Como se reconhece uma revolução em França?

por Fabrice Aubert

Introdução: Primeiro, agradecer a Le Grand Soir pela publicação de artigos tão ricos e complementares da situação atual. Se existe em França um meio de comunicação, em termos de base de informações e de análise, é certamente o LGS que mereceria o epíteto de " amigo do povo " [1] (protestaríamos se não houvesse acordo – nota intrusiva do Grand Soir)

Este artigo é de um renegado da primeira hora, que está do lado dos amarelos contra os vermelhos que declamam… "Como é? Tu, Fabrice, militante da CGT, comunista impenitente, podes ousar pretender contra as Direções Revolucionárias que o movimento dos 'coletes amarelos' é de carácter revolucionário? Não vês que está cheio de fascistas?" (12 de novembro, U.L. de Martiques).

Mas uma revolução não se reconhece pela cor dos coletes, mas por:

  • uma situação histórica repleta de contradições
  • conteúdos de queixas expressas
  • o modo de se organizar
  • os símbolos apresentados.

O objetivo deste artigo é medir até que ponto é revolucionária a análise que se pode fazer dos acontecimentos atuais, colocando estas questões de fundo.

Sintetizemos: Uma revolução em França, como a de 1789, caracteriza-se pelos seguintes elementos:

  • Pôr em causa a injustiça fiscal,
  • Pôr em causa as desigualdades do sistema,
  • Não dar ouvidos e não ter em conta revoltas rurais precedentes (revoltas do pão),
  • Pôr em causa o poder e a sua violência,
  • Escândalos político-financeiros,
  • Escrita de cadernos de reivindicações,
  • Movimento da província para Paris,
  • Criação de símbolos que unificam o povo (barrete frígio), a Marselhesa e a bandeira tricolor,
  • Centralidade da França no mundo (Valmy),

Chamo a atenção do leitor que, se está de acordo com esta declinação, no limite, pode não ler o [resto do] artigo.

O que é que se passou em 1789? Na sequência das más colheitas sucessivas, que provocaram períodos de fome, e da recusa de pagar novos impostos (que visavam financiar a guerra do "novo mundo" [3] , o povo, depois das revoltas camponesas anteriores, obtém a convocação dos Estados Gerais. Perante a recusa do rei de aceitar o cálculo por deputados e não por ordem (clero, nobreza e terceiro estado), os deputados que tinham cadernos de reivindicações proclamam-se deputados do povo e juram "não se separarem antes de darem uma Constituição à França" (juramento do "jeu de paumes"). Sublinhemos que esses deputados representam sobretudo a "pequena burguesia da província" que não quer continuar a pagar os prazeres do rei. Acrescentemos o escândalo do colar da rainha, a especulação com os cereais (o trigo), agitemos tudo e caímos nas datas de 14 de julho de 1789 e de 4 de agosto de 1789 [4] que é a real noite da Revolução que transformou a França de monarquia de direito divino em república "una e indivisível". A fuga do rei para Varennes e outros episódios visando combater a Revolução apenas contribuirão para enraizar e aprofundar esse combate.

Batalha de Valmy. A batalha de Valmy dá uma repercussão mundial à Revolução porque, pela primeira vez, um exército de recrutas mal armados, comandados por "sans culottes" vence um exército de profissionais, ao som da Marselhesa e hasteando a bandeira tricolor da nação. Goethe, presente no local, declarou: "De hoje em diante, a partir deste local, começa uma era nova na história do mundo".

As réplicas: A Revolução de 1789 foi sempre combatida pela nobreza restante e pela burguesia financeira, que prefere o regresso do rei, ainda hoje… "A democracia tem sempre um aspeto incompleto porque não se basta a si mesma…/… Há uma falta no processo democrático e no seu funcionamento. Na política francesa, essa ausência é a figura do rei, cuja morte, segundo penso, não foi por vontade do povo". Macron [5]

É por isso que a nossa História, a história da nação, conheceu tantas revoluções que são outras tantas réplicas sísmicas do tremor de terra original. As revoluções de 1930, 1848, 1872, são essas réplicas que, por sua vez, alargaram e aprofundaram o conteúdo revolucionário para a emancipação humana.

