"A proposta do KKE é a única realista e a favor do povo"
por Dimitris Koutsoumbas
[*]
entrevistado por Tassos Pappas
[**]
P.: O senhor diz que quer com o dracma ou com o euro e com o Memorando, o povo
sofrerá sob as presentes condições. Será
possível que esta linha [de argumentação] desmobilize os
cidadãos uma vez que a perspectiva que o senhor apresenta não
parece ter relevância contemporânea?
R: O senhor está totalmente enganado. A proposta política do KKE
é e permanece contemporânea. As outras propostas aquelas do
actual e dos antigos governos apontam para uma "Terra do
Nunca" quanto a uma saída da crise favorável ao povo.
Trata-se de propostas que satisfazem apenas o grande capital e seus sectores.
As propostas dos outros partidos referem-se ou a novos acordos do tipo
Memorando ou simplesmente a uma mudança de divisa através do
Grexit. As propostas adoptadas por diferentes razões pelo actual governo
e outros partidos e aquelas defendidas pela Aurora Dourada e várias
formações extra-parlamentares, são matematicamente
calibradas para levar o povo à bancarrota total. A proposta do KKE,
inversamente, é a única realista e autenticamente
favorável ao povo, uma vez que ela liga o desligamento da Eurozona e da
UE a um plano e programas abrangentes para a economia e a sociedade, incluindo
a socialização dos meios de produção, a
planificação central, a abolição da dívida,
com o povo organizado e determinado, no quadro de um autêntico poder
popular dos trabalhadores. O povo pode avançar nesta
direcção activamente, utilizando a experiência do que o KKE
dizia e continua a dizer, em linguagem clara.
P: Obviamente o senhor está a observar os desenvolvimentos dentro do
SYRIZA. Poderia o KKE, sob certas pré-condições,
começar discussões com um sector do SYRIZA, quero dizer aquele
sector que argumenta por um retorno à divisa nacional e uma
organização diferente da sociedade grega?
R: Se o senhor refere-se a quadros importantes do SYRIZA, que arcam com pesadas
responsabilidades pela situação a que chegamos, quadros que
apoiaram a estratégia política do SYRIZA, que venderam e
continuam a vender falsas esperanças e ilusões, impedindo a
radicalização do movimento, quadros e grupos que estão a
vender o caminho capitalista para o dracma e a integração numa
diferente aliança imperialista como solução alegadamente
pró povo, e na verdade defendem um caminho que leva à
ruína das relações sociais e da prosperidade popular
através de "rupturas" como aquelas a que assistimos nos
últimos seis meses, respondo inequivocamente que não existe tal
perspectiva de um caminho comum. Naturalmente, as forças populares e dos
trabalhadores que apoiaram o SYRIZA, bem como outros partidos, são uma
questão diferente. A eles, o KKE está a dirigir um apelo à
discussão e à adopção de um caminho comum.
P: Estará o senhor receoso de que um partido à esquerda do
SYRIZA, vindo de dentro do SYRIZA, venha a criar problemas para o KKE?
R: Os partidos estilo Lafazanis que o senhor tem em mente desempenham sempre o
papel de baluartes contra o despertar popular e dos trabalhadores, contra a
radicalização, contra a orientação
anti-monopólios e anti-capitalista do movimento popular e suas
alianças sociais. Em décadas anteriores, eles ficaram conhecidos
como "KKE do interior", como EAR, como Synaspismos e como SYRIZA.
Eles são aventureiros políticos, com políticas
contraditórias e impossíveis, cuja única
contribuição é fazer com que o povo e o país, bem
como o movimento, desperdicem um tempo valioso.
P: As vozes contra a hegemonia alemã estão a ficar mais fortes na
Europa. O senhor acredita que isto avançará? Será
possível a estratégia da austeridade, como expressa pela Alemanha
e seus países satélites, ser derrotada?
R: A estratégia da austeridade é advogada pela Alemanha e seus
satélites, como o senhor diz, mas também é advogada pela
França, pela Itália, pelos "amigos" do Sr. Tsipras.
