França: grande capital contra direitos laborais
por La Jornada
A tormenta de protestos sociais em França, realizada por estudantes e
sindicatos devido à polémica lei do Contrato de Primeiro Emprego
(CPE), revela no fundo algo mais do que uma simples inconformidade com uma
proposta legislativa. Na realidade, trata-se de uma luta contra a
precarização do trabalho, tendência que esteve em alta no
mundo todo durante as últimas décadas.
Sexta-feira passada, o presidente Jacques Chirac anunciou a
promulgação da norma CPE concebida para favorecer o emprego dos
jovens, segundo as autoridades com um par de modificações: o
período de experiência de um trabalhador já não
será de dois anos e sim de um, e os empregadores terão que
justificar os despedimentos no âmbito desta lei, ao contrário do
projecto original, que permitia às empresas prescindir de um empregado
sem dar maiores explicações. Contudo, a reforma destes dois
pontos, os mais criticados por estudantes, sindicatos e
organizações e partidos de esquerda, foi insuficiente para
acalmar os ventos: os opositores ao CPE mantiveram sua exigência de
retirar a iniciativa e anunciaram uma greve nacional para terça-feira
próxima, a segunda em uma semana.
Para o governo francês, os protestos são produto de jovens que se
opõem ao progresso, ainda que deixe de lado o facto de que a
legislação implica um grave retrocesso em matéria de
direitos laborais. E acontece que o CPE faz parte da tendência do
capitalismo mundial de cortar as protecções e garantias laborais
em benefício das empresas, um fenómeno que castigo os interesses
e os salários, entre outras coisas, da classe trabalhadora.
Desde fins da Segunda Guerra Mundial, a reorganização do
capitalismo internacional favoreceu as companhias multinacionais, que
actualmente controlam dois terços do comércio global.
Simultaneamente, a parte dos benefícios que se destina ao pagamento de
salários diminuiu devido a uma maior flexibilidade do trabalho mediante
a contratação temporária, a utilização de
mão-de-obra interina, a aplicação de horários
flexíveis e a redução dos custos por despedimento, o que
implica na prática a limitação das
protecções laborais resultantes de um século de luta
social. Além disso, o trabalho tornou-se mais precário devido
aos contratos de aprendizagem e interinos, os cursos remunerados e os contratos
subvencionados, dentre outras modalidades de emprego. Desta maneira, estas
medidas lesivas aos interesses dos trabalhadores derivaram na
diminuição das remunerações em todos os
países integrantes da Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Económico. Nos Estados
Unidos, por exemplo, a economia mais importante do planeta, o salário
retribuído por hora de trabalho diminuiu até alcançar os
níveis de 50 anos atrás. Em poucas palavras, o poder do grande
capital permite ao mercado determinar as leis laborais.
Mas o enfraquecimento das normas que regem o mundo laboral teve outros efeitos
perniciosos, como a redução do poder dos sindicatos: ano a ano o
número de trabalhadores sindicalizados é menor, deixando centenas
de milhares de pessoas indefesas diante dos desígnios das grandes
empresas. Por outro lado, milhares de companhias aproveitaram o facto de que
muitos países (como a China e a Índia) contam com
mão-de-obra barata e condições laborais limitadas para
mudar para lá suas operações, provocando desemprego nos
países que abandonam e fortalecendo esquemas laborais favoráveis
ao grande capital nos de acolhida. Isto, sem mencionar a ofensiva contra
aposentadorias e pensões: requisitos mais difíceis de cumprir e
a redução de prestações e serviços
são uma constante em todo o mundo.
Em resumo, o pano de fundo dos protestos em França é a antiga
disputa entre o grande capital, que busca embaratecer a mão-de-obra e
debilitar os trabalhadores, o quais por sua vez lutam por um emprego digno.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2006/04/01/edito.php
.
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
.
|