E, então, nós? (Morte de um papa)
Uma obra já antiga
[1]
dava projecções em números para o ano de 2000,
relativamente às religiões: 1.132.541.500 de católicos,
1.071.888.400 de agnósticos e 262.447.600 de ateus. Com 1.334.336.000, o
número de não-crentes vinha, assim, largamente em primeiro lugar,
à frente da primeira religião do mundo, o islão, estimada
em 1.200.653.000, a exceder os católicos em mais de 200 milhões
[2]
. Além disso, estes últimos representavam apenas menos de um
terço de todos os crentes das outras religiões, numa
relação de 1,1 mil milhões para mais de 2,5 mil
milhões. A diferença, desde então, não deixou de
crescer. Todas as estatísticas, entre as quais as da igreja, testemunham
a carência de vocações eclesiásticas, a queda das
práticas rituais (baptismos, casamentos) e a
desertificação dos locais de culto. No Brasil, "o maior
país católico do mundo", como insistentemente nos repetem,
os fiéis passaram de 88%, em 1980, a 73,8%, em 2000, e os
pentecostistas, em particular, continuam a ganhar terreno
[3]
. Na Alemanha, a Igreja perdeu 1/10 dos seus adeptos e as igrejas são
vendidas a particulares, que as transformam em apartamentos...
Ora, desde a
hospitalização de João Paulo II, nós encontramo-nos
na presença e, na realidade, como vítimas de um tsunami
mediático ainda mais incrível que aquele que cobriu recentemente
a catástrofe do sudeste asiático
[4]
. Os delírios verbais e gesticulatórios atingem níveis
inigualáveis. O país de Descartes situa-se, infelizmente, na
dianteira. Os tempos de antena explodem, reduzindo "o resto da
actualidade", no melhor dos casos, às proporções mais
ínfimas. Até a agonia de uma outra vedeta, Rainier, o
incomparável soberano monegasco, viu-se quase sacrificada, pelo menos a
princípio, já que a seguir o interessado remediou a sua
desvantagem, chegando mesmo a compensar a enorme relação
desfavorável de 30.000 indivíduos para mil milhões de
fiéis (incluídos, todavia, os 30.000 em questão) e
gratificando cada habitante do Rochedo com o privilégio de reclamar,
além do seu próprio progenitor, um par de pais, o de Roma, o
Santo Padre, e o seu, o Pai-de-Todos. Mas esclareçamos, com a devida
vénia a Prévert, é muito pouco provável que o novo
papa venha a chamar-se A. Rainier. Um outro falecido nestes dias, que já
não ousamos dizer ter sido célebre, Saül Below, simples
Nobel da literatura e talvez nem sequer cristão, esse, foi esquecido. A
boa nova, em todas estas infelicidades, que está à altura de uma
magnanimidade lendária, é a reabertura do casino a servir de
contraponto, a alguns milhares de quilómetros dali, à
reinstalação das cadeiras de encosto onde nos bronzeamos e
pranchas de surf nas praias ("de sonho") indonésias, apesar de
alguns sobressaltos telúricos residuais.
Quanto a nós, pobres
pecadores, estávamos condenados a prosseguir o nosso empanturramento
comunicacional. Incansavelmente, doença, sofrimento, morte,
cadáver passam e repassam em directo. Incansavelmente, vamos e vimos de
catedral em igreja, de convento em sacristia, de Notre-Dame a Lyon, de Lyon a
Lourdes, de Lourdes a Cracóvia, de Cracóvia a Jerusalém,
de Plan de Cuges a Moscovo, do Rio a Havana, com todos os caminhos levando,
evidentemente, a Roma. Tudo é dado, do peregrino lacrimoso ao
pároco órfão, da devota do país profundo à
citadina descarada-que-já-não-é, do bispo ao arcebispo e
vice-versa, até ao nosso sempre verde cardeal Lustiger, que confessa,
c'os diabos!, que ele faz contratos directamente com Deus
[5]
. Prioritários: os jovens, os jovens, os jovens. Desinibidos de qualquer
comedimento ou "desinibindo-se", como elegantemente se diz, a tribu
dos mikeys televisivos entrava em órbita. As irmãs Gessler e
Schönberg, indiferentes aos reparos do apresentador, no sábado
anterior, enchiam a boca com o "Santo Padre", a segunda a evocar
despudoradamente "a Virgem Maria"; a madre Lucet, pura e
simplesmente, vestia-se de preto (dia 3, às 19h); o bem-aventurado
Grizbec, tocado pela graça (outra que não a do Mónaco), a
quem nada se perguntava, ia revirando os olhos ao relatar a sua conversa com o
"sucessor de Pedro"; o reverendo Harrouard, do alto da sua
ciência vaticanesca, esclarecia, a propósito do conclave:
"É o Espírito Santo que decide"; e o oblato Duquesne
apresentava-se, desta vez, de gravata, preta naturalmente, em honra do
"Bom Pastor" (sic).
