Banqueiros assaltam a regulação bancária
Quando os regulados tomam conta do regulador
por Pilar Camacho
O chefe dos assuntos regulamentares de um dos bancos sistémicos europeus
vai passar a chefiar a Autoridade Bancária Europeia (EBA), a entidade
junto da qual fazia lobby e que actua como reguladora do mundo bancária
da União Europeia. É como oferecer as chaves de casa ao
assaltante.
Até agora, a chefia da EBA era um dos postos chave do controlo da
regulação bancária que escapava ao domínio dos
banqueiros. O Banco Central Europeu resolveu abolir essa situação
que perturbava o domínio do sistema bancário pelos "grandes
bancos que não podem falir" ao nomear o espanhol José Manuel
Campa para o cargo.
José Manuel Campa era, desde 2014, chefe dos assuntos regulamentares do
Banco Santander à escala mundial. Isto é, dedicava-se a fazer
lobby junto das entidades reguladoras do universo bancário,
designadamente a EBA.
Campa "era pago para fazer lobbying junto de reguladores como a EBA de
modo a mudar as regras para favorecer os grandes bancos como o Santander ou,
pelo menos, para tentar que as regras não os incomodem demasiado; e a
partir de agora está encarregado de supervisionar a
aplicação dessas regras", comentou a
organização Finance Watch a propósito do novo chefe da EBA.
Antes disso, entre 2009 e 2011, Campa fora secretário de Estado da
Economia do governo espanhol, numa altura em que os governos dos Estados Unidos
e da União Europeia geriam a crise financeira através da
transferência de tudo quanto era possível retirar aos
cidadãos para enxertar nos bancos "em crise" uma
situação provocada pelas suas actividades gananciosas e
delituosas.
Os mesmos meios, os mesmos interesses
A figura de José Manuel Campa é mais um exemplo do vaivém
contínuo de chefes da grande banca, e de outras áreas, entre os
sectores público e privado, atropelando todas as normas que deveriam
evitar conflitos de interesses, numa promiscuidade da qual as principais
vítimas são os cidadãos.
A Autoridade Bancária Europeia actua no quadro do Banco Central Europeu
e da Comissão Europeia. Em termos gerais, dedica-se formalmente a uma
regulação que envolve normas para melhor enquadrar as actividades
bancárias e assegurar a estabilidade de todo o sistema bancário.
A EBA trata, por exemplo, de questões como a separação das
actividades bancárias, a taxação de produtos financeiros,
as regras para calcular capitais próprios, medidas que envolvem
interesses avaliados em milhares de milhões de euros.
Como se não tivesse havido crise
A designação para a EBA de uma figura escolhidas nos meandros dos
lobbies do sistema bancário enquadra-se numa tendência acentuada
pela entrada em funções da administração Trump nos
Estados Unidos, que é a de destruir metodicamente todas as medidas de
regulamentação postas em vigor na sequência da
falência do Lehman Brothers, em 2007.
A banca europeia tem procurado seguir o mesmo caminho, através da
colocação de peças estratégicas à frente das
entidades susceptíveis de contribuir para esse objectivo. A EBA era uma
das organizações que, até agora, escapara a essa tomada de
controlo.
Nos bastidores da Comissão reconhece-se a existência destes jogos
de interesses, que se manifestam, designadamente, por impedir que haja
obstáculos à circulação de banqueiros e seus
representantes entre as actividades pública e privada.
O objectivo "é conseguir voltar a uma situação na
qual nada tenha mudado desde 2008", comenta um assessor da
Comissão. Para isso, acrescenta, é essencial "recorrer
às mesmas pessoas, que frequentem os mesmos meios, partilhem os mesmos
pontos de vista e os mesmos interesses que regulam a marcha do mundo da
finança".
27/Fevereiro/2019
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=268
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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