Taxas de juros de banco central tão baixas não têm
precedentes desde há dois séculos
Uma visão derrotista do porvir
[NR]
por Alexis Toulet
O sistema financeiro global jamais ultrapassou realmente a crise de 2008 e a
sua sobrevivência não está assegurada senão porque
todo o conjunto das moedas fiduciárias foram comprometidas para
assegurá-lo basta uma olhadela na história longa das taxas
de juros da banca central para verificar.
Este sistema revelar-se-á estável e o que dizer do futuro das
moedas fiduciárias que o garantem? Só o futuro o dirá,
pois a situação é verdadeiramente sem qualquer precedente
histórico.
Neste gráfico que mostra a
evolução da taxa de juro de base do Banco de Inglaterra
, encontrei matéria de reflexão.
Taxa oficial do Banco da Inglaterra de 1830-2020
Fonte: Resolution Foundation
A vantagem do mesmo é situar as evoluções recentes, em
particular a crise financeira iniciada em 2007-2008, no longo prazo.
Já se sabia que a política de "taxa de
juro zero"
(ZIRP em inglês) como aliás a
"flexibilidade quantitativa"
(QE) praticada pelos principais bancos centrais afastava-se muito
fortemente da habitual e de tudo o que classicamente foi considerado como a
"boa gestão" de uma moeda fiduciária.
Este gráfico mostra
até que ponto
esta política é sem precedentes.
Entre 1830 e 2008, a taxa básica de juros do Banco da Inglaterra nunca
caiu abaixo de 2%. Desde 2008 ela nunca subiu acima de 2%, nem mesmo de 1%. Por
quê: porque se o Banco da Inglaterra, o BCE, o
Federal Bank
americano etc fizessem tal coisa, a bolha do endividamento mundial
público e privado explodiria. Ora, uma tal coisa é politicamente
impensável. Eis porque estas taxas jamais serão elevadas a
níveis adequados a uma "boa gestão".
Das duas uma:
1. Ou entrámos numa "nova norma" sustentável, um novo
sistema monetário e financeiro que é estável em si mesmo e
pode-se demonstrar sustentável no sentido pleno do termo seus
únicos limites físicos sendo a limitação das
reservas de energia fóssil e os crescentes desequilíbrios que
estamos infligindo à biosfera. Neste novo regime, como
Paul Jorion observou recentemente numa entrevista a Le Média
, o endividamento importa pouco, uma vez que a taxa de juros paga por um
título (público ou privado) pode ser mantida tão baixa
quanto necessário, se preciso fazendo comprar estes títulos
directamente pelo banco central (como o
Federal Bank americano
) ou indirectamente (como o BCE europeu). A única coisa que importa,
claro, é ter o apoio do Banco Central, que em última
instância decide quem terá de pagar esta taxa de juros
praticamente nula e quem deverá pagar uma taxa mais normal que
o sufocará.
2. Ou este novo padrão é, de facto, insustentável.
Chegará ao fim num período de tempo diferente do "longo
prazo", talvez muito antes do pico das energias fósseis ou dos
piores colapsos ambientais e, uma vez que só pode terminar na
sequência de acontecimentos catastróficos equivalentes a uma perda
de confiança maciça nas próprias moedas, bem, é
assim que acabará de facto. Se ele continua doze anos depois é
sobretudo devido à enormidade do que foi penhorado para a
sobrevivência e continuação "tal qual" do sistema
financeiro global. Nada menos que a confiança nas principais moedas
fiduciárias mundiais: dólar, euro, yuan, iene, libra, franco
suíço, etc
[1]
!
