A greve nas urgências hospitalares continua a estender-se
por Rémy Herrera
Desde há quase quatro meses, a mobilização do pessoal dos
serviços das urgências hospitalares públicas não
cessa de ganhar importância. Este movimento, travado por enfermeiros/as e
auxiliares de cuidados, no essencial, mas igualmente por médicos,
começou em 18 de Março último no hospital Saint-Antoine
(no Leste de Paris) quando os cuidadores deste estabelecimento decidiram
protestar contra a degradação das suas condições de
trabalho e agressões que têm sido vítimas
vários membros da sua equipe médica (nomeadamente em 13 de
Janeiro). Algumas semanas mais tarde, no fim de Maio, cerca de sessenta
serviços se puseram em greve prorrogável
(reconductible)
em todo o território francês; em meados de Junho, cerca de uma
centena lhes haviam seguido os passos. E agora, no princípio de Julho,
eram 154 serviços públicos de urgências (dos 524 com que
conta o país) que haviam entrado na luta, agora com
ligações de solidariedade com seus colegas grevistas ou em
estreito contacto com o colectivo Inter-Urgências que foi
constituído para estruturar e reforçar esta greve. No presente
momento, 22 dos 39 hospitais do grupo Assistance publique - Hôpitaux de
Paris (AP-HP), dentre os quais alguns dos maiores estabelecimentos da capital
(como os de La Pitié-Salpêtrière, Lariboisière,
Saint-Louis, Tenon, etc.), declararam-se oficialmente em greve ilimitada.
As reivindicações da coordenação nacional,
formuladas em conjunto com a intersindical das urgências CGT
(Fédération santé et action sociale), FO e SUD, assim como
com a associação dos médicos de urgências de
França, apoiadas pontualmente pela CFE-CGC (Confédération
française de l'encadrement - Confédération
générale des cadres), são as mais justificadas
possíveis. Eis aqui as principais: uma revalorização das
remunerações dos cuidadores (um prémio mensal de 300 euros
líquidos como reconhecimento da especificidade e da penosidade do
trabalho efectuado); o aumento dos efectivos (a criação de 10 mil
postos ou equivalente a tempo inteiro de enfermeiros e ajudantes de cuidados,
dos quais 700 nos 17 serviços de urgências para adultos da AP-HP);
a inversão da tendência à supressão das camas de
medicina (inclusive a montante, ou seja, não só nos cuidados
pós-operatórios mas também em casas de
convalescença) e o "fim da hospitalização sobre
macas"; a cessação dos encerramentos de linhas do SAMU
(Serviços de ajuda médica urgente), do SMUR (Estruturas
móveis de urgência e de reanimação) e certamente dos
próprios hospitais; e a abertura de negociações com a
ministra da Saúde que ainda não recebeu os representantes
dos grevistas após mais de três meses de conflito social. Estas
reivindicações foram expressas aquando de uma série de
mobilizações nacionais, de greves e de
manifestações, muito simplesmente diante dos locais do
Ministério da Saúde, da sede parisiense da AP-HP e das
agências regionais de saúde. A última jornada de
acção foi em 2 de Julho. Nestas ocasiões,
protestatários denunciaram o estado absolutamente lamentável dos
seus serviços deitando-se sobre o asfalto da calçada, gizando
assim no próprio solo, compondo pontos de sutura e ferimentos, gazes e
ataduras sobre o rosto...
Este é o mais poderoso movimento de greve no sector da saúde
desde há duas décadas. Mais de 9 franceses em cada 10 (92% e 96%
entre os profissionais de saúde) dizem apoiá-lo e estar de acordo
com suas queixas. Franceses que são profundamente apegados ao seu
sistema público hospitalar. E tanto mais escandalizados ao saber que,
por falta de meios humanos e materiais suficientes, houve uma pessoa morta
após horas de espera num corredor das urgências sem ter podido ser
examinada a tempo por um médico como aconteceu em Dezembro de
2018 num dos grandes hospitais parisienses) ou que uma mulher deva parir
sozinha sobre uma maca (como aconteceu dia 7 de Julho em Lyon, terceira cidade
do país).
Na prática, entretanto, os grevistas das urgências continuam a
fazer seu trabalho recebendo e ocupando-se dos pacientes que chegam ao
hospital. Tal é a sua ética altruísta, tal é a
concepção humanista que eles/elas têm da sua missão
de serviço público. E tal é o bem que eles/elas têm
feito durante os episódios de canícula que recentemente afectaram
o país. A maior parte deles exibem simplesmente uma braçadeira ou
uma etiqueta nas costas da sua blusa: "em greve". Bandeirolas
improvisadas pintadas e afixadas nas fachadas dos hospitais recordam as
reivindicações dirigidas ao Ministério da Saúde.