A Resistência foi uma Revolução Patriótica: 1944 é apresentado muitas vezes, e com justiça, como uma insurreição patriótica, para a libertação do território nacional, mas foi muito mais do que isso, porque "a insurreição nacional" não se limitou a expulsar os ocupantes, também serviu para instalar uma nova República, cujo objetivo foi aplicar um programa politico denominado "os dias felizes". É o programa que define a unidade da Resistência (CNR/Conselho Nacional da Resistência) e leva à insurreição. É, pois, um programa político, caracterizado como revolucionário (segurança social, nacionalizações, etc) que derruba o poder de Vichy e reinstala os símbolos da França (a Marselhesa). Dada a profundidade do programa político que integra a "planificação económica" e a criação de "comissões de empresa" (forma de sovietes liberais) [6] , podemos dizer que se trata de uma versão sans culottes da revolução bolchevique de 1917, em que, aliás, o povo soviético é visto como o povo que salvou a Europa do jugo nazi (17 milhões de mortos).

O levantamento de novembro de 2018: Se estamos de acordo com o primeiro parágrafo deste artigo, é preciso retomar ponto por ponto e observar se ali encontramos elementos desta matriz histórica.

1) A injustiça fiscal: Foi o que desencadeou a insurreição: o aumento dos impostos sobre a gasolina e, sobretudo, o gasóleo, que é o principal combustível usado, dada a expulsão do centro das cidades (especulação imobiliária) e as políticas precedentes que levaram muitos dos nossos concidadãos, sobretudo os menos ricos, a comprar gasóleo, porque estava sujeito a menos impostos e o veículo podia durar mais tempo. Além disso, como todos ouvimos agora, a utilização do veículo é obrigatória, porque é a ferramenta de mobilidade imposta para trabalhar, ou seja, para sobreviver. A este fenómeno de tributação dos pobres, junta-se em contraste o extremismo da isenção dos ricos com a supressão do imposto sobre a fortuna e a taxa única, cujo gráfico abaixo representa a violência imposta pela burguesia financeira.

A questão colocada era a da injustiça fiscal perpetrada por este poder e, segundo a qual os cidadãos medem a violência no quotidiano. Esta denúncia das taxas e não do imposto remete para a constituição de 1791, no seu artigo 2: "Que todas as contribuições serão repartidas entre todos os cidadãos igualmente em proporção com as suas faculdades", o que, com os impostos atuais, que afetam todas as receitas de modo igual (imposto proporcional) contribuem, de facto, para a injustiça fiscal.

2) Pôr em causa as desigualdades do sistema: De há uns 30 anos a esta parte, as políticas instituídas e aplicadas (os lucros individuais como condição do desenvolvimento geral) [7] só contribuíram para o desenvolvimento das desigualdades e, sobretudo, das desigualdades de receitas, como se mostra no gráfico abaixo. Observamos que, tal como para a baixa dos impostos, são as receitas mais elevadas que sofrem o aumento mais importante. Além disso, como se mostra no gráfico da direita, é a acumulação das receitas mais elevadas que cria o património que se vai acumulando, desenvolvendo ainda mais as desigualdades sociais. Estas desigualdades de património que se vai acumulando não são naturais, são o produto de um sistema. São uma violência contra a sociedade. Como já Victor Hugo escrevia, é sempre " da desgraça dos pobres que se faz o paraíso dos ricos ".

Em complemento – como o objetivo do artigo não é tratar de todas as desigualdades económicas do sistema – sugiro que leiam: lintegral.over-blog.com/... , sublinhando que estas violências não datam só de Macron, que, como sempre na História, também é herdeiro das políticas anteriores que ele se limita a ampliar.

'.

3) Não dar ouvidos e não ter em conta revoltas rurais precedentes (revoltas do pão): É preciso lembrar que a situação atual, tal como na revolução de 1789, foi precedida de acontecimentos que anunciavam a explosão atual. Recordemos:

  • O referendo de 2005 que rejeitou o tratado europeu (que o Poder não teve em conta)
  • As revoltas dos subúrbios de 2005
  • As manifestações contra a crise de 2008
  • Os alertas das associações quanto ao aumento da pobreza
  • As greves e manifestações contra as reformas das pensões
  • do código do trabalho
  • As vigílias noturnas
  • A ZAD [Zona a Defender] de Notre-Dame-des-Landes

4) Pôr em causa o poder e a sua violência: O presidente Macron entendeu que curto-circuitando os órgãos intermédios (partidos políticos, sindicatos, associações), podia impor as reformas dos seus mandantes (código do trabalho, fundos de investimento, etc). Em 1789, o rei assinava os decretos com a expressão "é esta a minha vontade", hoje os decretos do rei assumem a forma de mensagens de violência absoluta, tais como " atravessa a rua e encontras um emprego ", que é duma violência e duma morbidez sem precedentes. As manifestações " não declaradas ", tal como a "tomada da Bastilha" em 1789, são a forma de pôr em causa o poder e a impotência das " forças da ordem ", tal como os " guardas suíços ", demonstra que o poder está encostado à parede.

