"Por onde passa o meu carro a erva já não cresce"

por Jean-Marie Harribey [*]

Átila, rei dos hunos. Recorde-se desta frase atribuída à Átila: "Por onde passa o meu cavalo a erva já não cresce". Parece-se com a mensagem subliminar enviada pela Comissão para a "libertação do crescimento" presidida por Jacques Attali. A erva não crescerá mais, mas haverá consolo com um crescimento económico veloz. Attali quer um crescimento de 5% ao ano para a França. Mais forte do que os 3% que Sarkozy gostaria de arrancar com os dentes. Isto é possível afirma Attali. A prova? Olhem a China e a Índia: 10% ao ano, não fiquemos atrás!

Propõe-se ao leitor que verifique na sua calculadora:

Um PIB (produto interno bruto) que cresce 10% ao ano duplica em 7,3 anos, quadruplica em 14,5 anos, etc.

A 5% ao ano, duplica em 14,2 anos e quadruplica em 28,4 anos.

A 3% ao ano, duplica em 23,4 anos e quadruplica em 46,9 anos.

E a 1,8%, ritmo actual da economia francesa? Ele duplica em menos de 40 anos. Não está mal, uma vez que já não se sabe onde estacionar tantos carros e onde despejar resíduos de toda espécie. Pois bem, isto não basta aos Attila dos tempos modernos! Qualquer que seja o nível já atingido, para eles é preciso mais porque mais é melhor.

Para "libertar o crescimento", pobre prisioneiro vítima da falta de concorrência (sim, sim, foi Attali que disse), é preciso "diminuir as despesas públicas" e "suprimir da Constituição o princípio da precaução" pois é um "princípio de maldição".

Amaldiçoadores, é a palavra que melhor caracteriza os membros da comissão Attali, todos eles uns mais liberais que os outros. Sonham com grandes superfícies ainda mais extensas. E fazem desmaiar de felicidade os proprietários de habitações preconizando "aliviar os contratos de renda de casa" pela "redução de maneira equilibrada das obrigações recíprocas entre locatários e locadores". Traduza: "com a flexibilidade para expulsar os proprietários alugarão mais facilmente". Isto lembra o refrão do Medef [1] : "dê-nos a flexibilidade para despedir e nós contrataremos".

Amaldiçoadores mas coerentes estes compadres. Pois o crescimento que querem não é o da educação, da cultura, da saúde, ou seja, de todas as actividades não mercantis cujo pagamento é socializado graças aos impostos. Para eles, essas são apenas "despesas públicas". Que elas sejam geradoras de verdadeiras riquezas não transparece nem por um instante. Não lhes vem tão pouco à cabeça a ideia de reduzir as desigualdades, ou seja, de partilhar com os outros aquilo que é produzido.

Os membros desta comissão não seriam bárbaros incultos? Eles sabem menos do que Aristóteles que havia compreendido perfeitamente que a riqueza não se reduzia ao valor mercantil, que há outras riquezas além das mercadorias, e que transformar uma não mercadoria (a educação e a saúde públicas) numa mercadoria (a educação e a saúde pagas) nada acrescenta ao bem estar, pelo contrário.

Bárbaros, porque des-socializar a satisfação destas necessidades equivale a restringir o acesso aos bens e serviços mais essenciais.

Incultos, porque ignoram que, antes de decidir produzir mais, seria melhor reflectir no que se vai produzir. Eles ignoram assim que o desenvolvimento humano não é sinónimo de crescimento eterno, materialmente impossível. Pois, a golpes de 5% ao ano, quando se pararia?

Bárbaros e incultos, tudo ao mesmo tempo, porque não concebem a moeda senão como um instrumento de acumulação privada. Ora, a moeda é também um bem público que permite socializar uma parte da riqueza produzida. É pela intermediação da moeda que são recolhidos os impostos e as quotizações que tornam possíveis uma escola pública e uma protecção social evocadas acima. Precisamente as actividades cujo crescimento seria desejável, em detrimento dos carros que seria preciso em contrapartida fazer decrescer.

Infelizmente, é lamentável que certos teóricos do decrescimento exaltem a "saída da economia monetária", esquecendo eles também que a moeda é em parte um instrumento de socialização de uma verdadeira riqueza. Uma vez que sem moeda não haveria protecção social, as únicas solidariedades seriam individuais, familiares ou comunitárias. O contrário da universalidade dos direitos.

Com fantasmagorias sobre um crescimento catastrófico para os humanos ("trabalhem mais!") e para a natureza ("depois de mim o dilúvio!"), a comissão Attali alinha-se sob as ordens daqueles que a comandam:   assegurar a perenidade de um capitalismo cuja única razão de ser é acumular lucros para transformá-los em capital. E para isso é preciso o crescimento, subentende-se... mercantil!

E como o planeta tem contornos finitos, é preciso fazer recuar a esfera monetária não mercantil. Assim fala Denis Kessler, "filósofo" do Medef: "A lista das reformas? É simples, tome tudo aquilo que foi erguido entre 1944 e 1952, sem excepção. Ela está lá. Trata-se hoje de sair de 1945, e de desfazer metodicamente o programa do Conselho Nacional da Resistência!" ( Challenge, 4 de Outubro de 2007). Aqui está a jazida de crescimento da qual quer apossar-se o bando de Attali.

Porque, quando não houver mais erva para cortar, haverá os pobres.

17 de Outubro de 2007, jornada de recusa da miséria...

[1] Mouvement des Entreprises de France, associação patronal.

Outros artigos de Jean-Marie Harribey:
  • Marxismo ecológico ou ecologia política marxiana
  • Pode-se concluir uma controvérsia científica quando esta é uma questão social?

    O original encontra-se em http://harribey.blogsudouest.com/

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 16/Nov/07