A natureza parasitária do actual sistema monetário
Mesmo as pessoas mais educadas, por vezes enganadas pelos media dominantes e os
chamados "peritos", deixam de identificar a causa básica da
actual retracção económica e tendem a confundir o sintoma
(inflação, desemprego, etc) com a causa. Outros factores
incorrectos do seu desencadeamento muitas vezes são atribuídos
à inerente cobiça humana, à super-população,
aos baby boomers
[NT 1]
, ao abandono do padrão ouro, à reserva bancária
fraccionária
[NT 2]
, às divisas fiduciárias, ao super-consumo e até mesmo
à tecnologia.
O sistema monetário tornou-se a jaula global da
escravização alimentada pela dívida que hoje conhecemos
através de uma série de eventos: invenção da usura
(conceder empréstimo em dinheiro a juros compostos), estabelecimento da
reserva fraccionária na concessão de crédito,
privatização da oferta monetária, criação de
bancos centrais, abolição do padrão ouro e
imposição legal de divisas fiduciárias.
Actualmente cerca de 96% do dinheiro nos países ocidentais vêm
à existência como dívida (dinheiro-crédito) criada
por bancos comerciais na forma de promessas de pagamento (IOUs)
[NT 3]
. Os montantes depositados no banco e emprestados são simples registos
na contabilidade, não apoiados por quaisquer activos reais (como o ouro,
por exemplo). O que dá valor a estes montes de papéis normalmente
sem valor é o trabalho humano. Só quando paramos para pensar
acerca disto podemos começar a apreender a natureza profundamente
fraudulenta da concessão de empréstimos bancários: o
tomador do empréstimo compromete como colateral pelo empréstimo
algo que ele ainda não possui (isto é, o carro que ele compra a
crédito) em troca do dinheiro que o prestamista realmente não tem
nas suas reservas.
Vamos resumidamente examinar como são criadas bolhas especulativas e o
efeito que elas têm sobre a economia real. As baixas taxas de juros
estabelecidas pelos Bancos Centrais desencadeiam uma farra de crédito
que atrai pessoas à dívida. Os bancos criam dinheiro
ex-nihilo
(a partir do nada) e emprestam-no a juro, inchando bolhas alimentadas pelo
crédito (dot-com, habitação, imobiliário comercial,
etc) que torna banqueiros e outros especuladores ultrajantemente ricos. Por
definição, temos uma bolha quando o preço de um activo
eleva-se para além do que o rendimento médio pode permitir. Vamos
tomar a actual bolha habitacional como um exemplo. Quando a bolha finalmente
explode, o valor do activo afunda com desastrosas repercussões nos
balanços dos bancos e igualmente dos proprietários das casas:
bancos retomam casas cujo valor está em queda rápida e
proprietários descobrem-se em situação líquida
negativa (o valor de mercado da sua casa é mais baixo do que o que eles
estão a pagar ao banco a cada mês). Uma vez que foi permitido aos
bancos tornarem-se "demasiado grandes para falirem", através
de fusões e aquisições, as elites financeiras instruem
seus políticos fantoches a salvarem-nos, a expensas dos contribuintes.
Utilizando doses maciças de propaganda nos media e de
instilação do medo, as elites lavam o cérebro das massas
levando-as a acreditar que a prosperidade dos bancos é vital para a
estabilidade social e a prosperidade económica. Por outras palavras,
seguir-se-á o caos generalizado se permitirmos os grandes bancos irem
à falência. Inicialmente, a maior parte dos cidadãos parece
acreditar na mentira e aceitam pagar os custos através de aumentos de
impostos e um conjunto de cortes e privatizações de
serviços públicos (educação, previdência,
infraestrutura, cuidados de saúde, etc).
Depois de garantirem o salvamento, os banqueiros premiavam-se a si
próprios com bónus maciços e tentavam reverter aos
negócios de sempre. Mas há um problema: o mundo esgotou-se de
pessoas com crédito respeitável (o idiota seguinte no esquema de
Ponzi). A maior parte dos indivíduos e negócios estão a
naufragar em dívidas e a perspectiva é demasiado negra para
prever qualquer lucro. Portanto os bancos não concedem
empréstimos
(credit crunch)
e os devedores, quando podem, pagam à vista seu saldo em dívida,
drenando dinheiro da economia real. Inicia-se assim uma perigosa espiral de
deflação do dinheiro, provocando bancarrotas, desemprego,
arrestos, definhamento de receitas fiscais e inquietação social.
Enquanto isso o défice do governo dispara, inchando uma dívida
pública já enorme e levando à espécie de crise de
dívida soberana verificada em países como a Grécia,
Islândia e Irlanda, para mencionar uns poucos.