5) Escândalos político-financeiros : Na altura da Revolução Francesa, a especulação dos cereais florescia, tal como a especulação do petróleo atual, e a isso juntavam-se escândalos secundários como o do "colar da rainha". Hoje, madame Macron (Maria Antonieta?) decidiu renovar o Eliseu, dispendiosamente (600 mil euros de alcatifas) [8] , enquanto os imóveis sociais se degradam em Marselha [9] .

6) Escrita de cadernos de reivindicação: Nas rotundas, escrevem-se os "cadernos de reivindicação" dos sans culottes da nossa época, designados hoje por coletes amarelos. O exame atento destas reivindicações dirigidas ao monarca do castelo do Eliseu revela a vontade profunda da igualdade.

7) Movimento da província para Paris: O movimento, diferente das "vigílias noturnas" partiu da província da "França profunda" para Paris, tal como em 1789 a noite de 4 de agosto foi resultante do grande medo que partiu dos campos e invadiu os castelos, uma réplica da tomada da Bastilha antes da entrada em Paris. As manifestações de novembro realizadas em Paris são a materialização deste processo.

8) Criação de símbolos unificadores do povo (a Marselhesa e a bandeira tricolor): Na altura da Revolução Francesa de 1789, esta uniu-se em volta de três símbolos: a bandeira tricolor, a Marselhesa e o barrete frígio. Hoje, os nossos "coletes amarelos" reconhecem-se em volta de três símbolos: o colete amarelo, a bandeira tricolor e a Marselhesa. Em breve, se o exército entrar em cena, juntar-se-á sem dúvida o canto dos "partisans".

9) Centralidade da França no mundo: Hoje, tal como em 1789, o mundo inteiro observa o que se passa em França [10] , a burguesia mundial dos "tours de business" que conhece a História, treme de medo de tal modo que os preços mundiais de petróleo, que estavam em alta, sob o impacto da crise iraquiana (insuficiência da oferta) acabam de baixar de modo considerável nas últimas três semanas, sem qualquer explicação da teoria do mercado (oferta-procura)…

'.

Alguns pontos complementares: Para além dos pontos de fixação que fazem a História gaguejar, trata-se de juntar alguns elementos atuais.

1) A legitimidade das rotundas: A priori, as rotundas são locais materializados que visam simplificar a circulação. Atualmente, para além da sua função de amortecedor do " fluxo de mercadorias " do capitalismo globalizado, as rotundas transformam-se em "assembleia de cidadãos" e os sans culottes do nosso tempo juram "que só dali sairão pela força das baionetas".

2) Os meios de comunicação desacreditados, obrigados a abandonar Júpiter: Os meios de comunicação, conscientes do ódio que a população lhes vota atualmente, dadas as suas reportagens falseadas e a ideologia subjacente, são obrigados, para saírem da "dependência do olimpo" a abandonar Júpiter. Isso vê-se. Mas, como os meios de comunicação são a primeira pele do sistema, o sistema está em vias de se encontrar nu.

3) A força armada: Sem ter a população do seu lado, o poder acossado no seu castelo já só tem a versão "novo mundo" dos guardas suíços para se proteger da ira do povo em vias de " ir procurá-lo "… E é sempre Júpiter [Macron] que é abandonado.

4) Os recuos em passos lentos: Tal como em 1789 com Luís XVI, os recuos do governo são sempre fracos e demasiado tardios, o que permite que o movimento se enraíze (alargue a sua base) e aprofunde as reivindicações, aquilo a que os meios de comunicação chamam " radicalização ". Nas rotundas, a aprendizagem e a educação política vai-se fazendo a toda a velocidade.

5) O "grande medo": [11] Chegando ao mimetismo de 1789, o poder atual para a manifestação de 8 de dezembro de 2018, alerta a opinião que visa dissuadir a manifestação de novo em Paris, por causa do perigo. Os políticos e os sindicatos são chamados a "acalmar a cena" para defender a República atacada, uma inépcia perante o que fizeram os poderes sucessivos à República, como expressão política do interesse geral.