Mas, posto de lado o maralhal
das ovelhas, é a vez dos nossos maganões políticos,
confundindo descaradamente função e unção, se
precipitarem para acolitar esta missa desmesurada, onde qualquer antigo menino
de coro se alça a pastor oficiante, qualquer velho escuteiro se sente
paramentado e mitrado. E todos a meter a sua colherada para ganharem o
prémio do mais bem-dizente. Chirac, na sua qualidade presidencial, e a
sua diaconisa apresentam-se no super show da Notre-Dame, acompanhados por uma
chusma de ministros e todos eles nessa qualidade. As bandeiras são
postas a meia haste em todo o território nacional. Gaudin, o autarca
eleito, concede meio dia de tolerância aos empregados da Câmara,
como se eles tivessem sido recrutados pela sua religiosidade. De Villepin,
tomado por qualquer nostalgia do Antigo Regime, recomenda aos prefeitos da
República que assistam às missas em favor de "Sua
Santidade" (sic). A Assembleia Nacional, imediatamente seguida pelo
Senado, toda ela de pé, observa um minuto de silêncio (o que em si
não é nenhum mal). O humorista Goasguen quer dar sem
tardança o nome de João Paulo II à Praça do
Município. E por que não à Praça da Bastilha, para
acabar de vez com a Revolução? Já agora, eu proponho, por
meu lado, que a Praça da Concórdia se passe a chamar Praça
do Presidente Gnassingbé Eyadéma, outro falecido recente e,
também, grande amigo da França e dos seus últimos
monarcas. Isso corroboraria o argumento, defendido até por um Max Gallo,
das honras devidas aos chefes de Estado mortos
[6]
. Salvo que, com o Papa, nunca se sabe com que função estamos a
lidar, se a das carnavaladas do Vaticano ou a da Igreja universal, o que
é verdadeiramente cómodo, para não dizer hipócrita.
Portanto, consenso, consenso e consenso, do abade Pierre a M. Cuckierman, com
todas as clivagens abolidas. Por isso, os irmãos Hollande e Delanoë
mandam calar as suas ovelhas laicais com um "o momento é de
recolhimento", que equivale a uma trégua geral, nacional, europeia,
decerto, e mundial, como se fosse esse o fim em vista...
Efectivamente, do lado estrangeiro, é o mesmo. "Eles vieram, eles
estão todos lá", como canta Aznavour. Os rabinos, os imans,
mesmo os ayatolas, os bangladesh, os emiratos, os pigmeus e os
pigmaleões (de Chipre, evidentemente), os dalais e os lamas, o Katami e
o Lula, Mazen Abou e Buda, até aquel valente Ali Aksa, ex-braço
de Moscovo, que ora pelo
"seu irmão, do fundo do seu cárcere... já que nos
dizem para parar tudo e que o ecumenismo dirige o mundo. O príncipe
Carlos, esse São Sebastião de Windsor, adia de novo o seu
casamento, como o nosso bem-amado Jacquou, que deixará a juventude
à espera das suas santas palavras sobre o referendo, e como os partidos
políticos italianos, que suspendem a sua campanha eleitoral para as
regionais. No entanto, perante a impossibilidade de tudo cobrir, há que
correr o risco de inscrever no palmarés de uma competição
acirrada de cálices sagrados dois campeões imprevisivelmente
reunidos. Fidel, entre os fiéis, decreta, do seu genuflexório,
três dias de luto em Cuba, como agradecimento, sem dúvida,
às admoestações engolidas aquando da viagem pontifical.
Mas o óscar vai, incontestavelmente, para a Santa Família de
Washington, pela primeira vez reunida na Praça de São Pedro: o
Pai, o Filho, o Espírito Santo (conhecido familiarmente por
"Bill") e Maria, nas suas duas encarnações de Virgem
Branca (Laura B.) e de Virgem Negra (Condoleeza R.), sendo esta última,
como toda a gente sabe, a preferida do desaparecido Soberano Pontífice.
Reservar-se-á, por fim, a menção especial da
Emoção e do Fervor para os polacos, inumeráveis
milhões de inconsolados
Agni Dei.
