Após o congresso da CGT, a luta (interna) continua

por Rémy Herrera

O 52º Congresso da CGT (Confederação Geral do Trabalho) efectuou-se dias 13-17 de Maio em Dijon. Seu contexto conjuntural era particular: desde há mais de seis meses, o movimento popular dos coletes amarelos, apesar da sua complexidade e heterogeneidade, suas dificuldades e limitações, chegou, pela primeira vez desde há muito tempo, a bloquear – senão mesmo a travar – a máquina infernal das políticas neoliberais. Será preciso na verdade remontar ao mês de Abril de 2006 e às manifestações estudantis e de alunos do liceu contra o Contrato de Primeiro Emprego (Contrat Première Embauche, CPE) do governo de Dominique de Villepin, sob a presidência de Jacques Chirac, para ver um poder em exercício em França ceder à pressão da rua.

Num período mais longo – e num fundo de crise sistémica do capitalismo – o pano de fundo deste Congresso, é também o de uma perda de representatividade das organizações sindicais em geral e especialmente de um recuo relativo da CGT. Pois desde as últimas eleições profissionais, apesar de ela permanecer preponderante na função pública, a Central sindical aparece apenas em segunda posição no conjunto do sector privado, doravante ultrapassada pela CFDT "social-democrata" (Confédération française démocratique du Travail), apoio objectivo dos governos neoliberais que desmantelam os direitos dos trabalhadores. Entretanto, apesar de um esfarelamento certo – suas fileiras continuaram a encolher nestes últimos anos, com cerca de 23 mil cartas a menos desde 2015 – a CGT permanece sempre à frente da CFDT quanto ao número de aderentes: 653 mil sindicalizados para a primeira, contra 624 mil para a segunda. Recordemos que em 1975 a CGT tinha 2,4 milhões de sindicalizados... E 5 597 000 aderentes em 1945.

Esta relativa perda de velocidade da CGT tem razões profundas e explica-se por múltiplos factores, igualmente bastante partilhados pela maior parte dos outros sindicatos. A violência da ofensiva neoliberal lançada desde a década de 1970, a desindustrialização gradual do país, a aceleração das deslocalizações, o aumento da sub-contratação e a "uberização" da sociedade, assim como a repressão patronal e estatal visando especificamente as actividades sindicais, certamente produziram seus efeitos, determinantes, devastadores, acentuando a precarização e a fragmentação do mundo do trabalho. A influência da CGT reduziu-se, fundamentalmente, porque, sob a pressão neoliberal, ligada ao retorno ao poder da alta finança no fim dos anos 1970, a relação de forças entre o capital e o trabalho modificou-se consideravelmente em favor do primeiro, o que fez recuar o segundo e o colocou desde há 40 anos na defensiva.

No entanto, entre estas evoluções pesadas – e evidentemente não só em França – a falta de combatividade cada vez mais manifesta das sucessivos direcções da CGT agravou consideravelmente a situação. As facas foram afiadas, no momento da viragem neoliberal operada pelos governos socialistas do tempo do presidente Mitterrand, nos bastidores, no círculo de Henri Krazucki, secretário geral de 1982 a 1992 e herói dos Francs-tireurs et partisans – Main-d'œuvre immigrée (FTP-MOI) na resistência comunista à ocupação nazi. Posteriormente, os conflitos internos não fizeram senão intensificar-se com os seus sucessores, que imprimiram uma tendência reformista derrotista nas instâncias dirigentes. Foi sob o mandato de Louis Viannet, secretário-geral de 1992 a 1999, que estes últimos decidiram, em Novembro de 1994, a retirada da CGT da Federação Sindical Mundial ( FSM ), julgada "não democrática" por ser "revolucionária" – e considerada, desde Maio de 1992, como tendo "chegado ao termo do seu processo histórico" e relativa ao "último bastião" dos sindicatos inscritos numa visão "obsoleta" do mundo. O síndrome do "fim da história" atinge com toda a força estes dirigentes e leva-os em 1999 a exarar, por uma votação do 45º Congresso, a saída oficial da FSM, condição sine qua non a cumprir a fim de aderir à Confederação Europeia dos Sindicatos (CES):