O Grande Medo e a noite de 4 de agosto
A notícia da tomada da Bastilha espalha-se por toda a França. Mas é acompanhada de boatos: diz-se que os nobres, inimigos da mudança, pagaram a bandidos para massacrar as pessoas. É o Grande Medo. Na noite de 4 de agosto, os deputados da Assembleia, aterrorizados pelas notícias das revoltas camponesas, acabam com os privilégios dos nobres e do clero: todos os franceses passam a ser iguais, com os mesmos direitos e as mesmas leis para todos.

6) O colete amarelo: da obrigação à emancipação: Muito se tem dito sobre a simbologia do colete amarelo, em especial, que são os invisíveis que assim se tornam visíveis. Mas, para mim, há um outro aspeto não evidente. O colete amarelo é uma obrigação imposta pelo Estado a todos os automobilistas e, portanto, uma coação de facto. Tal como os escravos de Espártaco, com as suas correntes, os coletes amarelos fazem dessa coação um símbolo de emancipação. Politicamente, é muito forte.

Antes de concluir, queria sublinhar que tudo o que se passa neste momento, de tal modo era previsível a panela ao lume, que eu escrevi isto no momento do fim do conflito dos ferroviários:

"O governo Macron ainda pode ganhar contra os ferroviários, quebrando assim os últimos diques de proteção coletivos, mas as revoltas sociais regressarão ainda mais fortes, ainda mais potentes e ainda mais maciças, para finalmente quebrarem o cerco e as correntes.

"Assim, a seguir às correntes de Espártaco, recordo esta frase que não me sai da cabeça: 'De tanto olhar para os pés, não podemos deixar de ver as correntes, só levantando os olhos e olhando para o horizonte, veremos o futuro'. É com esta materialidade exigente que a humanidade está a ser confrontada".

O início do século XXI / Abertura

O sentido da História: A história, a partir de Karl Marx, não é uma sucessão de datas. A História, as suas evoluções, a sua permanência e as suas roturas têm a ver com a evolução das " forças produtivas " (sistema técnico e relações sociais) duma época. Assim, a Revolução de 1789 e o fim das corporações (lei Le Chapelier de 1791) auguram a revolução industrial e a passagem do moinho e do cavalo, para o forno, para a energia mecânica e para os proletários (sem código de trabalho).

Se a guerra de 1914-1918 (réplica da guerra de 1870) exprime o fim do século XIX, é a revolução bolchevique de 1917, em plena guerra de destruição, que anuncia o século XX ("a paz do pão").

Não se diz, neste quadro, que o 11 de setembro se situa como o fim do século XX nem que a sublevação atual, se for até ao fim, são seja medida e analisada ulteriormente pelos historiadores como o verdadeiro início do século XXI, o século da emancipação de que Marx foi o pensador.

Marx escreveu: "A alteração na base económica perturba mais ou menos rapidamente toda a enorme superestrutura. Quando consideramos essas perturbações, é preciso sempre distinguir entre a modificação material – que podemos constatar de modo cientificamente rigoroso [12] – das condições de produção económicas e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência desse conflito e o levam até ao fim".

É segundo esta análise sem concessões que, aqui e em todo o lado, temos de observar, informar-nos, analisar e agir sobre os acontecimentos atuais. As revoluções não se fazem sozinhas.

[1] Criado por Marat em 1789
[2] Violência das decisões tomadas
[3] Guerra da independência dos EUA
[4] Resultado da "tomada dos castelos na província"
[5] www.lepoint.fr/...
[6] fr.wikipedia.org/wiki/Comit%C3%A9_d%27entreprise
[7] Axioma estruturante do liberalismo (filosofia adiantada para justificar moralmente exploração do capitalismo
[8] fr.news.yahoo.com/pendant-temps-l%C3%A0-emmanuel-brigitte- 093925723.html
[9] www.regards.fr/...
[10] fr.news.yahoo.com/l-apos-irak-%C3%A0-belgique-125819902.html
[11] https://fr.wikipedia.org/wiki/Grande_Peur [12] "Revolução dita numérica", globalização, uberização das relações sociais, etc.


Ver também:
  • Gilets jaunes: L'Etat offre 300 euros + une prime à ses bons militaires (Coletes amarelos: O Estado oferece 300 euros + um prémio aos seus bons militares)

    O original encontra-se em www.legrandsoir.info/a-quoi-reconnait-on-une-revolution-en-france.html .
    Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 21/Dez/18