Claros-escuros, sfumato e bastonadas macronianas no 1º de Maio

por Rémy Herrera

1º de Maio em Paris. Neste 2 de Maio do ano da graça de 2019 celebra-se com grande pompa, no castelo real de Amboise, à beira do Loire, o meio milénio do desaparecimento de Leonard da Vinci – cuja presumida tumba estaria preservada, parece, na capela do referido castelo. Nesta ocasião, a título de presidente de honra da fundação proprietária daquela modesta residência, o conde de Pais, Jean d'Orléans, pretendente ao trono da França e descendente dos soberanos Luís XIII, XIV e XV (mas também, entre outras cabeças com perucas e coroadas, do imperador Francisco I da Áustria, do duque Philippe Albert de Wurtemberg, da princesa Rose-Marie de Toscane, do rei Ferdinando VII da Espanha, do rei João VI de Portugal e do imperador Pedro II do Brasil!), têve insigne privilégio de receber o presidente da República francesa, Emmanuel Macron, assim como seu homólogo italiano, Sergio Mattarela. Beija-mãos às primeiras damas, reverências delicadas e inclinações elegantes feitas com rigor...

Todos estes nobilitados bem nascidos, bem penteados, enfeitados, cheios de desprezo de classe pelos "coletes amarelos" e pelos "sem dentes", vivem como parasitas, calafetados na sua bolha, amimalhados pelas suas "forças de segurança" guardiãs da ordem estabelecida capitalista e voltadas contra o povo. Eles congestionam as vias de passagem para um mundo melhor. Aquele que queremos, nós, a imensa maioria. Aquele que acabaremos por construir. Aquele que apela à justiça, à razão, à própria sabedoria.

Dentre as múltiplas razões que justificavam as homenagens prestadas ao génio polifacético florentino, houve uma que escapou aos media dominantes. Quinhentos anos após a morte do pai da Gioconda, num tempo em que, doravante, sob a férula dos magnatas da alta finança, a história parece fazer uma travagem a fundo, voltar atrás, recomeçar a recuar, numa modernidade onde são lançados ao fogo os direitos conquistados dos trabalhadores, onde evolam-se em fumaça até tesouros arquitectónicos nacionais mais antigos que o Renascimento, eis que a nossa França encontra-se momentaneamente presidida por um aprendiz de falsário, janota amador das técnicas de Da Vinci do chiaroscuro e do sfumato, que ele reinterpreta aproximadamente, à sua maneira.

Sabe-se, após a quinzena de quadros que nos chegou de Leonardo da Vinci, quanto o mestre toscano, humanista e eclético, se esmerava na arte pictórica de entremear as zonas de sombras e de luzes, "em claro-escuro" conforme a expressão consagrada; como ele soube também, através de toques aveludados, oleosos, por camadas translúcidas, pacientemente repetidas, tornar pouco a pouco indistintas e vaporosas as linhas de contorno – assim "esfumaçadas", dizia o pintor ao conceptualizar o sfumato. Daí o enigmático e inapreensível sorriso da sua Mona Lisa...

E nós, daqui em diante, o que temos?

1º de Maio em Paris. Nós temos direito aos claros-escuros, aos esfumaçados do presidente Macron. E como bónus, aos golpes a bastonada! Claros-escuros macronianos das suas micro-propostas de 10 de Dezembro, depois de 25 de Abril, quando todo o mundo compreende que a sua obscuridade não é senão um ardil, venenoso, confusa e com linda verborreia, quando ninguém percebe o que elas trarão de positivo, em qualquer domínio que seja, para mudar a existência e viver melhor. Depois do "trabalhar mais para ganhar mais", slogan de Nicolas Sarkozy, Emmanuel Macron inventa o "trabalhar mais – porque os franceses são ociosos – para ganhar talvez alguns euros a mais (sob condições estritas), mas, no final das contas, continuar a perder"... O sfumato macroniano, isto é, o esfumaçar do seu "Grande Debate blá-blá", é a ambiguidade das suas pseudo-soluções de "saída da crise" sem a menor "mudança de rumo", é a fragrância do gás mostarda das suas dezenas de milhares de granadas lacrimogéneas lançadas sobre uma revolta!