Esta atitude de seguidismo oportunista aprofundou-se ainda mais com Bernard Thibault, secretário-geral de 1999 a 2013 (líder dos ferroviários CGT... mas que se opôs pessoalmente à grande greve de Novembro-Dezembro de 1995 que contudo fez recuar o governo de Alain Juppé na sua "reforma das aposentadorias"). A concepção reformista das relações capital-trabalho impôs assim a renúncia à luta de classes que foi substituído por um pretenso "sindicalismo reformista" ("syndicalisme rassemblé") (pró-capitalista e pró-europeu, naturalmente!), fundado na implantação de um "diálogo social" pela "concertação", pela "negociação", pela "proposição" e pela "parceria". Logicamente, tendo em conta estas derivas e esta inconsistência de análise, a direcção federal bate no fundo durante os dois anos de mandato de Thierry Lepaon (2013-2015), o qual foi constrangido a demitir-se na sequência de um escândalo lamentável – antes de ser generosamente recompensado pela sua obra pelo primeiro-ministro "socialista" Manuel Valls (que o impulsiona para a direcção da "Agence de la langue française") e que recentemente foi reciclado pelo presidente Macron em pessoa (que o nomeia, em Março último, "inspector-geral da juventude e dos desportos de primeira classe"). Esta lenta e desastrosa degenerescência de uma direcção confederal cada vez mais visivelmente integrada no "sistema" deteriora gravemente a imagem da CGT e desacredita-a aos olhos de muitos assalariados. O que há de surpreender? A Central não mais senão a sombra de si mesma e virava as costas aos combates heróicos dos camaradas do passado. A bem dizer, não foram os trabalhadores que se afastaram dela, foi a sua direcção que os abandonou sob o fogo da guerra de classes que os capitalistas travavam contra eles.

Se na liderança actual, Philippe Martinez, no posto desde 2015, não é certamente o pior, o facto é que ele optou por moldar-se na continuidade deste abandono das posições de classe do internacionalismo iniciado pelos seus antecessores desde o princípio dos anos 1990. Seu mais grave erro é o distanciamento que ele tem mantido conscientemente em relação aos coletes amarelos desde o começo da sua mobilização em Novembro de 2018. Sob a sua condução, a direcção do sindical passou completamente ao lado do acontecimento. Acontecimento certamente imprevisível, insólito, difícil de apreender e de analisar, multiforme, mas que se interpretava, desde o seu surgimento espontâneo (nos "desertos sindicais"), como um sobressalto saudável e com fundo inevitável de rebelião de um povo contra a violência social que sofre há mais de 40 anos. Um acontecimento que fez tremer as esferas do poder e até do próprio presidente da República. Será que se esquecer que Emmanuel Macron, em pânico frente aos tumultos de Dezembro, visita no sub-solo do Eliseu o "PC Júpiter", posto de comando bunkerizado da ala Leste do palácio presidencial destinado a proteger o chefe de Estado em caso de ataque nuclear? E que fez Philippe Martinez? Optou pelo silêncio e pela inércia. Isto, no instante precio em que se questionava na cúpula do Estado, em que 80% dos franceses apoiavam a revolta dos coletes amarelos e em que as suas próprias bases cegetistas desfilavam com estes últimos pela razão evidente de que as reivindicações de uns e de outros convergiam naturalmente.

