A desinformação económica desempenha um grande papel nas
eleições francesas
As eleições presidenciais francesas mostram com força como
uma análise económica errada, e problemas aritméticos mais
gerais, pode determinar as ideias e mesmo o futuro não só de um
país mas até de um continente.
Os Estados Unidos enfrentaram uma situação semelhante aquando do
debate sobre as pensões, em que uma maioria de americanos foi convencida
por uma trapaça tanto verbal como contabilística de
que o sistema de aposentação iria enfrentar sérios
problemas financeiros quando a geração do "baby boom"
fosse para a reforma. O que é falso!
O tema geral da campanha de Nicolas Sarkozy que o impeliu à frente na
primeira volta é de que a economia francesa estaria de certa forma
"bloqueada" e teria necessidade de ser reformada para se aproximar
àquelas dos Estados Unidos. É igualmente amplamente admitido que
a França precisaria tornar-se mais "competitiva" na economia
mundializada, pois a concorrência tornara-se mais rude neste mundo
globalizado.
O editorialista do
New York Times
Thomas Friedman é o principal defensor da tese segundo a qual os
trabalhadores franceses devem baixar o seu nível de vida devido à
globalização da economia. "Todas as forças da
mundialização atacam os estados-providência europeus",
diz ele. "Os franceses tentam preservar uma semana de 35 horas num mundo
em que os engenheiros indianos estão prontos a fazer jornadas de 35
horas". Para Friedman e outros "peritos", isto é
impossível.
É importante compreender que não há nenhuma lógica
económica por trás da argumentação de que os
cidadãos de um país rico devem reduzir o seu nível de vida
ou sofrer um rebaixamento dos programas sociais governamentais por causa dos
progressos económicos dos países emergentes. Quando um
país desenvolvido atingiu um certo nível de produtividade,
não há qualquer razão económica que deva obrigar os
seus cidadãos a baixarem seus salários ou direitos sociais
adquiridos, ou fazê-los trabalhar mais, porque os outros países
estão em vias de recuperar seu atraso. Esta produtividade
fundada sobre know how colectivo do país, sua competência, sua
capitalização e seu organização económica
permanece e até aumenta a cada ano. A circunstância de a
concorrência internacional ser utilizada como desculpa por grupos que
defendem interesses particulares a fim de baixar o nível de vida dos
trabalhadores franceses, alemães ou americanos o que é o
caso demonstra que as regras do comércio internacional não
são escritas pelas boas pessoas. Isto revela um défice
democrático e não um problema inerente ao progresso
económico.
Um outro erro frequente neste debate é comparar o rendimento
francês por habitante com aquele dos Estados Unidos, uma
comparação que desfavorece a França: US$30.693 contra
US$43.144 para os Estados Unidos (ajustado de modo a estabelecer paridades de
poder de compra). Mas esta comparação é injusta porque os
franceses trabalham menos horas que os americanos. Os economistas nunca dizem
que uma pessoa é menos feliz que outra se ela ganhar menos porque
trabalha menos. Um melhor indicador do bem estar económico, se se deve
fazer uma comparação, é portanto a produtividade. Ora,
ela é tão forte, ainda mais forte, em França do que nos
Estados Unidos.
Convém nesta etapa fazer um pouco de aritmética acerca da forte
taxa de desemprego dos jovens em França, a qual determinou a
política francês e influenciou a opinião pública
mundial durante os tumultos de 2005 nas periferias. O método
padrão de medida da taxa de desemprego coloca os desempregados no
numerador e os desempregados mais os não desempregados no denominador
[d/d+nd]. De acordo com este método, os franceses masculinos com idades
de 15 a 24 anos têm uma taxa de desemprego de 20,8%, comparada com 11,8%
nos Estados Unidos. Mas esta diferença deve-se principalmente ao facto
de que em França há proporcionalmente mais jovens ausentes do
mercado de trabalho porque um maior número deles são
estudantes e porque os jovens em França trabalham muito menos a tempo
parcial enquanto estudam do que os jovens americanos. Aqueles que estão
ausentes do mercado de trabalho não são contados nem no numerador
nem no denominador das taxas de desemprego.
Uma maneira melhor de comparar consiste pois em tomar o número de
desempregados e dividi-lo pela população na faixa etária
dos 15 aos 24 anos. Obtem-se então uma taxa de desemprego americano de
8,3% contra 8,6% para os franceses. Vê-se que os dois países
têm um sério problema de desemprego entre os jovens, o qual
concentra-se aliás nas minorias étnicas. Mas o problema
não é muito pior em França do que nos Estados Unidos.
Nicolas Sarkozy propõe tornar os despedimentos mais fáceis,
baixas os impostos (e inclusive aqueles que atingem as sucessões),
reverter de facto a semana de 35 horas, assim como outras medidas que
favorecerão os assalariados com rendimentos elevados e os chefes de
empresas. Estas medidas redistribuirão os rendimentos para o alto, como
é o caso nos Estados desde há mais de 30 anos. Mas, mais uma
vez, há poucas ou nenhumas provas económicas de que estas medidas
criarão empregos ou o crescimento.
Ségolène Royal por sua vez propõe uma série de
medidas para estimular a procura através de toda a economia
inclusive um aumento do salário mínimo, dos subsídios de
desemprego e a criação de empregos públicos. Tudo isto
tem um sentido económico, uma vez que as medidas da senhora Royal pelo
menos proporcionam a possibilidade principalmente ao estimular a procura
no seu conjunto e o poder de compra dos consumidores de criar empregos.
Se, com esta eleição, a França marcar uma viragem
histórica para a direita, isto será devido principalmente
à desinformação económica.
[*]
Co-Director do "Center for Economic and Policy Research", em
Washington, DC
O original encontra-se em
http://www.cepr.net/index.php?option=com_content&task=view&id=1158&Itemid=163
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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