Este último faz-se de surdo e conta com a proximidade das férias
de Verão para tentar abafar pelo silêncio a cólera que se
avoluma. Mas aconteceu (no hospital de Lons-le-Saunier [Jura], em particular)
que um administrador do Estado
(préfet)
ordenar a requisição do pessoal grevista e impor-lhe uma
obrigação de serviço mínimo (aplicando uma lei que
no mandato de Nicolas Sarkozy foi endurecida). E no decorrer das últimas
semanas, enfermeiros e ajudantes de cuidados foram acordados nos seus
domicílios, em plena noite, por polícias ou gendarmes enviados
para os constranger a retomar o trabalho de imediato. Os cuidadores afectados
por estas designações forçadas, retiradas do seu tempo de
repouso, viram-se desse modo obrigados a trabalhar até 18 horas
seguidas, ou 72 horas na semana, a fim de que a continuidade dos cuidados fosse
assegurada. Aquelas e aqueles que, exaustos excessivamente, haviam obtido uma
licença de doença tiveram direito a uma seca
admoestação do seu ministro de tutela, a ministra das
Solidariedades e da Saúde, Agnès Buzyn antiga interna dos
hospitais de Paris, outrora abundantemente remuneradas pelos grandes
laboratórios farmacêutico (e esposa do director-geral do Instituto
Nacional da Saúde e da Investigação Médica).
É no entanto exactamente ela a responsável desta
catástrofe! Ela e o governo neoliberal supervisionado pelo presidente
Macron.
Entre meados dos anos 1990 e hoje, em França, o número de
pacientes necessitados de uma consulta às urgências dos hospitais
públicos mais que duplicou, passando de 10 para 21 milhões.
Só em Paris, cerca de 15% dos pacientes adultos suplementares foram
registados pelos serviços de urgências nos últimos cinco
anos e 20% pelas urgências pediátricas. A impossibilidade de obter
rapidamente um encontro com um médico liberal (mesmo junto ao seu
médico habitual o médico de família referencial
, mesmo nas grandes cidades, longe dos "desertos
médicos") explica em parte uma tal evolução. Mas
sobretudo, para numerosos utilizadores, que experimentam fins de mês
difíceis, o facto de poder não avançar o pagamento dos
cuidados ministrados pelo hospital público leva-os a estes
serviços de urgência. Ao mesmo tempo, os meios postos à
disposição das equipes médias têm sido cortados sem
cessar, limitados. Mais de 100 mil camas foram suprimidas em 20 anos. O caos
tornou-se diário, "organizado", a gestão da
penúria habitual, a produtividade pressionada ao extremo. Resultados? As
urgências estão saturadas, os edifícios inadaptados, os
tempos de espera dos pacientes excessivos (em média seis horas para ser
auscultado por um médico, 12 horas para ver um especialista), as
consultas encurtadas. O pessoal tem excesso de trabalho, está submetido
a um stress permanente, esgotados física e psicologicamente (um
terço dentre eles próprios tiveram uma perturbação
de saúde nos últimos meses), as tensões exacerbadas e a
incivilidades multiplicadas tornam-se habituais... Actos de violência
registaram-se mesmo em muitas ocasiões, a maior parte do tempo por parte
de visitantes atingidos por patologias mentais rejeitados pelos encerramentos
em série de hospitais psiquiátricos, ou pessoas sem
domicílio fixo ou em situação de precariedade
lançadas à rua e mergulhadas na miséria social por 40 anos
de políticas neoliberais. Dir-se-á: este pessoal das
urgências recebe pelo menos uma "indemnização por
trabalhos perigosos, incómodos ou insalubres". Efectivamente: ela
se eleva actualmente a... cinco euros por mês! É assim que os
homens e mulheres cuja profissão consiste em salvar a vida dos seus
concidadãos são reconhecidos e gratificados!