Fazia anos que as equipes dirigentes da CGT procuravam "mexer as coisas" – um pouco à maneira de um Emmanuel Macron a falar de "reformas": tratava-se de "fazer prova de realismo", de não "se fechar sobre si mesmo", de não sermos "sectários ou passadistas", de "praticar o diálogo social" ao lado das outras organizações sindicais (CFDT em primeiro lugar que, desde há muito, colabora com os sucessivos governos neoliberais, inclusive os "socialistas") para ajudar a implantar as medidas concebidas e desejadas pelo patronato. Curiosa iniciativa essa a de um Philippe Martinez a assinar um acordo de parceria com a Universidade Paris-Dauphine, famosa pelos seus ensinamentos muito à direita, a fim de por de pé um curso de formação dos quadros da CGT em "gestão de recursos humanos"! E que bela foto do mesmo secretário todo sorrisos ao lado de François Rebsamen, o maire "socialista" da cidade que abriga o 52º Congresso e antigo ministro do Trabalho, do Emprego, da Formação Profissional e do Diálogo Social (do governo de Manuel Valls) que prepara o terreno para a aplicação das lei "El Khomeri" que desmantelam o direito do trabalho... O mesmo Rebsamen que declarava há pouco não se recordar de quem era exactamente Ambroise Croizat, o ministro comunistsa (194-1947) que respeita escrupulosamente a instauração do programa do Conselho Nacional da Resistência fundando, na França da Libertação, os sistemas de Segurança Social e de reformas, os comité de empresa, assim como (por um decreto de 2 de Novembro de 1945, nomeadamente), as cantinas, as creches, os dispositivos de ajudas ao realojamento, de assistências sociais, de dispensários de Medicina do Trabalho, de Inspecção do Trabalho! Esquecer estas conquistas é vender a alma. Pactuar com o inimigo de classe. Trair.

Ora, as coisas efectivamente "mexeram-se" no 52º Congresso de Dijon – e sobretudo no bom sentido! Ou seja, não naquele desejado pela direcção cessante. Apesar das manobras (grosseiras e toscas) desta última, os cerca de 1000 delegados presentes decidiram: 1) maioritariamente votaram uma declaração final mencionando os coletes amarelos e manifestando o apoio da CGT à sua mobilização (ao passo que P. Martinez nem sequer os mencionou no seu discurso); 2) radicalizar as críticas dirigidas à União Europeia e ao euro (ainda demasiado fracamente, mas já é um progresso); e 2) adoptar uma emenda que abre o caminho a um pedido de estatuto de observador da CGT na Federação Sindical Mundial – abandonada há 20 anos por rejeição da "via revolucionária". Philippe Martinez e os seus não queriam nada disso, mas os militantes o impuseram, em conjunto, democraticamente, pelos seus votos. E houve delegados que entoaram A Internacional, com punhos levantados, em protesto contra as tomadas de posições "consensuais" (traduzir: de submissão ao patronato) dos representantes da CES e da CSI (Confederação Sindical Internacional), Luca Visentini (número um da CES) e Owen Tudor (número dois da CSI), convidados a tomar a palavra. Philippe Martinez – evidentemente reeleito secretário-geral no dia 17 de Maio em Dijon (era o único candidato) – não deu apoio à candidatura de Laurent Berger, seu novo maître à penser , para o posto de presidente da CES? Posto que daqui em diante é ocupado pelo responsável da CFDT desde 23 de Maio.

É claro que a tendência à capitulação da direcção da CGT não foi invertida, nem mesmo realmente bloqueada. Mas as forças combativas autenticamente progressistas no seu seio responderam presentes e em massa – apesar do travamento prévio dos debates pela direcção e da exclusão voluntária dos eventuais contestatários. Todas estas forças internas na CGT recusam e continuarão a recusar corajosamente o apagamento indigno dos seus líderes submetidos aos ditames de centrais reformistas, elas próprias domesticadas pelas potências do dinheiro e dos seus governos. Elas permanecem activas no terreno das lutas em todo o país, impulsionam a tomada de consciência e a organização de uma necessária greve geral ilimitada, procurando amplificar a mobilização dos coletes amarelos que dura desde há mais de seis meses. Estas forças progressistas, que são o futuro, deverão ultrapassar os obstáculos, suas divisões em primeiro lugar – diversas e muitas vezes injustificadas –, sua timidez também – ainda nítida, em particular quando hesitaram em passar à ofensiva frente a uma direcção que mostra mais uma vez suas falhas ao condenar, com o presidente Macron, em plena repressão, as violências dos coletes amarelos (mas não as da polícia!). Contra um aparelho burocratizado e dirigentes que renunciaram a lutar, elas se baterão, no cerne deste sindicato que é o seu, pela unidade dos assalariados e a convergência das lutas, nacionais e internacionais, a fim de que a CGT torne a ser uma ferramenta útil nas mãos dos trabalhadores para a defesa consequente dos seus interesses de classe e para uma solidariedade internacionalista efectiva. E não está escrito que serão derrotadas.

24/Maio/2019

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25/Mai/19