A questão dos refugiados-imigrantes
Durante a reunião de líderes políticos convocada pelo
Presidente da República sobre a questão dos refugiados,
sexta-feira passada (04/Mar/2016), o secretário-geral do KKE, Dimitris
Koutsoumpas, apresentou um documento com as posições completas e
elaboradas do partido sobre este assunto específico.
"1. O KKE, desde o primeiro momento do agravamento da questão dos
refugiados-imigrantes, tentou explicar suas causas ao povo grego, as quais
são as guerras e intervenções desencadeadas pelos EUA,
NATO e UE na vasta região do Médio Oriente, Mediterrâneo
Oriental e Norte de África, no quadro da sua competição
com outras forças, como a Rússia.
2. É desnecessário dizer que os povos que são
vítimas de guerras, intervenções e regimes
reaccionários têm o direito de procurar uma vida mais segura em
outros países, apesar do facto de que uma solução
permanente para o problema só pode ser encontrada se o povo de cada
país organizar-se e lutar para derrubar o sistema que cria guerras,
pobreza e refugiados.
3. A situação foi exacerbada no período recente devido
à confrontação entre Rússia e Turquia, ao
desenvolvimento da actividade militar turca no Norte da Síria, bem como
ao envolvimento directo da NATO no Mar Egeu, o qual foi decidido na recente
cimeira de ministros da Defesa da NATO, após o pedido do governo grego.
Este envolvimento está a utilizar a questão dos refugiados como
um pretexto, mas na essência está relacionado com os antagonismos
e escaladas da guerra na Síria, enquanto prepara novas possíveis
intervenções em outros países na região. Este
desenvolvimento agravará o problema dos fluxos de refugiados. Ao mesmo
tempo, este desenvolvimento encorajou a agressividade e as
provocações por parte da Turquia, como ficou evidente com a suas
acções dos últimos dias, a qual disputa direitos soberanos
da Grécia no Mar Egeu, utilizando a posição bem conhecida
da NATO de que o Egeu é uma única área operacional, um
facto que abre a questão da abolição das fronteiras
marítimas da Grécia.
4. O governo grego deve retirar imediatamente seu acordo ao envolvimento de uma
força naval da NATO no Egeu. Não deve proporcionar
assistência, nem infraestruturas ou bases; não deve permitir a
utilização das suas áreas territoriais e marítimas
e do seu espaço aéreo para a preparação ou
execução de intervenções e guerras imperialistas.
Além disso, deve retirar seu apoio às decisões da UE, as
quais juntamente com o Acordo de Schengen e as Regulações de
Dublim, condena milhares de refugiados a serem encurralados na Grécia
contra a sua vontade.
5. O KKE, desde o primeiro momento em que a tendência para a
exacerbação da questão dos refugiados-imigrantes se tornou
clara, denunciou a linha política da UE sobre a mesma como sendo a causa
principal para o aprisionamento
(entrapment)
de refugiados e imigrantes em vários países que são
entrada para a UE, incluindo a Grécia. A decisão da Cimeira de 23
de Setembro de 2015 criou as condições para chegarmos hoje
à sufocante situação de aprisionamento. Esta
decisão, a qual foi saudada pelo governo grego como um êxito,
determina a reacomodação de um pequeno número de
refugiados, os quais as economias capitalistas de países europeus querem
absorver, em países da UE, enquanto a vasta maioria enfrentará
repressão, expulsão
(refoulement)
e aprisionamento em países como a Grécia. A Cimeira de 18 de
Dezembro de 2015 "apertou o nó ainda mais" em torno dos
refugiados e imigrantes, com decisões para a estrita observância
de Schengen, a criação de uma Fronteira e Guarda Costeira
Europeia, etc. Em paralelo, ela viola a Convenção de Genebra e
não reconhece pessoas vindo de países como o Afeganistão
como sendo refugiados, apesar do facto de que são zonas de guerra e sob
ocupação imperialista.
6. A decisão recente da Cimeira da UE de 19 de Fevereiro reproduz os
mesmos impasses, tais como fronteiras fechadas, cercas, forças de
repressão e gás lacrimogéneo, além de tectos e
quotas mesmo para refugiados. O terreno está a ser preparado para
soluções ainda mais permanentes e penosas. Certas
secções da decisão desta cimeira são
características: "Os contínuos e constantes fluxos de
migrantes irregulares ao longo da rota dos Balcãs Ocidental permanece
uma grave preocupação que exige mais acção
concertada e um fim para esta onda através de abordagens e de
medidas não coordenados ao longo da rota, ...
Os que procuram asilo não têm o direito de escolher o Estado
Membro no qual procuram asilo".
Estas decisões dão o "sinal verde" para
proscrições e aprisionamentos e incentivos estados, como a
Áustria e outros, que inaceitavelmente fecham as fronteiras. Enquanto a
Alemanha e a Suécia reforçam controles e restrições
de fronteiras em relação à concessão de asilo,
fortalecendo redes de tráfico humano e alentando
organizações fascistas.
7. Com base no acima dito e considerando que não pode haver
solução ou mesmo alívio do problema enquanto as guerras e
intervenções imperialistas na região continuarem e as
decisões específicas a UE e da NATO permanecerem em vigor, o KKE
propõe posições específicas para aliviar o
problema, as quais no entanto exigem a anulação das
decisões das uniões e alianças imperialistas. As
consequências só podem ser tratadas nesta direcção.