Com entusiasmo, gritar-se-á, como Ubu, que foi seu rei: "Para a
frente, meus amigos! Viva a Polónia!... Se não houvesse
Polónia, não haveria polacos!". 200 chefes de Estado!
Permitam-me uma confissão pessoal. Na realidade, eu não estava
tanto a pensar em Jarry, mas na proeza do célebre tio habilidoso de
Boris Vian, na sua "Java das bombas atómicas": "... de
todas estas personagens, já nada resta". E não me venham
mais falar de Ben Laden. É que eu, a par disto, embora asfixiado por um
milhão aqui, mais quatro milhões acolá, ainda tive
forças para especular acerca da altura da montanha de spaghetti e do
comprimento do rio de mozzarella consumidos por aquelas multidões nos
poucos dias de recolhimento.
Eis o filme. Começou com
a personagem engomada de fresco atrás duma janela de hospital e
acabará (??) em fumo de conclave. Numa encenação demencial
de coscuvilhice masoquista e de parada hollywoodesca. Agonia em ecrã
panorâmico, sofrimento em grande plano e um indivíduo, em
êxtase, sente-se mesmo testemunha da crucificação (sic). Os
mickeys iam comentando esta "passagem" da "páscoa",
assim desejada, certamente, por Deus, e as "mãos" prontas a
acolhê-lo. Sofrimento? Eu estava a ver o meu pai (o meu, Marcel) que, na
sua dor, mal conseguia pestanejar antes de se afundar no nada.
E, ENTÃO, NÓS?
Nós, que não contamos, que não somos sequer contados,
quando somos e porque somos mais numerosos do que todos esses milhões
arbitrariamente aglomerados. Arbitrariamente, sim, por uma insistência
contundentemente desfechada e sabiamente repetida: "luto mundial" por
uma "morte excepcional", "acontecimento planetário",
"todas as civilizações, todos os sistemas políticos
sem distinção" (sic). Dado que não contamos, somos
anexados à contabilidade geral, isto é, vampirizados pela muito
bem designada Igreja Universal. E o anátema perdura desde o padre
Platão, que preconizava a pena de morte para o simples crime de
ateísmo. É a treta das "comunidades" indefinidamente
renovada. Exemplos em França, com a "comunidade
muçulmana" estimada, por alto, em 6 milhões: 10%
frequentam, ocasionalmente, uma mesquita, mais de 25% declaram-se não
religiosos ou ateus; a "comunidade judaica", confiscada pelo CRIF (63
associações), vale no máximo 100 mil crentes e
simpatizantes, ou seja, 17%
[7]
. Pense-se na homenagem prestada na Praça do Trocadéro aos monges
de Tibérine cobardemente assassinados por "fanáticos
religiosos", na Argélia: os jornalistazecos viram representantes
das "Três Grandes Religiões" + budistas + Adventistas do
7º dia e, suponho, mesmo, do 5º e de anteontem, mas não nos
viram a nós, sacanas ateus, agnósticos, pagãos, fremendo
também de indignação laica.
E então? Vejamos o que subjaz a este terreno humorístico.
A diplomacia é a
motivação das entidades oficiais? Com certeza, porque
ninguém quer fazer-se notar pela sua ausência. Há que
ocupar a tribuna ecuménica e consensual da espiritualidade, que
não se alimenta nem de pão, nem de conflitos. Estamos em
comunhão, neste momento de embuste paparrotão, em
celebração de um herói da paz e do amor sem fronteiras, de
"carisma excepcional, que vai para além da morte" (sic). Por
esse facto, somos obrigados a engolir o nosso bilhete de identidade?
O macaréu
multitudinário dos anónimos? Como atribuir as culpas aos meios
de comunicação que se defendem, dizendo não serem
senão o reflexo disso? João Paulo II não era, por sua
vontade, "o grande comunicador", o infatigável viageiro, o
beijocador de todos os solos, o mediatizador "mais mediatizado"?
Esta cavalgada
post-mortem
revelou-se adequada ao seu nomadismo existencial, ajudada, é preciso
dizê-lo, pelos holofotes concorrenciais das televisões de todo o
mundo, Al Jazeera e Hezbollah incluídos, também eles encostados
ao poder, duas vezes milenário, dos
happenings,
com som, luz, sotainas e incenso, da instituição
eclesiástica. A aflição e o luto das massas não
devem ser menosprezados e o respeito que nos inspira a sua sinceridade, apesar
da sua parte de espantosa credulidade, não é incompatível,
para quem está de fora, com a ideia de que o bom velho ópio do
povo aquieta e é uma afirmação, simultaneamente.