Como chegámos a isto? Vamos dar um passo atrás e ponderar. Um
sistema monetário baseado na usura exige crescimento sem fim, pois o
juro composto cresce exponencialmente ao longo do tempo. Sob esta nova luz
é mais fácil ver porque o
establishment
está tão obcecado com o aumento do PIB, um crescimento
exponencial que simplesmente não é viável num planeta
finito. Não há escapatória: se a economia não
cresceu, não pode ser emitido novo dinheiro-dívida para estender
no futuro os passivos de dívidas existentes. Uma vez que virtualmente
toda a oferta monetária é criada pelos próprios bancos
como dívida, novo dinheiro deve continuamente ser concedido como
empréstimo só para pagar os juros devidos aos banqueiros.
Analogamente, um crescimento zero ou negativo assinala o funeral do sistema
monetário que estamos a testemunhar exactamente agora.
Considerações éticas acerca do parasitismo inerente
à usura certamente seriam apropriadas nesta altura: possuidores de
dinheiro emprestam-no àqueles a quem ele falta, os quais por sua vez
tornam-se seus escravos. Mas a usura também apresenta um problema
matemático prático: os bancos criam só o principal mas
não o juro necessário para reembolsar os seus empréstimos.
Isto resulta numa escassez de dinheiro crónica que afecta todos os
actores do sistema, pois o dinheiro para pagar de volta o juro sobre todos os
empréstimos não existe. Em consequência, todos nós
devemos competir num jogo de soma zero para ganhar alguma coisa que
simplesmente não existe. O dinheiro é ganho por alguns em
detrimento de outros que ficam sem, o que se parece cada vez mais como uma
competição implacável que amplifica grandemente o conflito
social e os desequilíbrios de riqueza.
A constante expansão da oferta monetária necessária para
aliviar uma escassez crónica de dinheiro é a causa principal da
inflação, um confisco furtivo de riqueza dos possuidores de
dinheiro. O sistema monetário poderia ser comparado a um jogo de
cadeiras musical: enquanto a música toca (tanto a oferta
monetária como a economia expandem-se) aparentemente não
há perdedores
[1]
.
O montante do dinheiro-dívida no sistema deve crescer continuamente para
minimizar o risco de uma deflação perigosa. Podemos agora
entender como todas as conversas que ouvimos nos media dominantes acerca da
necessidade de reduzir dívida são de facto apenas um disfarce
enganoso. A dívida está destinada a ser mantida porque todo o
sistema está baseado sobre ela. Qualquer redução de
dívida (tanto pelo reembolso como pelo cancelamento) aumentaria a
escassez de dinheiro, com consequências catastróficas numa
economia disfuncional como a nossa.
Apesar de todos os esforços dos banqueiros centrais para manter o jogo
em andamento, a oferta de dinheiro em muitas economias ocidentais actualmente
está a contrair-se e milhões de pessoas são relegadas ao
frio permanente.
Quando dívida é reembolsada, o falso principal é
progressivamente destruído e o juro permanece como um lucro para o
banco. Se considerarmos que sobre grandes empréstimos reembolsados ao
longo de períodos de tempo muito longos (tais como hipotecas) o montante
do juro cobrado pode facilmente exceder o principal, podemos começar a
apreender a proporção colossal desta fraude bem como a sua
natureza intrinsecamente parasitária.
Armados com este conhecimento, torna-se claro que o sistema monetário
imposto sobre nós está em bancarrota estrutural. Um sistema de
concessão de empréstimos baseado em juro só poderia
funcionar se todo o dinheiro ganho através do juro fosse gasto em bens e
serviços (de modo a que o tomador do empréstimo pudesse
ganhá-lo outra vez), não entesourado ou emprestado outra vez.
Entesourar dinheiro ou emprestá-lo a diferentes tomadores ao mesmo tempo
(como os bancos fazem hoje) provoca a escassez do mesmo e finalmente leva a
incumprimentos em massa.
Penso que a privatização do dinheiro é a principal causa
subjacente da pobreza, escravatura económica, sub-financiamento do
governo e de uma classe dirigente oligárquica que frustra toda tentativa
de arrancá-la das rédeas do poder.
18/Outubro/2010
[1] Há realmente um perdedor: é o ambiente destruído pelo
desenvolvimento insustentável exigido por uma economia conduzida pelo
lucro.
NT
[1]
Baby-boomers:
pessoas nascidas num período de aumento da naturalidade (em especial os
anos 1946-1965)
[2]
Reserva fraccionária:
a prática bancária de emitir mais crédito do que o banco
possui como reserva, aumentando assim a massa monetária em
circulação.
[3]
IOUs (I owe you):
acordo escrito para devolução de uma dívida.
[*]
Analista financeira, venezuelana. Contacto:
ama.morales@yahoo.com
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=21494
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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