Transferência imediata e segura de refugiados-imigrantes dos
primeiros países de recepção como a Turquia,
Jordânia, Líbano, bem como das ilhas gregas, para os seus
países de destino final, sob a responsabilidade da ONU e e da UE com
pleno respeito pelos direitos que decorrem do seu estatuto de refugiados.
Especialmente em relação às ilhas, isto é uma
resposta directa àqueles que derramam lágrimas acerca da
economia, do turismo, etc.
Retirada da NATO do Egeu. O envolvimento da NATO no Egeu, além
dos perigos para os direitos de soberania do país e para o maior
enredamento do povo nos planos de guerra dos imperialistas na Síria e no
Mediterrâneo Oriental, é perigoso, inaceitável e assinala o
envolvimento mais profundo do país numa guerra imperialistas mais
generalizada. Constitui uma violação directa dos Tratados da ONU
e do direito internacional referente a refugiados, de acordo com o qual
é ilegal impedir ou dissuadir refugiados de submeterem pedidos de asilo
a países que aceitarem e estão plenamente integrados dentro da
lei internacional de refugiados. A expulsão de refugiados também
está absolutamente fora da lei.
Respeito pleno para com a Convenção de Genebra e o direito
internacional referente a refugiados. Especificamente:
a) Os direitos que decorrem do estatuto de refugiados e dos que pedem asilo
deve ser reconhecido para todas as nacionalidades a que a ONU atribui um perfil
de refugiado, a qual inclui os refugiados afegãos.
b) As medidas repressivas contra refugiados nas fronteiras com encerramento das
fronteiras, como está a acontecer hoje em
FYROM
e outros países, devem cessar.
c) A imposição de tectos para pedidos de asilo deve cessar
já, a qual está a ser executada de acordo com lógica da
distribuição proporcional ao longo do tempo, na base das quotas
que foram decididas pela UE uma violação na prática
da lei do refugiado.
Financiamento generoso para infraestrutura e resgate pessoal,
especialmente nos meses de Inverno, bem como para a recepção,
cuidados médicos e registo, sob a exclusiva responsabilidade do estado,
sem qualquer envolvimento de ONG.
A criação de centros de recepção
temporários públicos decentes, os quais funcionarão sob a
responsabilidade do Ministério da Política de
Imigração, pois enquanto os procedimentos de primeira
recepção, cuidados médicos, registo e
preparação de documentos perdurarem, os quais permitirão a
continuação segura da jornada para aqueles que querem continuar
a esmagadora maioria ou o exame de pedidos de asilo para aqueles
que escolherem a Grécia como seu país de destino final, os quais
são uma minoria relativamente pequena.
Campos militares inactivos, edifícios, propriedades e
instalações não utilizados, etc que pertencem ao sector
público pode ser utilizados e adaptados para o objectivo de proporcionar
esta acomodação, com a satisfação das necessidades
dos refugiados e de todos os residentes da área sendo o critério
básico. O transporte organizado do porto de Pireu e da Praça
Victória de milhares de refugiados, pondo fim às suas
inaceitáveis condições de vida. Medidas imediatas, sob a
responsabilidade do estado, para a criação de
condições humanas para a estadia temporária em Idomeni dos
milhares de refugiados ali, utilizando todos os meios e possibilidades.
Os "pontos quentes", os centros de reacomodação,
os campos de refugiados-imigrantes são essencialmente centros de
saída, onde um número muito pequeno será transferido de um
modo organizado para outros estados-membros da UE e a maioria será
aprisionada na Grécia, contra a sua vontade. Isto foi confirmado
após o fracasso óbvio do chamado programa da UE de
reacomodação de refugiados. Os 50 mil, segundo o governo, lugares
de abrigo "temporários" demonstraram-se ser lugares de
aprisionamento permanente, como o KKE previu e, naturalmente, não
permanecerá neste número pois já há preparativos
para mais de 100 mil lugares.
Abolição das Regulações de Dublim, Shengen,
Frontex e de todos os mecanismos repressivos da UE. Não a novas medidas
da UE e a mecanismos para a repressão e contestação de
direitos de soberania nas fronteiras, tais como "Fronteira e Guarda
Costeira Europeia" que estão a ser estabelecidos. Estamos
particularmente preocupados em que a questão refugiado venha a ser
utilizada para intensificar a repressão contra os povos da Europa.
Nenhuma participação ou envolvimento da Grécia e
nenhuma provisão das suas forças armadas às guerra e
intervenções imperialistas, as quais são
responsáveis por milhares de refugiados e o desenraizamento de pessoas
dentre os outros muitos tormentos que criam para os povos. Todas as bases
militares dos EUA-NATO na Grécia devem ser encerradas já.
8. O KKE, com as exigências esboçadas acima, dirige-se
principalmente ao povo grego, o qual está a enfrentar as graves
consequências da crise económica capitalista e ao mesmo tempo
está a exprimir sua plena e comovente solidariedade com os refugiados de
todos os modos. O movimento dos trabalhadores e do povo deve lutar por medidas
imediatas para aliviar e apoiar os refugiados, para o seu transporte para os
países de destino, contra as decisões da UE. Deve fortalecer a
solidariedade internacionalista, a luta contra a guerra imperialista e o
apodrecido sistema de exploração que lhe dá origem.
9. Segue-se que o KKE não concorda com as posições do
governo à luz da Cimeira de 7 de Março. É claro que as
decisões da UE terão uma direcção que
intensificará as causas do problema e não tratará das
consequências negativas para os povos da UE e para os próprios
refugiados".
08/Março/2016
O original encontra-se em
inter.kke.gr/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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