Sobre a "objectividade"
Alguém me disse outro dia que devia ser mais
"objectiva" acerca do Iraque... Ela acrescentou, com a sua
mentalidade analítica ocidental, com o seu pensamento montado para
"a investigação e a imparcialidade", que a
"objectividade" me ajudaria a avaliar melhor a
situação...
Ela tentava fazer-me entender melhor a minha situação...
vê-la de uma perspectiva diferente, uma perspectiva que se ajustasse
primorosamente dentro da sua mentalidade... ou dentro de não importa o
que a sua mentalidade pudesse absorver, uma mentalidade
empírico-racional...
"Vamos deixar os sentimentos de lado", disse ela... ela era o
observador objectivo e imparcial da nossa tragédia... da nossa
carnificina... e ela queria entender-me. Entender o que?
As minhas células não precisam entender, elas sabem... os meus
olhos não precisam entender, eles vêm, os meus ouvidos não
precisam entender, eles ouvem... Entender o que?
Que a cor do sangue é vermelha? Que a história tem de ser apagada
e transformada em cinzas e ruínas modernas? O que há aqui para
entender?
O que há para entender acerca de barrigas inchadas e olhos inchados a
enfraquecer lá longe entre tóxicos radioactivos? O que há
para entender acerca de cemitérios em massa que ainda estão a ser
escavados quando escrevo... o que há para entender acerca de uma
sociedade dilacerada, a viver por trás de altas muralhas e em guetos?
O que há para entender?
O que há para entender acerca do meio milhão de
órfãos a viverem nas ruas de Bagdad ou dos 5 milhões de
órfãos a pedirem abrigo e comida, ou do milhões de
viúvas à espera da morte? O que há aí para entender?
Um coveiro disse "o negócio está baixo, mas ainda é
negócio... como de costume". Haviam-lhe perguntado se o seu emprego
provocava-lhe depressões... Ele respondeu "não de todo,
sinto segurança e paz com a morte..."
Entenda isso, se puder com a sua mente "objectiva" e
"imparcial"....
Você nunca viveu numa tenda, nem teve de implorar por
autorizações de residência a serem renovadas... você
não esconde a sua pronúncia, nem a sua origem, não precisa
fazer de conta que não é daqui, nem dali... Agora, isso é
objectivo.
E o som de bombas e as histórias infindáveis de seres ausentes
não são tão pouco a sua música diária... e
parentes perdidos em prisões fantasmas não fazem parte do seu
panorama... e você certamente não esconde fotografias do que
costumava ser a sua casa e não pede a um viajante para discretamente
tirar fotos dela de modo a que nunca a esqueça... assim pode permanecer
com a sua mente "objectiva"...
Quando eles telefonam e perguntam-lhe se "precisa de alguma coisa
daqui" você não precisa dizer "envie-me alguma terra num
saco de plástico, de modo a que eu possa cheirar outra vez..."
Como pode um nariz ser objectivo e imparcial?
Mas, por favor, permaneça imparcial... de modo a que o Ocidental possa
entender.
Porque a sua mente está formatada, uma mente onde tudo está
classificado por ordem... por listas alfabéticas como um baralho de
cartas, o famoso baralho de cartas. ABCDEFG... 1234567... processa ordens, o
que vem primeiro... o que vem depois, as maravilhas da mente investigadora.
Lentes microscópicas a dissecarem vidas humanas... para o nobre fim da
Objectividade.
Como uma pintura primorosamente estruturada... ordem... faça ordem a
partir deste caos se puder...
Faça ordem desta torre em colapso, desta fortaleza em colapso,
faça ordem... de modo a que todos nós possamos nos tornar
objectivos e entender... entender o que a mente já não pode mais
compreender...
Você não precisa ordem, eu preciso ordem... Eu preciso ordem, eles
precisam ordem... nós precisamos base ordenadas, porque todos nós
estão suspensos aqui por um fio e o abismo profundo está abaixo
de nós... nós precisamos ordem, não você.
É por isso que os refrão diário preferido dos iraquianos
é "segurança, segurança... não queremos
comida, não queremos água, não queremos electricidade,
dê-nos apenas segurança..."
E o que os faz tão inseguros? Quem removeu a ordem daqui? Quem é
que a estudou objectivamente a fim de rompê-la e destruí-la?
Quem havia de ser senão aquela mesma mente que investiga com
objectividade...
E se isto ficasse apenas por aqui...
Não só isso, mas você está desconfiado, descrente e
acusado de exagêros...
A mente imparcial não acredita em si... Não quer acreditar em si.
Porque a sua linguagem mudou, você fala uma outra linguagem... uma
linguagem que ele não entende... uma linguagem que ela criou mas que
você não pode dominar...
De modo que você se encontra na posição de precisar provar
com "factos" o que esta mente objectiva criou na sua vida, com
atestados...
Cabe a você o dever de trazer provas e evidências do caos que eles
criaram... da destruição que eles fizeram...
