A desinformação económica desempenha um grande papel nas eleições francesas

por Mark Weisbrot [*]

As eleições presidenciais francesas mostram com força como uma análise económica errada, e problemas aritméticos mais gerais, pode determinar as ideias e mesmo o futuro não só de um país mas até de um continente.

Os Estados Unidos enfrentaram uma situação semelhante aquando do debate sobre as pensões, em que uma maioria de americanos foi convencida — por uma trapaça tanto verbal como contabilística — de que o sistema de aposentação iria enfrentar sérios problemas financeiros quando a geração do "baby boom" fosse para a reforma. O que é falso!

O tema geral da campanha de Nicolas Sarkozy que o impeliu à frente na primeira volta é de que a economia francesa estaria de certa forma "bloqueada" e teria necessidade de ser reformada para se aproximar àquelas dos Estados Unidos. É igualmente amplamente admitido que a França precisaria tornar-se mais "competitiva" na economia mundializada, pois a concorrência tornara-se mais rude neste mundo globalizado.

O editorialista do New York Times Thomas Friedman é o principal defensor da tese segundo a qual os trabalhadores franceses devem baixar o seu nível de vida devido à globalização da economia. "Todas as forças da mundialização atacam os estados-providência europeus", diz ele. "Os franceses tentam preservar uma semana de 35 horas num mundo em que os engenheiros indianos estão prontos a fazer jornadas de 35 horas". Para Friedman e outros "peritos", isto é impossível.

É importante compreender que não há nenhuma lógica económica por trás da argumentação de que os cidadãos de um país rico devem reduzir o seu nível de vida ou sofrer um rebaixamento dos programas sociais governamentais por causa dos progressos económicos dos países emergentes. Quando um país desenvolvido atingiu um certo nível de produtividade, não há qualquer razão económica que deva obrigar os seus cidadãos a baixarem seus salários ou direitos sociais adquiridos, ou fazê-los trabalhar mais, porque os outros países estão em vias de recuperar seu atraso. Esta produtividade — fundada sobre know how colectivo do país, sua competência, sua capitalização e seu organização económica — permanece e até aumenta a cada ano. A circunstância de a concorrência internacional ser utilizada como desculpa por grupos que defendem interesses particulares a fim de baixar o nível de vida dos trabalhadores franceses, alemães ou americanos — o que é o caso — demonstra que as regras do comércio internacional não são escritas pelas boas pessoas. Isto revela um défice democrático e não um problema inerente ao progresso económico.

Um outro erro frequente neste debate é comparar o rendimento francês por habitante com aquele dos Estados Unidos, uma comparação que desfavorece a França: US$30.693 contra US$43.144 para os Estados Unidos (ajustado de modo a estabelecer paridades de poder de compra). Mas esta comparação é injusta porque os franceses trabalham menos horas que os americanos. Os economistas nunca dizem que uma pessoa é menos feliz que outra se ela ganhar menos porque trabalha menos. Um melhor indicador do bem estar económico, se se deve fazer uma comparação, é portanto a produtividade. Ora, ela é tão forte, ainda mais forte, em França do que nos Estados Unidos.

Convém nesta etapa fazer um pouco de aritmética acerca da forte taxa de desemprego dos jovens em França, a qual determinou a política francês e influenciou a opinião pública mundial durante os tumultos de 2005 nas periferias. O método padrão de medida da taxa de desemprego coloca os desempregados no numerador e os desempregados mais os não desempregados no denominador [d/d+nd]. De acordo com este método, os franceses masculinos com idades de 15 a 24 anos têm uma taxa de desemprego de 20,8%, comparada com 11,8% nos Estados Unidos. Mas esta diferença deve-se principalmente ao facto de que em França há proporcionalmente mais jovens ausentes do mercado de trabalho — porque um maior número deles são estudantes e porque os jovens em França trabalham muito menos a tempo parcial enquanto estudam do que os jovens americanos. Aqueles que estão ausentes do mercado de trabalho não são contados nem no numerador nem no denominador das taxas de desemprego.

Uma maneira melhor de comparar consiste pois em tomar o número de desempregados e dividi-lo pela população na faixa etária dos 15 aos 24 anos. Obtem-se então uma taxa de desemprego americano de 8,3% contra 8,6% para os franceses. Vê-se que os dois países têm um sério problema de desemprego entre os jovens, o qual concentra-se aliás nas minorias étnicas. Mas o problema não é muito pior em França do que nos Estados Unidos.

Nicolas Sarkozy propõe tornar os despedimentos mais fáceis, baixas os impostos (e inclusive aqueles que atingem as sucessões), reverter de facto a semana de 35 horas, assim como outras medidas que favorecerão os assalariados com rendimentos elevados e os chefes de empresas. Estas medidas redistribuirão os rendimentos para o alto, como é o caso nos Estados desde há mais de 30 anos. Mas, mais uma vez, há poucas ou nenhumas provas económicas de que estas medidas criarão empregos ou o crescimento.

Ségolène Royal por sua vez propõe uma série de medidas para estimular a procura através de toda a economia — inclusive um aumento do salário mínimo, dos subsídios de desemprego e a criação de empregos públicos. Tudo isto tem um sentido económico, uma vez que as medidas da senhora Royal pelo menos proporcionam a possibilidade — principalmente ao estimular a procura no seu conjunto e o poder de compra dos consumidores — de criar empregos.

Se, com esta eleição, a França marcar uma viragem histórica para a direita, isto será devido principalmente à desinformação económica.

[*] Co-Director do "Center for Economic and Policy Research", em Washington, DC

O original encontra-se em
http://www.cepr.net/index.php?option=com_content&task=view&id=1158&Itemid=163


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05/Mai/07