É aqui que estamos! Uma vergonha! E a razão fundamental da
situação catastrófica na qual se debate o hospital
público ou seja, um das muralhas que sustentam nossa sociedade
é bem mais grave do que esta insuficiência de meios
absolutamente real. Ela tem a ver com a lógica destruidora de um
neoliberalismo que fracassou mas que continua a nos ser imposto. Os
orçamentos hospitalares não aumentam mais a cada ano senão
muito fracamente, a um ritmo menor que as necessidades as quais, elas sim,
aumentam fortemente devido à massificação do acesso aos
cuidados, do envelhecimento da população, dos custos elevados de
tratamentos cada vez mais complexos e sobretudo controlados por
oligopólios farmacêuticos privados que dominam o sector da
saúde. Mas a busca incessante de economias leva os administradores de
estabelecimentos hospitalares públicos a gastar menos do que aquilo que
lhes é concedido pela lei de finanças, sem que as reservas sejam
desbloqueadas, ao ponto de resultarem regularmente excedentes de
exploração ao contrário da medicina liberal, cujas
despesas derivam. As raras margens de manobra são então
encontradas por jogos de não substituição dos efectivos
que partem para a reforma, ou em licença de maternidade, ou em
férias e realocações de pessoal (nomeadamente para postos
administrativos ou de controle). Daí a escassez de pessoal
crónica dos serviços médicos e paramédicos (com
rácios de pacientes por cuidadores geralmente muito inferiores às
normas profissionais), mas igualmente uma desmultiplicação das
tarefas anexas, uma fragmentação das actividades e o
terrível sentimento para estas pessoas de não haver realizado o
seu trabalho até ao fim, de não ter cumprido seu dever como
é preciso. Pouco a pouco, o serviço público se
arruína, endurece, desumaniza-se; e os cuidadores e utilizadores com
ele. Os riscos de erro aumentam, por vezes a vida dos pacientes é mesmo
posta em perigo... Os anúncios recorrentes de défices das contas
da Segurança Social vêm ainda acentuar as pressões sobre os
orçamentos públicos, aos planos de
cost killing,
ao encerramento de camas até mesmo a hospitais inteiros ,
à compressão dos efectivos (com, por exemplo, várias
centenas de postos suprimidos em 2019 pelo director-geral da AP-HP, Martin
Hirsch; 190 outros em Cherbourg e outros ainda em Tours, Nancy, Marselha...).
Há alguns meses, no Béarn (região Nova-Aquitania), as
forças da ordem locais tiveram de cumprir a sinistra missão de
vir encadear a entrada da maternidade de Oloron-Sainte-Marie
(Pirinéus-Atlanticos), pois em alto nível havia-se ordenado o seu
encerramento. Infelizes mamãs, para as quais o hospital mais
próximo doravante está situado a mais de duas horas das suas
casas, tiveram de redescobrir as "alegrias" dos bons velhos tempos:
dar nascimento à sua progenitura em casa ou à beira da estrada. A
política conduzida pelo governo de Édouard Philippe, facilitando
a existência de empresários (ao invés da vida dos
lactantes) e consistente em reduzir maciçamente os impostos sobre o
capital e as contribuições patronais, implica uma
diminuição das receitas do Estado e da Segurança Social
portanto um acréscimo da dívida pública (que
deverá um dia ser reembolsada) e acaba no fim do ciclo par
asfixiar o conjunto do sistema hospitalar e por encerrá-lo numa espiral
infernal de destruição dos serviços públicos. Mas
não é precisamente isto que desejam os poderosos do dinheiro aos
quais o presidente Macron reserva seus favores e dedica suas
atenções?
É esta lógica neoliberal absurda e mortífera que se trata
de quebrar. Mas, frente às cóleras e aos sofrimentos, frente aos
desgastes que provocam seus ditames, o governo nega, escora-se, teima. Ele
ignora, despreza, atiça as revoltas, tal como o havia feito durante a
mobilização dos coletes amarelos. Apesar da intensidade do
conflito em curso, até agora ele não deu nenhuma resposta
concreta e satisfatória às reivindicações dos
trabalhadores em greves das urgências: nem em matéria de
remuneração ou de emprego, nem no que respeita a
cessação dos encerramentos de serviços ou às
reaberturas de camas, nem mesmo quanto ao início de
negociações com o colectivo Inter-Urgências. Além de
75 milhões de euros de propostas para repintar as paredes e fazer horas
extras, nada está sobre a mesa (quando as reservas acumuladas pela
subutilização sistemática dos créditos hospitalares
ultrapassam só por si 330 milhões de euros este ano). A ministra
da Saúde contentou-se em afirmar: "Sinceramente, os problemas
não vão se resolver por eu pagar mais". A rebelião do
pessoal das urgências não está portanto prestes a
extinguir-se ainda que o Verão esteja aí. Tudo está
estabelecido para que o seu movimento de greve se estenda às outras
categorias de pessoal hospitalar daqui até o retorno de férias em
Setembro.
E durante este tempo, nesta França
new-look
em deliquescência de Emmanuel Macron, mais de um quarto dos franceses
declaram não mais encontrar na farmácia os medicamentos que os
seus médicos lhes prescreveram para tratar das suas patologias. Em
particular a cortizona ou tratamentos contra o cancro. Por que isso? Porque os
laboratórios privados franceses que tanto apreciam Agnès
Buzyn preferem vender seus produtos prioritariamente para o estrangeiro
pela razão de que os preços dos medicamentos seriam demasiado
baixos no hexágono!
10/Julho/2019
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