No primeiro caso, estamos diante de um sistema de poder novo, que é
tão centralizado quanto o defunto poder soviético, embora seja
tão desigual quanto o mais cruel dos capitalismos. Os novos mestres do
mundo, ou seja, os Estados (Estados Unidos, China, etc) e os sistemas de
Estados (UE) que controlam uma das principais moedas, em simultâneo
centralizam um poder sem precedentes sobre o conjunto do sistema
económico e utilizam-no para manter ou mesmo reforçar
desigualdades agudas e até crescentes entre os 1% ou mesmo 0,1%
e os outros. Na medida em que eles não forem "demasiado
longe", de que se lembrarem do ditado "há que
tosquiar ovelhas e não esfolá-las
", seu poder permanecerá sem dúvida virtualmente
inexpugnável
[2]
No segundo caso, o sistema financeiro global é realmente tão
estável quanto um balão que incha indefinidamente e a pergunta
é o que pode adiantar ou retardar a sua explosão. Questão
aberta. Uma parte desta questão poderia ser saber se o balão
corre o risco de encontrar uma agulha pelo caminho, digamos por exemplo um
substituto capaz de "substituir" as moedas fiduciárias aos
olhos dos principais detentores de capital ? porque, claro, é
acima de tudo a opinião deles que conta, não a do homem da rua.
O ouro é a solução clássica, é uma agulha
sólida e comprovada. Mas é relativamente imóvel, é
igualmente um factor conhecido pois a sua interacção com moedas
fiduciárias já ocorre há várias
gerações. Moedas descentralizadas
peer to peer
em primeiro lugar o bitcoin é outra coisa: a agulha
é muito mais pequena, a sua sobrevivência está longe de
garantida numa tentativa tão inovadora. Mas ela move-se rapidamente e
isto é um factor muito novo, cuja interacção com as moedas
fiduciárias ainda é amplamente desconhecida e poderia
potencialmente ser devastadora, especialmente quando o próprio sistema
das moedas fiduciárias está fragilizado, tendo de perdurar por si
só o fardo da continuação em termos idênticos de um
sistema financeiro mundial profundamente distorcido e sobrecarregado de
dívidas irrecuperáveis.
Na ausência de uma agulha, quer seja o ouro ou a criptomoeda, talvez seja
preciso imaginar que o balão ainda pode inchar por muito tempo. Mesmo
que acabe por explodir no final, talvez sem aviso prévio.
Em ambos os casos,
a situação é verdadeiramente sem qualquer precedente
histórico.
02/Janeiro/2021
(1)
Na verdade, são as próprias moedas fiduciárias que servem
de garantia ao sistema financeiro mundial. Pode-se julgar pelas
declarações de Neel Kashkari
, presidente do Banco Federal de Minneapolis e antigo responsável do
programa de recompra de ativos "problemáticos"
do Banco Central americano em 2008:
- O que diria à pessoa que se prepara para retirar US$3000 numa caixa
multibanco?"
- Que não é preciso isso. Sua caixa multibanco é seguro,
seu banco está em segurança, há líquidez suficiente
no sistema financeiro e
há uma quantidade infinita de liquidez no Federal Reserve.
Faremos
o que for necessário
para garantir que haja liquidez suficiente no sistema bancário.
Observe que, apesar de a visão do Sr. Kashkari poder ser um tanto
inquietante, sobretudo quando diz as palavras
"quantidade infinita de liquidez",
ele está absolutamente certo.
É absolutamente exacto que há uma quantidade infinita de liquidez
no Federal Reserve dos EUA. Tal como em qualquer outro banco central.
Em contrapartida, apenas cerca de 190.000 toneladas de ouro foram
extraídas até agora e apenas 21 milhões de bitcoins
serão minerados.
(2) Se a opção n°1 for verificada, ou seja, se o sistema
financeiro actual pode ser mantido contra ou através de crises
financeiras, então a questão da estabilidade do poder dos bancos
centrais, dos Estados que os controlam e da classe social dos 0,1% que deles
beneficiam é de facto a questão de saber se eles serão
capazes de "não exagerar", ou seja, tosquiar ao invés
de esfolar. As revoltas, as revoluções e as outras rupturas
sociais geralmente não ocorrem senão quando um número
suficiente de pessoas sofre o suficiente. Isto pode ser desagradável,
mas historicamente quando a situação é
"suportável", quando se pode convencer de que ela é
"normal, de facto" ou quando se teme que piore, a
resignação é a atitude mais comum.
[NR] A publicação deste artigo é feita para estimular a
discussão, não significa um endosso de resistir.info à
conclusão do autor. O autor não menciona que a maior parte da
presente "liquidez" é constituída por capital fictício que deverá ser
esterilizado e que as "agulhas" para isso são mais do que muitas.
O original encontra-se em
www.noeud-gordien.fr/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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