A estatura do próprio
homem, a quem toda a gente, por razões da sua causa (cautela
oportunista, no topo, fé e esperança, na base), elogia à
compita as incomparáveis virtudes? Rebusquemos aqui e ali na
apologética de uma canonização anunciada. À paz
urbi et orbi
e ao amor do próximo, já destacados, acrescentemos a
exaltação da liberdade e a aproximação entre os
povos e religiões (NB: connosco nunca). Do "Não tenham
medo", tão celebrado, que teria contribuído para o derrube
do muro de Berlim mais eficazmente que as trombetas de Jericó, ao
"As relações sexuais são o que há de mais belo
no mundo", que se discute se vem da sua experiência "de
atleta" ou da penetração divina, o que é que
não se louvou deste apóstolo, poeta, filósofo, poliglota,
ensaísta, dramaturgo, desportista e muitíssimas mais coisas?
Dá-se uma importância particular à defesa da paz na
Palestina e à denúncia da guerra na Iraque. Mas, para
além do facto de ser difícil a uma consciência
cristã não se sentir chocada com os odiosos crimes que flagelam
dois povos, não consta que o "Santo Padre" tenha ido a
qualquer dos campos, nem a Gaza, ou que tenha dinamitado o muro sionista com o
mesmo ardor com que dinamitou o muro soviético, nem tão-pouco
tenha exortado a comunidade dos fiéis a apoiar a resistência
iraquiana. A condenação do imperialismo estadunidense continua
à espera e não são nem Bush nem Sharon quem se
queixará.
E a sua Igreja? Compreende-se
que ela tenha aproveitado a ocasião para uma grande campanha
publicitária, que lhe permitisse, durante algum tempo, exorcizar os
demónios da sua decadência. Mas de que Igreja se trata? De que
crentes? Quando se ouve o Monsenhor Barbarin, arcebispo de Lyon, cardeal e
primaz dos gauleses, proclamar que João Paulo II foi um
"extraordinário servidor dos pobres", a nossa vontade é
gritar de indignação, tão evidente é a mentira. O
falecido Papa serviu a Igreja dos poderosos, dos ricos e seus
privilégios de poder e dinheiro. O valente destruidor do
"totalitarismo" era um cruzado da velha escola e o mais obstinado,
aferrado à Doutrina, em luta contra tudo o que fosse progressista,
contra tudo o que tentasse ultrapassar e pôr em causa a ordem
estabelecida dos dominantes. Por isso, incansavelmente, fez e refez a volta ao
mundo, indo a todas as frentes onde pressentia uma ameaça. Ao lado de
Pinochet e dos hierarcas romanos enfeudados às ditaduras militares,
condenou os padres sandinistas, brandiu o estandarte da heresia contra os
teólogos da libertação, solidários com as
comunidades de base e os camponeses sem terra do Brasil e de toda a
América Latina
[8]
. Ele preferia-lhes, sem dúvida, o intransigente purismo da Opus Dei.
Recordemos que, na própria França, ele castigou Jacques Gaillot,
culpado de se ter comportado como prelado dos sem-abrigo, dos
sem-papéis, sem recear o ridículo da invenção de
Parthénia, pondo a Filha mais velha da Igreja a salvo de qualquer
contágio.
E as mulheres? Que solicitude, cheia de caridade para com elas, na
violência das proibições respeitantes ao aborto e à
contracepção, isto para não falar do seu afastamento,
constantemente reiterado, do sacerdócio. E os jovens, que ele tentou
ganhar aos milhares para os seus valores medievais e que, de hóstia no
bico, secavam à espera, durante horas, para se aproximarem do
caixão? De que benefício seu são eles devedores? Do apelo
à castidade e à resignação ao HIV que dizima
igualmente aos milhões esses infiéis fornicadores africanos? A
escolha sórdida, por outras palavras, entre a calota e a camisinha,
entre a bolsa ou a vida. E os próprios padres, cujo celibato não
é muitas vezes senão a muralha hipócrita da
homossexualidade ou da pedofilia?
A catolicidade ávida de
abertura, esquecida e rejeitada, mas na realidade maioritária,
multitudinária, ninguém a encontrou nos ouros e brocados de Roma.
Essa, continuou lá onde João Paulo II a acantonara, nas suas
frustrações, na sua pobreza, na sua miséria. E na sua
revolta, que há-de ser ela a ganhar
[9]
.
