A capitalização, ou o pensamento mágico
"Um xelim aplicado no ano do nascimento do nosso Redentor a 6% de juro
composto representaria hoje uma soma maior do que aquela que poderia conter
todo o sistema solar se ele fosse transformado numa esfera de um diâmetro
igual àquele do anel de Saturno".
Este cálculo efectuado em 1773 pelo pastor
Richard Price
provocou émulos. Assim, Patrick Artus pergunta-se
numa nota recente
qual seria a situação dos reformados se tivessem tido fundos de
pensão. Seus cálculos conduzem a esta conclusão
inapelável: um euro contribuído em 1982 daria hoje 21,90 euros em
[regime de] capitalização contra 1,93 euro em [regime de]
repartição. Dito de outra forma, "o custo de ter tido em
França, desde há 40 anos, a [pensão de] reforma somente por
repartição é portanto considerável".
A longa história dos cálculos fantasistas
Este tipo de argumento não tem nada de novo: ele ´
encontrável desde o século passado. Assim, nos Estados Unidos,
Martin Feldstein, partidário resoluto da
privatização da segurança social
, explicava em 1997 que a contribuição de 12,4% do sistema
americano de segurança social poderia "ser substituída por
um depósito de poupança obrigatória equivalente a 1,5% das
receitas" (
Foreign Affairs,
Julho-Agosto 1997).
Em França, Olivier Davanne, num
relatório
de 1998 ao Conselho de Análise Económica (CAE), sustentava o
mesmo ponto de vista:
"Um franco imobilizado durante trinta anos torna-se 1,8 franco ou 4,30
francos conforme seja colocado a 2% (rendimento do regime de
repartição) ou 5% (ordem de grandeza razoável para o
rendimento num longo período de uma carteira diversificada). Assim,
é evidente, para atingir um mesmo nível de
prestações, um sistema fundamentado sobre a poupança
é muito menos custoso (a taxa de retirada pode ser multiplicada por mais
de três quando o rendimento real cai de 6% para apenas 2%)".
Estes cálculos dão vertigem: se se retiver os de Patrick
Artus chega-se ao resultado manifestamente absurdo segundo o qual as reformas
representariam hoje 156% do PIB ao invés de 13,8%! Ora, as
objecções a esta aritmética simplista tão pouco
são novas e limitamo-nos aqui a resumir
uma nota de 2002
.
Os ganhadores e os perdedores
Se o rendimento nacional cresce 2% ano, será possível que a soma
dos rendimentos avance a 5% ao ano? É evidente que não: se
certos
rendimentos crescem mais rapidamente isto equivale a dizer que a sua parte
aumenta e isto implica a baixa compensatória de outras formas de
rendimento. A generalização de cálculos actuariais a todos
os futuros aposentados leva portanto a configurações
improváveis. Todo diferencial entre a taxa de rendimento financeiro e a
taxa de crescimento da economia é, consequentemente, a
indicação de uma distorção na
repartição dos rendimentos: é o famoso r > g
de Thomas Piketty.
Outro argumento avançado por vezes: um sistema por
capitalização estaria melhor preparado para enfrentar as
evoluções demográficas, ou seja, o crescimento do
número de aposentados mais rápido do que o dos [trabalhadores]
activos. As razões pelas quais este argumento é erróneo
são muito esclarecedoras. Elas foram bem resumidas pela
OCDE
em 1998: "Quando a geração do baby-boom começar a
aposentar-se, daqui a 10 ou 20 anos, os representantes desta
geração serão muito certamente vendedores líquidos
de pelo menos uma parte dos activos financeiros que terão acumulado
durante a sua vida activa. Ora, sendo a geração mais jovem muito
menos numerosa, o preço dos activos financeiros poderia encontrar-se
deprimido. Em consequência, não é impossível que a
geração dos baby-boom se aperceba, uma vez já aposentada,
que as reformas que lhes asseguram os fundos de pensão são
inferiores àquelas com que contavam com base na
extrapolação das tendências actuais".
Artus contra Artus
Além disso, o mesmo Patrick Artus reconheceu na época numa nota
de Abril de 1998: "É provável que uma geração
numerosa pague caro (ou até demasiado caro) acções que
revenderá mais barato no momento de se aposentar. Por outras palavras, o
rendimento da aposentadoria é baixo para uma geração
numerosa, enquanto é elevado para uma geração pouco
numerosa". Quanto a Jérôme Cahuzac, então deputado
socialista, em Julho de 1998 ele prevenia: "A transição
maciça para a capitalização faria desaparecer a
própria atracção da capitalização, a saber,
o elevado rendimento real das acções representativas do capital
produtivo".
O âmago do assunto fora apontado por Jean-Michel Charpin no seu
comentário do relatório Davanne: "É preciso explicar
de onde virão os suplementos de bens e serviços. Seria enganoso
dar a entender que eles decorrem naturalmente, mesmo magicamente, da
adopção do princípio de capitalização".
Os dois mecanismos esquecidos
Os resultados fantásticos explicam-se pois pelo esquecimento de dois
mecanismos. O primeiro pode ser resumido nestes termos: "demasiado de
capitalização mata o rendimento". Dito de outra forma, os
rendimentos obtidos pelos activos financeiros não podem permanecer
elevados senão na medida em que os seus detentores são pouco
numerosos. A extensão dos seus privilégios a outras camadas
sociais implicaria a sua "evaporação".
Em segundo lugar, pode-se transferir receitas financeiras mas não os
bens e serviços que eles servirão para comprar. Os bens e
serviços que hoje consomem os aposentados não foram armazenados
há 20 anos, eles correspondem a uma produção
contemporânea. Portanto não há "frigorífico
económico", para retomar a fórmula de Jean Cassandre, que
já denunciava esta "miragem da capitalização" (
Droit social,
nº 6, Junho 1991).
Esta referências antigas deveriam bastar, mas pode-se remontar ainda mais
longe no tempo citando o comentário cáustico de Marx aos
cálculos de Price, em
O Capital:
"A concepção do
capital como valor que se reproduz a si mesmo, aumentando-se nesta
reprodução graças à sua qualidade inerente de valor
que se perpetua e se acresce sem cessar, conduz o Dr. Price às suas
inspirações fabulosas que ultrapassam de longe as quimeras dos
alquimistas".
Tudo isto remete ao fundo da teoria do valor, o que mostra que os cantores da
capitalização não integraram esta lição da
crise recente: a valorização fictícia de activos
financeiros, desconectada da economia real, não pode senão
desmoronar-se.
14/Janeiro/2020
Ver também:
Blackrock & Cia: os fundos de pensões ditam a reforma do sistema para impor a capitalização e colocar as vossas pensões nas mãos deles
[*]
Economista, membro do Conselho Científico do Attac,
hussonet.free.fr
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O original encontra-se em
www.alternatives-economiques.fr/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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