E você se encontra diante de um dilema malicioso, um dilema que
você nem mesmo solicitou... um bocado como um prisioneiro inocente
amarrado com correntes e sem saber se alguma vez sairá desta masmorra
escura... também você, torna-se um prisioneiro deste discurso,
desta mente "objectiva"...
Você se encontra encurralado, onde eles o colocaram. Tal como um
prisioneiro inocente a tentar recordar factos para contar ao juiz, se ele
alguma vez o vir... factos como números, datas e nomes... o prisioneiro
faz uma lista na sua cabeça, listas em ordem alfabética e
numérica... numa ordem perfeita...
Passeio em torno levando um bloco de notas e um lápis. Preciso
apresentar prova, sustentar minhas afirmações, minha realidade.
Tenho de anotar nomes e datas, números numa morgue,
informação precisa apoiada por "evidência concreta
sólida", de modo a poder apaziguar a mente objectiva...
Torno-me um prisioneiro do discurso. O seu discurso.
Sinto mesmo isso quando escrevo neste blog...
Poderia ser mais específica? Pode explicar por que? Você precisa
apresentar evidência. Será que pode mudar o seu estilo? Você
precisa de alguma editoração. Forneça links. Sustente as
suas afirmações. Mude a sua linguagem. O fraseado em inglês
não está correcto. Será que precisa utilizar estas
sentenças rudes? Isto não faz sentido. Isto não é
politicamente correcto. Isto é insultuoso. Por que publicar isto agora?
Este não é o momento para isso. Falta-lhe objectividade.
Você está a generalizar. Isso não aconteceu desse modo.
Isto é pura propaganda. Você está a mentir...
Meça as suas palavras Mulher, vire-as, mude as suas cores, dê-lhes
novas dimensões, pese-as, objectifique-as tal como eles objectificam
você e eles, de modo a que eles possam entender nas suas mentes
objectivas... a intenção, extensão e profundidade da sua
própria indiferença e destrutividade...
Revire o seu mundo íntimo e o externo,
elimine as tempestades do deserto e os redemoinhos,
represe os rios
pare as correntes
apague os sentimentos com uma borracha, limpe-os,
torne-se o zumbi do PTSD
[1]
apele a eles, de modo a que tenham piedade de si.
isto é o que eles querem ouvir, precisam ouvir...
seu outro lado é o Salvador...
o salvador objectivo
que precisa entender antes de salvar...
antes que ele salve você, de si próprio...
Mas ao mesmo tempo controle-se, controle seus sentimentos e
emoções porque a mente objectiva não aceita o que cair
fora da sua estrutura... o que não estiver alinhado com os seus
pensamentos...
Erga-se acima disto tudo e torne-se o super-homem e super-mulher
nietzcheanos... torne-se como Deus, mas não mostre a sua deidade porque
a mente objectiva não pode aceitar qualquer coisa que não esteja
empiricamente provada...
Assim, não os etiquete, mas etiquete-se a si própria... eles
precisam da etiquetas, afinal de contas eles a etiquetaram. Etiquete-se e
atribua-se a si próprio também um código de barras.
Impressões digitais e escanerização do olho. Faça
medidas biométricas e numere-se. Afixe a etiqueta... de modo a que eles
possam entender, entender objectivamente.
Deixe de lado seu sofrimento, suas noites sem sono, sua aflição,
sua perda, sua confusão, seu isolamento, seus ausentes, deixe de lado o
seu coração... e afixe a etiqueta.
Ouça bem e explique calmamente, não fique super excitado,
não traga o passado, concentre-se no aqui e agora, no futuro...
objectivamente.
Desligue-se... extirpe suas memórias, extirpe seu sofrimento, extirpe-se
a si própria e torne-se a Imparcialidade, um exemplo vivo de Brancura.
É isto que você precisa fazer, para ser entendida pela Mente
Objectiva.
Alternativamente você rasga os retratos e fotos objectivas,
você desliga a informação e os dados, você escava
ainda mais profundamente no seu deserto íntimo, nos seus espinhos, nas
suas feridas... deixa-as sangrar outra vez, expô-las ao ar fresco e
à luz do sol, expô-las à Vida...
Um renascimento, não aquele de que eles lhe falaram, não as suas
dores do parto nem a dor do trabalho, as dores da sua nova ordem mundial, mas
suas... a sua nova ordem mundial...
Exponha-as à História e à Vida, de modo a que possa viver
outra vez.
Não os deixem cortar a sua língua com a "objectividade".
Vomite, ruja...
Torne-se o guerreiro e o poeta da sua própria
Libertação... com Sabedoria, uma Sabedoria antiga, a sua antiga
Sabedoria.
12/Março/2009
[1] PTSD:
post traumatic stress disorder.
Distúrbio que afecta vítimas de violência. Caracteriza-se
pelo sentimento de que um evento traumático passado irá
repetir-se.
[*]
laylaanwar@gmail.com
O original encontra-se em
http://uncensoredarabwomanblues.blogspot.com/2009/03/on-objectivity.html
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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