Entre as cerca de 220 manifestações que se desenrolaram por toda a França nestes 1º de Maio de 2019 e que reuniram no total perto de 310 mil pessoas (segundo a contagem sindical), retornemos um instante ao desfile que ocorreu em Paris e reuniu 80 mil pessoas (segundo a mesma fonte), uma vez que este foi... especial.

Comecemos pelo começo. O ponto de reunião inicial estava previsto para Montparnasse, ao sul da capital. O cortejo devia arrancar às 14h30. Contudo, desde o fim da manhã, as forças da ordem – elas também vindas em massa – haviam feito sua festa aos trabalhadores!

Cerca do meio-dia, manifestantes muito numerosos já estavam lá, presentes ou próximo da Praça do 18 de Janeiro de 1940, aos pés da torre Montparnasse. Várias dezenas de milhares de pessoas: militantes sindicais, coletes amarelos, black blocs, mas igualmente activistas ecológicos (cuja marcha pelo clima, prevista para a manhã no Quartier Latin, fora proibida pela prefeitura de polícia). Todos eles haviam passado as barragens filtrantes dos "controles preventivos" instalados pela polícia, travando os novos que chegavam, revistando mochilas, confiscando eventuais máscaras, óculos de protecção, capacetes...

Pelas 12h15-12h30, quando se preparava pacificamente, como de costume, o cortejo dos sindicatos – organizadores do desfile, como sempre no primeiro dia de Maio – milhares de manifestantes, motivados, coletes amarelos numerosos, alguns grupos black blocs, sindicalistas também, misturados, avançaram para o começo do percursos, ultrapassaram os limites e camionetes dos sindicatos e puseram-se de facto à frente de toda a tropa. Polícias e CRS [Compagnies Républicaines de Sécurité] cortaram logo a sua marcha, bloquearam as ruas em redor, depois atiraram sobre a multidão já compacta granadas de ruptura de cerco (no ar) e grande quantidade de gases lacrimogéneos (à altura do homem). Quem ouviu as advertências – se é que houve –? Primeiros golpes de bastonadas, primeiros lançamentos de garrafas, primeiros feridos... Na confusão, na multidão, aos empurrões, os manifestantes tiveram todos de retornar tanto a bem como a mal para o ponto de partida. O tom estava dado! Nada de melhor para perturbar os espíritos, para aquecê-los. Para provocar. E isto, com que finalidade? Aqui e ali, feridos, rostos em sangue, cuidados pelos "street medics", voluntários heróicos. Os slogans "Isto vai explodir!", "Revolução!" e "Anti-capitalista!" não tardaram a ser amplamente aplaudidos e com entusiasmo...

Em Paris, a Jornada Internacional dos Trabalhadores arrancava com força!

Portanto, até às 14h15, aquelas e aqueles que chegavam a Montparnasse (pontuais, na hora) eram os iniciados do acaso, mergulhando de imediato no pânico provocado pelas intervenções precoces das forças da ordem. Na bagunça notavelmente organizada pelas ordens musculadas do ministro do Interior, Christophe Castaner, e do seu novo prefeito de polícia, Didier Lallement. Assim, antes de desfilar era preciso, em meio a nuvens de fumo, correr em todos os sentidos, procurar refúgio em alguma parte, sob uma varanda de imóvel, numa boutique não barricada da proximidade, para a rua adjacente mais próxima, para poder respirar, muito simplesmente, e tentar manter pelo menos os olhos abertos... Balões sindicais a desaparecerem no ar, bandeirolas espezinhadas, orquestras deslocadas, barracas de batas fritas maltratadas, grupos de amigos dispersos, estarrecidos... Pois o presidente havia prevenido a todos: ir manifestar é ser cúmplice dos amotinadores, dos pilhadores, dos black blocs! Na democracia francesa à moda do La République en marche, comparecer à Festa dos Trabalhadores é doravante assumir riscos e perigos!

