, deve ser emprestado a juros junto
aos bancos.
Os bancos podem criar este dinheiro nos seus teclados electronicamente. O
governo poderia fazer o mesmo, mas abdica deste privilégio em favor do
sector bancário privatizado. Como explica a Teoria Monetária
Moderna, um banco central pode simplesmente imprimir o dinheiro que é
necessário para alimentar o crescimento económico. Mas o sector
financeiro conquistou os corações e mentes dos banqueiros
centrais, desde a Europa até aos Estados Unidos.
O problema é que estes bancos não emprestam dinheiro para criar
meios de produção ou meios de vida. Eles não emprestam
dinheiro para construir fábricas. Os bancos emprestam dinheiro contra
activos já existentes, principalmente imobiliário, casas,
edifícios e também empresas e para atacantes corporativos
(raiders)
comprarem outras empresas a crédito. Assim, o efeito destes
empréstimos bancários tem sido inchar o preço do
imobiliário, porque uma casa ou edifício vale seja o que for que
um banco empreste contra ele.
O sector financeiro torna-se cada vez menos produtivo e mais predatório.
Isto tem impedido governos europeus de terem um banco central que direccione
gastos deficitários para a economia real. Só os bancos e o sector
financeiro, a elite do Um Porcento, são apoiados, como nos Estados
Unidos. Dez milhões de milhões
(trillion)
de dólares colocados na economia, principalmente nos mercados de
acções e financeiros, no mercado de títulos e no mercado
imobiliário, mas não na produção
A Zona Euro não faz isso. Isto significa que os governos da Europa
não são realmente democráticos. A Europa é
governada pelo Banco Central Europeu. Trabalha para os seus clientes, os bancos
comerciais. E os banqueiros comerciais dizem: "Queremos fazer a economia
do crédito passar fome para que nós, os banqueiros comerciais,
possamos criar moeda para emprestar aos nossos clientes e cobrar juros e taxas
financeiras. A nossa própria especulação financeira
[é] que todo o crescimento, o excedente que a Europa produz, deveria ser
entregue ao sector financeiro". Foi para isso que os europeus votaram. Com
efeito, votaram por salários mais baixos, cortes nos serviços
públicos e pensões mais reduzidas. Estes padrões de vida
são ameaçados pela forma como a dimensão financeira da
crise do coronavírus está a ser gerida.
Assiste-se agora a uma disparidade entre a Itália e os países
mediterrânicos e os do Norte da Europa. Os países precisam de
crédito para se recuperarem. Mas a Zona Euro recusa-se a fornecer o
crédito necessário para superar a suspensão da actividade
económica do coronavírus e as suas consequentes dívidas,
rendas e outras obrigações não pagas
[NR]
. A Zona Euro está a tratar a Itália, Grécia, Portugal e
Espanha tal como o Presidente Trump aqui na América está a tratar
os estados do Partido Democrata como Nova York, Nova Jersey e
Califórnia. O efeito é a criação de uma crise
deflacionária. Isso impossibilita o pagamento das dívidas e
rendas acumuladas.
Podemos ver uma tomada de poder a criar algo muito semelhante ao feudalismo.
Nos Estados Unidos isto é sugerido pelos empréstimos a
estudantes, ou pelos empréstimos a assalariados garantidos pela promessa
do devedor de pagar 10%, 20%, 25% de tudo o que ganhar durante o resto da sua
vida. Isto é como um imposto, mas é realmente uma forma de
servidão (peonage) da dívida. É um pagamento muito
semelhante ao que os servos medievais tinham de entregar aos seus senhores
sobre o seu excedente económico. Bem, agora os assalariados, pequenos
negócios e mesmo grandes negócios na América e na Europa
vão ter de entregar ainda mais dos seus ganhos ao sector financeiro a
fim de poderem sobreviver.
Isto pode parecer uma forma louca de organizar a sociedade, mas é como a
civilização ocidental tem sido estruturada na base da
protecção dos direitos dos credores, não na
solvência dos devedores e no equilíbrio social e continuidade
geral. Ao contrário das sociedades não ocidentais, ao
contrário mesmo da China de hoje, o crédito na Europa e na
América é privatizado. A oferta de crédito, tal como
dinheiro, deveria ser uma utilidade pública. Tal como a saúde
pública deveria ser um serviço de utilidade pública. Tal
como as estradas e a comunicação deveriam ser um serviço
de utilidade pública. A Europa deixou que fosse privatizada de uma forma
agressiva e predatória.
Na medida em que governos subordinam a vontade dos eleitores a tudo o que os
bancos centrais lhes digam, isto não é uma democracia. Jeffrey
mencionou anteriormente o que pensava Aristóteles. Aristóteles
explicou uma espécie de eterno triângulo político. Ele
dizia que muitas constituições pareciam ser democráticas,
mas elas realmente são oligárquicas. Isto porque as democracias
tendem a evoluir para uma oligarquia. A oligarquia transforma-se em
hereditária, numa classe dominante aristocrática. Finalmente,
graças aos céus, alguns dos aristocratas ricos combatem entre si
próprios e tentam como fez Cleistenes em Atenas em 406 AC
levar as massas para o seu campo e tornam-se democráticos a fim de
mobilizar apoio entre a cidadania contra os outros aristocratas. Então
há uma revolução democrática, mas a democracia mais
uma vez volta a desenvolver-se numa oligarquia. Esse é o eterno
triângulo político descrito por Aristóteles.
E é isso que se tem na Europa. Já não é mais uma
democracia; é uma oligarquia que se transforma no mesmo tipo de
aristocracia hereditária que ocorreu na antiguidade clássica.
Muitos de vós esperavam que a Europa tivesse derrubado a aristocracia
após a Primeira Guerra Mundial, quando na verdade se livrou dos reis e
da realeza. Mas abriram o caminho para um novo tipo de oligarquia,
transformando-se numa aristocracia hereditária, a das finanças.
Essa é a tarefa que tem diante de si para resolver. A única coisa
que posso dizer é que, talvez, esta crise tenha de facto catalisado esta
contradição interna básica e irá criar uma resposta
que lide com a pandemia através do cancelamento de dívidas e da
desprivatização do sector bancário.
29/Junho/2020
[NR] A Comissão Europeia propôs um fundo plurianual (2021-2027) de
750 mil milhões
para a recuperação dos países
da UE, cujos recursos serão obtidos através de empréstimos
conjuntos a longo prazo obtidos no mercado financeiro. Verifica-se assim a
continuação da subordinação da UE ao capital
financeiro.
O original encontra-se em
michael-hudson.com/...
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