O "Papa da
mundialização", como se disse e, até, como
acrescentou o virtuoso J. Attali, da face do que há de positivo, da
"imagem do Bem" da mundialização
[10]
. Ele foi, de facto, um Papa combatente, militante no plano ideológico
da luta de classes internacional a que se reduz, digam o que disserem, a
mundialização. Esta atitude, na função que era a
sua, nada tem de muito original. O progresso nunca abriu as pesadas portas da
basílica de São Pedro, que não tem feito senão
confiscar as esperanças goradas e anestesiar as feridas populares.
Àqueles que acreditavam, apesar de tudo, que Cristo poderia voltar de
tiara na cabeça ou que a sua inocência convenceria a esperar o
sucessor que eles tanto desejam, temos infelizmente de remetê-los para a
opinião de Giancarlo Zizola, consagrado observador dos segredos da
Cúria. Este especialista declarava, num jornal informativo da Antenne 2
(abençoada seja a ocorrência) que João Paulo II nomeara
praticamente todos os cardeais encarregados da eleição do
próximo Papa e que eles eram tão "reaccionários"
(sic) que nem a ele o teriam eleito no conclave a que deveu a sua investidura.
Quanto a nós, cujas
fileiras, como se vê, estão destinadas a crescer constantemente,
nós não estamos recolhidos. Já fomos colhidos por um bom
golpe de direita e não há forma de recomeçar, pois
não contamos com ninguém, nem Deus, nem mestre, para nos acolher.
Pelo, contrário, para colher, temos a nossa pequena foice. E, essa,
está bem afiada.
09/Abril/2005
Adenda (20/Abril/05).
Duas observações: a) não só o matraqueamento
indecente não parou até ao fumo branco e depois dele, mas ainda o
luto menor pelo Príncipe do Rochedo, que abrilhantou as exéquias
de Franco, ao lado de Pinochet, valeu-nos, na Antenne 2, 5 horas consecutivas
de padralhice; b) a eleição do cardeal Ratzinger, o Grande
Ideólogo, espécie de Souslov ou, melhor, de Tourabi do
fundamentalismo católico, se não faz de João Paulo II um
esquerdista, não deixa de confirmar os prognósticos mais
pessimistas. Decididamente, os desígnios de Deus são
sondáveis.
Notas
[1]
L'Etat des Religions,
Paris, La Découverte, 1987 ; os dados numéricos foram
tirados de
International Bulletin of Missionary Research, World Christian Encyclopaedia.
[2] Um inquérito, vindo não se sabe donde, realizado por
ocasião da defesa
pro domo
organizada pela Antenne 2 sobre a cobertura das exéquias, contradiz
estes dados, particularmente o primeiro lugar atribuído à
religião muçulmana (9 de 2005, Médiateur das 13h30).
[3] Ver "Les indigènes équatoriens face au défi
évangélique », in
Le Monde Diplomatique
de Abril de 2005.
[4] Ver o meu artigo em
Utopie Critique,
nº 32, Março de 2005
[5] Em directo num jornal televisivo, o tema era: deixem-me morrer antes dele
ou esperem que eu ultrapasse os 80 anos. Desconhece-se a segunda parte do
diálogo.
[6] Esta pretensa regra teve, como já fez notar um outro
desmancha-prazeres, algumas excepções: Hassan II, embora "o
nosso amigo rei", foi privado das bandeiras a meia haste, de que
beneficiou um Reagan, morto fora da Casa Branca.
[7]
Cf.
Denis Porthault, do Observatoire du Communautarisme, "Communautarisme,
mode d'emploi", in
Utopie Critique,
nº 31, Nov/04.
[8] Um canal público (não levei os outros em
consideração) teve a originalidade de apresentar uma reportagem
sobre dois padres belgas que exercem o seu apostolado numa favela do Rio.
Destes homens, bem dignos de respeito, o jornalistazeco apressou-se a
esclarecer que eles não pertenciam à teologia da
libertação.
[9] Se se quiser mais amplos detalhes sobre esta versão que não
é a da Igreja, poderá consultar na net a Rede de
informação e solidariedade com a América Latina (RISAL:
http://risal.collectifs.net/article.php3?id_article=1322
), em particular o artigo de Leonardo Boff, "Jean-Paul II, La grande
restauration" e a Déclaration de
Combat,
"La nation française ne porte pas ce deuil" (
combat.94@wanadoo.fr
). Espera-se também a saída do próximo número da
revista
Golias.
[10] Convidado por B. Duquesne no jornal televisivo das 13h, de 07/Abr/05
[*]
Professor da Universidade de Paris e autor, entre outras obras, do
clássico
Dictionnaire critique du marxisme
.
O original encontra-se na revista
Utopie Critique.
Traduçao de MJS.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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