1º de Maio em Paris. "La repression en marche", clamava um cartaz, afixado junto a um famoso restaurante de luxo, protegido por pranchas de madeira – La Rotonde, lá onde Emmanuel Macron celebrou, por antecipação, sua vitória na noite da primeira vojlta das eleições presidenciais de 23 de Abril de 2017 (frente a Marine Le Pen).

Entre tantos outros, um daqueles que sofreu as consequências desta acometida à cabeça da manifestação pelas forças da ordem foi o próprio secretário-geral da CGT, Philippe Martinez. Desde o princípio da mobilização dos coletes amarelos, em Novembro último, ele se mostrar extremamente (excessivamente) prudente e pouco inclinado à apoiá-la abertamente, esforçando-se por manter a Confederação a distância da rebelião popular. E isto quando as suas próprias bases sindicais, muito presentes desde a origem entre os coletes amarelos, diariamente, no terreno, não cessavam de pressionar sua liderança para que a CGT se empenhasse muito mais resolutamente ao lado dos coletes amarelos.

Entretanto, toda a gente desfilava em conjunto neste 1º Maio e isto era animador. Posicionado à frente do cortejo sindical, Philippe Martinez têve de ser precipitadamente extraído pelo seu serviço de ordem que sofria – jamais visto num 1º de Maio – as cargas reiteradas e particularmente brutais das forças da ordem. Camaradas, apesar de perfeitamente identificáveis como sendo da CGT, foram batidos reiteradas vezes. E muitos outros com ele. Alguns pretenderam que black blocs haviam pretendido avançar para debater-se com os líderes da CGT, mas numerosas testemunha da cena viram muito bem a polícia atacar as fileiras dos sindicatos CGT e Solidaires. Sem motivo. A prefeitura de polícia de Paris apressou-se a desmentir... aquilo que muitos observadores constataram:   sindicalistas foram deliberadamente atacados.

1º de Maio em Paris. Cerca de uma hora e meia depois de o cortejo ter enfim sido autorizado a iniciar seu trajecto, mais uma vez: no boulevard de l'Hôpital, homens do CRS acometeram o desfile sindical e empurraram novamente seus serviços de ordem. O mesmo procedimento no fim da jornada, junto à Place d'Italie, quando a massa dos manifestantes que teve a coragem de ali chegar foi constrangida uma segunda vez, tudo como no início, a recuar, sob os jorros dos canhões de água e o dilúvio das granadas lacrimogéneas... Em tais condições, será espantoso perceber que, graças a estes métodos inovadores de manutenção da ordem (incitando a "entrar em contacto"), choques e afrontamentos, relativamente duros, terão lugar a cada fim de percurso?

Equivale a dizer que o desfile parisiense, além de mais denso – 80 mil participantes segundo a CGT, ou seja, duas vezes mais pessoas que no ano passado –, foi singularmente tenso. Nos dias anteriores, os comunicados e os tweets do Ministério do Interior, cuja propaganda foi generosamente difundida pelos media domesticados, havia feito tudo para dramatizar a situação, para assustar, para dissuadir ao máximo de sair, em suma para impedir o desenrolar da Festa dos Trabalhadores. A campanha mediática alarmista anunciava "o pior", "o apocalipse", a "guerra civil": para este 1º de Maio, prometia que Paris se tornaria a "capital do motim"... Aquelas e aqueles que assumiram a opção de se deslocar e de se bater mesmo assim sobre o pavimento tiveram de desafiar uma apreensão difusa e muito inabitual. Um medo habilmente tecido, no topo, pelas autoridades políticas. E o facto é que não se viu crianças no cortejo deste ano. Hoje, quando se resiste em França, já não se desfila em família. Tínhamos todas e todos no espírito a terrível contagem, alucinante, na realidade incrível, dos feridos, dos amputados, dos desfigurados, registados desde há seis meses no país.