Hollande avançou um turbilhão de medidas anti-povo em
França e continua a assim fazer, ao passo que Lagarde do FMI, onde os
EUA são dominantes, está a assumir um papel principal na
demolição de quaisquer direitos e garantias [dos trabalhadores]
que tenham sido deixados de pé. Na Grécia não podemos
simplesmente falar acerca de Schauble deixando esquecidos Hollande, Renci,
Cameron, Le Pen, Lew, todos os quais estão a pedir o avanço da
carnificina económica contra o nosso povo, e contra outros povos.
Ao longo de todos estes anos tem sido provado que a competição
entre centros imperialistas, a luta da Alemanha contra os EUA, da Alemanha
contra a França, etc, nada tem a ver com a protecção de
direitos populares, mas sim com quem garantirá mais lucros para os seus
próprios grupos corporativos, quem hegemonizará a Europa e o
mundo. O debate acerca da "austeridade" está integrado neste
contexto.
P: Por que é que numa Europa em crise, onde os trabalhadores são
cruelmente atacados pelas políticas dominantes, não temos
forças fortes de questionamento do modelo capitalista? Por que é
que o socialismo, como o senhor o concebe, é impopular? A
consciência do povo ainda está sobrecarregada por 1989 e o
fracasso do "socialismo realmente existente"?
R: Não há dúvida de que o ideal socialista-comunista
sofreu uma derrota histórica mundial em 1989-1991, através da
subversão da URSS e de outros países socialistas. Foi uma derrota
e um retrocesso que ainda está a ser pago pelos povos, pelo trabalho
internacional e pelo movimento comunista. E isso continua a ser um fardo sobre
o despertar das massas e a emancipação social do povo e dos seus
movimentos.
Mas acreditamos que retrocessos históricos, erros, fraquezas, devem ser
ensinamentos para todos nós. O movimento, a classe trabalhadora, o povo,
deve ser capaz de extrair conclusões valiosas para o presente e o
futuro. Este é o único caminho pelo qual serão capazes de
construir uma nova sociedade, sem os erros do passado. E para reforçar a
tendência rumo à radicalização, rumo ao
questionamento abrangente do caminho capitalista, que agora está podre e
que só pode dar origem a crises, guerras, pobreza e
exploração.
O KKE trabalha firmemente nesta direcção. E somos optimistas,
apesar das grandes dificuldades que temos de enfrentar.
P: Alguns inquéritos de opinião mostram que a
posição do KKE "desviou" alguns dos seus eleitores para
o apoio ao "Não" no referendo. Fizeram os senhores a
opção errada?
R: Dado o facto de que o governo SYRIZA-ANEL se recusou até mesmo a
submeter à votação no Parlamento a proposta do KKE para um
Referendo com uma pergunta real, estava claro para nós que o nosso
objectivo não era arrecadar votos mas sim lançar uma campanha de
cinco dias para um Não à proposta do BCE-UE-FMI e um Não
à proposta do governo, que conduzia a um novo Memorando. Isto foi
provado muito rapidamente, uma vez que os 62% que votaram Não foram
sequestrados pelo Sr. Tsipras e os outros partidos, excepto o KKE, e
convertidos num grande Sim ao novo Memorando.
O apelo do CC do KKE já está a ter reflexos no povo, entre
aqueles que votaram Não com a ideia de que isto significava uma ruptura
com o Memorando, com a UE, com os monopólios e o seu poder, entre
aqueles que lançaram na urna um voto inválido, ou um voto em
branco ou se abstiveram de votar, desafiando realmente o caminho seguido de um
modo radical, rejeitando as enganações do governo, e mesmo com
aqueles que votaram Sim, capitulando à grande chantagem tipo dilema. A
todos eles o KKE estende a sua mão em favor de uma luta comum.
08/Agosto/2015
[*] Secretário-geral do KKE
[**] do "Newspaper of the Editors" (Efimerida ton Syntakton)
O original encontra-se em
www.902.gr/...
e a versão em inglês em
indefenseofgreekworkers.blogspot.pt/....
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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