Para este 1º de Maio particular, após 25 semanas de mobilização dos coletes amarelos, e mais de dois anos de luta contra as "leis do trabalho", uns 7500 membros das forças da ordem, com armaduras, equipados para o combate, haviam sido instalados na capital. Ao longo de todo o percurso, de Montparnasse à Place d'Italie, este impressionante dispositivo policial, inquietante, opressivo, esmagador, envolvia o cortejo como numa armadilha, interrompia-o regularmente formando gargalos de estrangulamento ou encerrando ruas em torno, dividia-o em pequenas secções ("para melhor o gerir", diz-se), cercava-o, proibia frequentemente as entradas ou as saídas, sufocava-o lançando gás, bloqueava-o, impedia-o no fim de alcançar sua meta... Em muitos lugares, ofensiva policiais eram lançadas, subitamente, empurrando tudo na sua passagem, extirpando tal ou tal indivíduo alvo, conforme a nova doutrina em vigor...

É portanto neste contexto complicado, frequentemente confuso, por vezes caótico, que nas ruas de Paris aprenderam a misturar-se coletes amarelos e insígnias vermelhas. Mais as tee-shirts negras. A vontade de convergência era bem evidente, afirmada, muito amplamente partilhada pelos manifestantes. Não marcham todos ao mesmo ritmo, mas muitas reivindicações se combinam. É preciso lutar. Não temos escolha. Há urgência. Pois tudo pode balouçar para o melhor ou para o pior.

Contudo, convém tomar consciência, desde já, que as técnicas de governação e de manutenção da ordem em claro-escuro e sfumato postas em prática pelo Eliseu conduzem a um imperceptível apagamento das linhas de contorno da democracia, ao deslizamento dos padrões do Estado de direito para a banalização da violência de Estado. Por planos justapostos, a luminosidade do conjunto se obscurece, as gradações sombrias alteram a clareza da bela sociedade dos direitos do Homem, os traços tornam-se mais incertos sob a superfície lisa e invisível de um autoritarismo em gestação. Irreconhecível, a França envolve-se pouco a pouco numa atmosfera irrespirável.

As classes dominantes francesas, depois de terem conseguido insensibilizar muitos quanto à sorte reservadas às populações do Sul pelos bombardeamentos do seu exército, tentam doravante tornar indiferente às infelicidades e às repressões que esmagam os mais modestos, os menos afortunados entre os nossos compatriotas, exumando a figura do "inimigo interno".

Entre golpes de comunicação e jactos de lacrimogéneos, entre mentiras grosseiras e golpes de bastão, o presidente Macron e seu governo – únicos responsáveis, no fundo, por este desencadeamento de violências – conduzem directamente o país pelo caminho de uma transição que se parece muito à ante-câmara de uma forma de neofascismo que não ousa dizer o seu nome. Um neofascismo untuoso, refinado, com alguma coisa de distinto. Sorridente, mas realmente preocupante. O do poder ditatorial das instâncias capitalistas da alta finança que sangram os povos, simulam a participação, dissolvem a ligação social e louvam a felicidade.

Esta poderia efectivamente a nova página da história da França que este presidente-janota está em vias de redigir diante de nós, com sua escrita especular. E tal como aquela de Leonardo da Vinci, precisamos decifrá-la ao espelho. O homem que se apresenta como "o baluarte contra o fascismo" de Marine Le Pen seria apenas o seu duplo. Este chefe de Estado que se esforça por pintar-se num retrato como o "melhor garante da democracia" seria, se se olhar de perto, seu coveiro.

Afinal de contas, não declarou ele, pouco antes de explodir a insurreição dos coletes amarelos, que o marechal Pétain foi "também um grande soldado"?

05/Maio/2019

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08/Mai/19